Cultura
Quarta-feira, 24 de julho de 2024

Mangá usa o absurdo para satirizar o dia a dia de uma cuidadora de velhinhos

ÉRICO ASSIS
FOLHAPRESS – A cuidadora Yukie nota algo estranho: objetos somem à volta de Kazue, idosa pela qual é responsável. Feijões, sementes, o besouro de estimação da sua nora. Onde foram parar? Enquanto dá banho na idosa, acha sementes, botões e até besouros. Estão entre as pelancas de Kazue.
Chama-se a dedetização. Acham canetas, chaves, moedas e até uma nova espécie de aranha entre as pelancas. E uma mão. Era o marido de Kazue, que estava desaparecido.
A nora tem ideias. Leva a sogra para a farmácia e usa as pelancas para roubar produtos de beleza. A nora se dá conta que tem como lucrar ainda mais: usando a sogra para fazer contrabando de drogas.
Quando a investida acaba em morte, as pelancas servem para esconder os corpos. E ainda nem chegamos a dez páginas deste conto de “Dementia 21”, de Shintaro Kago.
A premissa dos 17 contos da coleção é a mesma: a jovem cuidadora Yukie é encarregada de um novo idoso e, apesar de ser uma moça valente, o desafio é sempre maior ou mais absurdo do que o esperado.
Uma das cuidadas faz cada coisa do mundo desaparecer conforme esquece que elas existem. Outra é uma senhora que, ao usar um creme mágico, provoca uma invasão de rugas na cidade.
Há ainda uma disputa entre cuidadoras na selva e a civilização que surge numa casa de repouso feita de quartos autossuficientes, sem comunicação e empilhados até o infinito.
Cada conto segue a mesma progressão, como num sonho em que se aceita uma decorrência absurda atrás da outra.
Kago é identificado na edição como expoente do “ero guro nansensu”, gênero que tem histórico quase centenário no Japão. O autor prefere identificar-se como “kisou mangaka”, ou quadrinista do bizarro.
Produzindo quadrinhos desde os anos 1980, ele aportou no Ocidente via internet, em traduções piratas como a da famosa “Abstraction” –conto erótico em que as próprias páginas da HQ começam a girar, cubisticamente, e confundir os personagens.
Hoje suas ilustrações e pequenas animações se difundem por Instagram e TikTok. Fora fetiches sexuais e aulas de anatomia bizarra, o autor é chegado numa escatologia.
Perto deste material que circula pela rede, “Dementia 21” é Kago comportado. Criadas originalmente para uma revista digital, as HQs têm desenho simplificado, como o de um manual ou cartilha. O contraste é positivo: na surrealidade das tramas, o desenho técnico e econômico representa o banal e como o banal é invadido pelo surreal.
Há um outro nível de banalidade, que é o tema do envelhecimento da população no Japão. O país tem a segunda maior expectativa de vida do mundo, 85 anos, e um terço dos japoneses tem mais de 60 anos. A demanda por cuidados com idosos já até cruzou outro bom mangá publicado no Brasil, “Virgem Depois dos 30”, de Atsuhiko Nakamura e Bargain Sakurachi.
Frente a esta pauta, Kago responde com a comédia do absurdo. Não vá ter medo do rombo na Previdência ou de sustentar seus pais. Os velhinhos são mais perigosos.

Dementia 21
Avaliação: ótimo
Autor: Shintaro Kago. Trad.: Drik Sada. Ed. Todavia. R$ 69,90 (280 págs.)