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Itamar Vieira Junior dissolve sombra de ‘Torto Arado’ em novas explorações da terra

WALTER PORTO –

Imagine escrever um romance que vendeu mais de 165 mil cópias, ganhou os principais prêmios literários do país e pautou redes sociais de forma quase sem precedentes na literatura brasileira contemporânea. O que você faz depois disso? E o medo de virar um autor de um livro só?
Itamar Vieira Junior coça atrás da cabeça antes de responder. “Sempre fica esse anseio. Não chega a ser um medo. Não quero que ‘Torto Arado’ se torne uma sombra.”
“Essa ansiedade deve permanecer, e o escritor deve guardar esse desejo de desafiar e ser desafiado. A não ser que ele não tenha mais nada a dizer, se acha que cumpriu seu papel como autor. Eu acho que ainda não cumpri.”
É isso que procura confirmar a publicação de “Doramar ou a Odisseia”, uma coletânea que reembala contos já editados e apresenta inéditos de Vieira Junior, sempre abordando assuntos caros ao autor –personagens marginalizados, conflitos fundiários e o chamado para um novo Brasil possível, que na verdade sempre esteve aí.
O conto “Alma”, por exemplo, acompanha uma mulher que escapa do cativeiro da escravidão e anda por terras infindáveis no sertão até fincar as raízes de uma nova comunidade. Foi baseado numa história real que o escritor ouviu em Tijuaçu, no interior da Bahia.
“É uma comunidade com muitas tradições bonitas. E um dia perguntei quando chegaram aqui. E me contaram que começou com uma pioneira, Mariinha Rodrigues, que caminhou uns 400 quilômetros de Salvador para Senhor do Bonfim. Ninguém sabia dizer o que a fez caminhar tanto. Claro, não tem documentos, nada. Por muito tempo, minha imaginação martelou esse caminho todo que ela teria percorrido a pé.”
Vieira Junior, que também é colunista deste jornal, recria em outra trama marcante os pensamentos de Arthur Bispo do Rosário -artista plástico sergipano que foi internado em clínicas psiquiátricas, com diagnóstico de esquizofrenia paranoica, e não por isso deixou de manufaturar obras de amplo reconhecimento artístico.
“Eu sou a voz que te acompanha desde o início”, começa o conto que segue por nove páginas num fôlego só, “a voz que se faz ouvir, a voz que é silenciada, a voz que é um som no vazio das coisas e que também não se fará som na ausência de tudo, eu que te acompanho desde sempre”.
Essas duas narrativas já estavam em “A Oração do Carrasco”, coletânea publicada pela Mondrongo há quatro anos, num esforço que o autor descreve como quase solitário. Todos os sete contos daquele livro estão neste lançamento, reorganizados em parceria com o editor Leandro Sarmatz, da Todavia, e publicados com o triplo daquela tiragem inicial.
“Aquilo que seria uma reedição se tornou, aos poucos, um novo arranjo de narrativas”, diz Sarmatz. “Esse conjunto de histórias já trazia impressas as maiores qualidades do autor -a narrativa firme, a criação de personagens pouco frequentes em nossa ficção, o trabalho de linguagem e o inconformismo. Itamar retrabalhou todas as histórias e compôs um sentido conceitual (como nos antigos álbuns conceituais de rock) ao livro.”
Mas nem só de passado ele vive. Em “Voltar”, um dos dois contos publicados agora pela primeira vez, o escritor acompanha o agente de uma usina hidrelétrica encarregado de despejar a última moradora de um povoado, numa trama que comove a cada reviravolta.
O tema da terra, para Vieira Junior, não se esgota nem aqui nem tão cedo. Ele prepara mais dois romances que se debruçam sobre isso, em formatos e regiões diferentes. Seu próximo livro, ele adianta, se passa em parte numa cidade grande e em parte num povoado que vive em torno de um monastério, que domina todo o terreno.
“No fundo, a natureza do conflito é sempre a mesma, mas esses matizes dão conta de uma relação mais profunda das pessoas com o problema fundiário do país”, diz o autor, que desde a publicação de “Torto Arado” sempre demonstrou achar impossível dissociar vidas privadas de questões públicas. “Os sentimentos das pessoas não estão ancorados no vazio.”
O best-seller de Vieira Junior, aliás, ainda não dá sinais de desaceleração -vendeu a grande maioria de seus exemplares desde novembro, quando venceu o Jabuti de melhor romance, e os leitores não perderam o ímpeto de falar sobre ele.
“Só quem não aguenta mais é o autor”, brinca Vieira Junior, dando risada. O que de maneira alguma significa que ele queira deixar a obra para trás -conta que insistiu para ser identificado como “autor de ‘Torto Arado'” em uma das capas do novo livro.
Auras de consenso como essa que envolveu o romance não deixam de ser um tanto incômodas para o autor, como ele aponta ao concordar com um comentário do repórter. O escritor baiano lembra uma reação célebre de Clarice Lispector -autora, aliás, que ele mobiliza no conto que dá nome à coletânea- para falar sobre o desconforto com a unanimidade.
“Clarice estava no hospital, prestes a morrer, e soube que ‘A Hora da Estrela’ tinha virado best-seller. Aí disse, tem alguma coisa errada, se as pessoas estão comprando demais eu não escrevi esse livro direito. Essas dúvidas atravessam o autor, não tenha dúvida.”
Ele discorda, contudo, que o livro não tenha provocado dissenso. “Se você buscar lá na Amazon, nas redes sociais de leitores, vai encontrar críticas. Saiu uma [na revista Crusoé] dizendo, ‘Torto Arado’ é o melhor livro de literatura soviética escrito no Brasil nos últimos três anos.”
Mas a história como um todo, evidente, é de sucesso –um autor desconhecido que virou nome nacional pela força de seu primeiro romance. É um trajeto que ecoa boa parte dos contos de “Doramar ou a Odisseia”. O autor prefere desenlaces catárticos, epifanias que surgem do imponderável, a desfechos niilistas.
“Esse é um caminho que considero, se não inevitável, algo surpreendente. Esperamos isso da vida, ser surpreendidos”, afirma. “Eu fiquei surpreendido com o caminho de ‘Torto Arado’. Esse desejo de transpor as destinações que nos são dadas é algo absolutamente humano.”

Fonte: FolhaPress

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