
Diogo Bercito ficou devastado quando Brunilda morreu. Ela vivia numa casca de tatu abandonada e era das mais queridas “pet aranhas” que teve na infância. “Eu me lembro de ficar aos prantos, de enterrar a Brunilda.”
Bercito nem sabe se chamar de “pet” é a maneira mais apropriada de descrever sua relação com essa caranguejeira e outros tantos aracnídeos que teciam as mais engenhosas teias no terreno onde seus pais tinham uma casa no interior, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Quando criança, ele adorava se perder no mato, espiando dentro de troncos de árvore e “fazendo o inventário dessa natureza”.
Se ele agora lança “A Solidão das Aranhas”, seu quarto livro e segundo romance, o primeiro a ser lançado pela Companhia das Letras, é a esse passado campestre que Bercito se sente na obrigação de voltar para falar também sobre o seu pai.
“Ele tinha uma relação muito forte com a natureza, um encantamento. Meu pai odiava a cidade”, conta o autor. E, aí, no ano passado, seu pai morreu. Antes que pudesse ler a obra do filho que aborda justamente o pavor que o protagonista tem de perder os seus pais.
“O livro não tinha sido publicado ainda, mas já estava escrito e editado quando eu recebi a notícia de que ele tinha morrido. Então, é muito dolorido pensar no livro sabendo que aquele medo que eu estava trabalhando nele se concretizou tão imediatamente.”
Bercito sabe também que há outra maneira de lidar com isso: vê a obra como uma homenagem a Renato. Não fosse o pai, talvez jamais soubesse quão inteligentes são algumas espécies desses invertebrados. “Tem aranhas que constroem teias absolutamente complexas, utilizando diversos tipos de fio. Tem as que capturam vagalumes e as que usam as luzes deles para atrair outras presas.”
Bercito poderia ficar horas falando sobre o tema. Escolheu escrever.
O autor de “Brimos”, sobre a imigração árabe no Brasil, já havia estreado no formato romance com “Vou Sumir Quando a Vela se Apagar”, a história de amor entre dois homens que tem Síria e Líbano como ponto de partida.
O novo título começa com o retorno de Gabriel ao sítio da infância, no fictício povoado de São Jorge do Pomar. Volta porque os pais morreram e ali reencontra ruínas físicas e emocionais, simbolizadas por uma oficina desmoronada e pela presença enigmática de Domingos, um andarilho fascinado por aranhas.
Bercito rejeita o enquadramento fácil de “romance LGBTQIA+” para “A Solidão das Aranhas”. É romance, ponto. “Entendo a necessidade do mercado de trabalhar com esses rótulos. Como escritor, não tenho essa necessidade. Não escrevo para que ele seja um livro LGBTQIA+, ou pensando no leitor interessado nesse tema. Nem era o meu plano quando comecei a escrever. Era um romance sobre o medo de perder os pais.”
Ele conta que o personagem Domingos surgiu enquanto ia elaborando a história, e a relação dele com Gabriel foi se desenvolvendo organicamente. “Não penso nele como nada além de um romance Acho que a pretensão do escritor é universalizante. E o medo de perder os pais é uma das grandes experiências universais. A sexualidade do personagem é um pouco secundária para mim.”
Bercito diz que tomou cuidado para não escorregar na armadilha de construir um ambiente rural bruto e hostil à diversidade sexual. Não queria retratar “vizinhos, amigos de infância do Gabriel como personagens caricatos”, nem insistir numa “dicotomia até bastante simplória” em que “a cidade é um espaço onde você pode viver sua sexualidade, e o interior acaba sendo repressivo”.
Em vez disso, opta por uma trama com muitas nuances. É como a ecdise, processo fisiológico que artrópodes como aranhas passam -a troca periódica da carapaça. Esse movimento espelha o amadurecimento e o luto pelos quais o protagonista atravessa.
O que Bercito faz, em seu livro, é buscar essa “poesia das aranhas” sem descuidar da verossimilhança científica. A formação como historiador e jornalista o ajudou a pesquisar extensamente sobre os aracnídeos, tendo o zelo de consultar apenas materiais publicados até os anos 1930. A história se passa nessa década, e não faria sentido os personagens soltarem informações descobertas só depois.
O autor chegou a fazer um curso virtual do Butantan, ao qual assistiu num aeroporto dos Estados Unidos, onde mora. Lembra de temer que passageiros vizinhos, espiando a tela de seu celular, vissem fotos de membros necrosados pelo veneno de picada de aranha. Taí uma teia difícil de explicar à polícia migratória caso alguém o denunciasse.
A SOLIDÃO DAS ARANHAS
Preço R$ 79,90 (160 págs.); R$ 34,90 (ebook)
Autoria Diogo Bercito
Editora Companhia das Letras
Debate de lançamento Quarta-feira (4), às 19h30, na Megafauna (av. Ipiranga, 200, loja 53, República, São Paulo-SP)
Fonte: FolhaPress