Cultura
Quarta-feira, 4 de março de 2026

Romance de Diogo Bercito usa aranhas para falar do medo de perder os pais

Diogo Bercito ficou devastado quando Brunilda morreu. Ela vivia numa casca de tatu abandonada e era das mais queridas “pet aranhas” que teve na infância. “Eu me lembro de ficar aos prantos, de enterrar a Brunilda.”
Bercito nem sabe se chamar de “pet” é a maneira mais apropriada de descrever sua relação com essa caranguejeira e outros tantos aracnídeos que teciam as mais engenhosas teias no terreno onde seus pais tinham uma casa no interior, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Quando criança, ele adorava se perder no mato, espiando dentro de troncos de árvore e “fazendo o inventário dessa natureza”.
Se ele agora lança “A Solidão das Aranhas”, seu quarto livro e segundo romance, o primeiro a ser lançado pela Companhia das Letras, é a esse passado campestre que Bercito se sente na obrigação de voltar para falar também sobre o seu pai.
“Ele tinha uma relação muito forte com a natureza, um encantamento. Meu pai odiava a cidade”, conta o autor. E, aí, no ano passado, seu pai morreu. Antes que pudesse ler a obra do filho que aborda justamente o pavor que o protagonista tem de perder os seus pais.
“O livro não tinha sido publicado ainda, mas já estava escrito e editado quando eu recebi a notícia de que ele tinha morrido. Então, é muito dolorido pensar no livro sabendo que aquele medo que eu estava trabalhando nele se concretizou tão imediatamente.”
Bercito sabe também que há outra maneira de lidar com isso: vê a obra como uma homenagem a Renato. Não fosse o pai, talvez jamais soubesse quão inteligentes são algumas espécies desses invertebrados. “Tem aranhas que constroem teias absolutamente complexas, utilizando diversos tipos de fio. Tem as que capturam vagalumes e as que usam as luzes deles para atrair outras presas.”
Bercito poderia ficar horas falando sobre o tema. Escolheu escrever.
O autor de “Brimos”, sobre a imigração árabe no Brasil, já havia estreado no formato romance com “Vou Sumir Quando a Vela se Apagar”, a história de amor entre dois homens que tem Síria e Líbano como ponto de partida.
O novo título começa com o retorno de Gabriel ao sítio da infância, no fictício povoado de São Jorge do Pomar. Volta porque os pais morreram e ali reencontra ruínas físicas e emocionais, simbolizadas por uma oficina desmoronada e pela presença enigmática de Domingos, um andarilho fascinado por aranhas.
Bercito rejeita o enquadramento fácil de “romance LGBTQIA+” para “A Solidão das Aranhas”. É romance, ponto. “Entendo a necessidade do mercado de trabalhar com esses rótulos. Como escritor, não tenho essa necessidade. Não escrevo para que ele seja um livro LGBTQIA+, ou pensando no leitor interessado nesse tema. Nem era o meu plano quando comecei a escrever. Era um romance sobre o medo de perder os pais.”
Ele conta que o personagem Domingos surgiu enquanto ia elaborando a história, e a relação dele com Gabriel foi se desenvolvendo organicamente. “Não penso nele como nada além de um romance Acho que a pretensão do escritor é universalizante. E o medo de perder os pais é uma das grandes experiências universais. A sexualidade do personagem é um pouco secundária para mim.”
Bercito diz que tomou cuidado para não escorregar na armadilha de construir um ambiente rural bruto e hostil à diversidade sexual. Não queria retratar “vizinhos, amigos de infância do Gabriel como personagens caricatos”, nem insistir numa “dicotomia até bastante simplória” em que “a cidade é um espaço onde você pode viver sua sexualidade, e o interior acaba sendo repressivo”.
Em vez disso, opta por uma trama com muitas nuances. É como a ecdise, processo fisiológico que artrópodes como aranhas passam -a troca periódica da carapaça. Esse movimento espelha o amadurecimento e o luto pelos quais o protagonista atravessa.
O que Bercito faz, em seu livro, é buscar essa “poesia das aranhas” sem descuidar da verossimilhança científica. A formação como historiador e jornalista o ajudou a pesquisar extensamente sobre os aracnídeos, tendo o zelo de consultar apenas materiais publicados até os anos 1930. A história se passa nessa década, e não faria sentido os personagens soltarem informações descobertas só depois.
O autor chegou a fazer um curso virtual do Butantan, ao qual assistiu num aeroporto dos Estados Unidos, onde mora. Lembra de temer que passageiros vizinhos, espiando a tela de seu celular, vissem fotos de membros necrosados pelo veneno de picada de aranha. Taí uma teia difícil de explicar à polícia migratória caso alguém o denunciasse.
A SOLIDÃO DAS ARANHAS
Preço R$ 79,90 (160 págs.); R$ 34,90 (ebook)
Autoria Diogo Bercito
Editora Companhia das Letras
Debate de lançamento Quarta-feira (4), às 19h30, na Megafauna (av. Ipiranga, 200, loja 53, República, São Paulo-SP)

Fonte: FolhaPress