Cultura
Quinta-feira, 23 de maio de 2024

Miguel Rio Branco, um fotógrafo gigante, diz que imagens se tornaram banais


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um dos maiores fotógrafos do país, Miguel Rio Branco quase não encosta numa câmera há mais de uma década, quando se mudou para Araras, na região serrana do Rio de Janeiro.
“Acho que cheguei num ponto em que fiz tudo o que poderia com a fotografia. Meu interesse hoje é muito mais de processos tridimensionais, instalações, questões arquitetônicas”, diz ele, que se define como “mais um artista do que um fotógrafo”, trabalhando ainda com pintura, vídeo, instalação.
“A fotografia virou algo banal. Documentar um mundo que já é continuamente documentado não me interessa mais.”
É um pouco esse distanciamento da fotografia como testemunho da realidade que o Instituto Moreira Salles busca destrinchar na exposição do fotógrafo que inaugura agora, na sua sede na avenida Paulista.
Organizada pelo próprio Rio Branco, ao lado do curador Thyago Nogueira, ela revela como a sua produção se afastou cada vez mais do documental até culminar nas imagens sintéticas, depuradas de hoje, justapostas em grandes painéis de modo a dar a elas novos sentidos.
É daí, aliás, que vem o nome da mostra, “Palavras Cruzadas, Sonhadas, Rasgadas, Roubadas, Usadas, Sangradas”. “A ideia do projeto era pensar a fotografia como escrita e qual é a sintaxe própria desse universo fotográfico. E ela tem a ver com um cruzamento de imagens de diferentes contextos e épocas para formar novas palavras, frases”, diz Nogueira.
“Mais do que temas específicos, a grande contribuição do Miguel para a fotografia foi uma reflexão sobre o que significa a unidade da imagem e como articular essa linguagem.”
A exposição começa com cliques da Nova York do início dos anos 1970. São registros cotidianos, em preto e branco, que antecipam várias marcas do artista, do talento para composições de quadro a um certo fascínio por personagens e cenários urbanos decadentes.
A partir dali, o fotógrafo mergulha cada vez mais nas cores saturadas e submundos sórdidos, impregnados de sujeira e suor, que viraram sinônimo da sua obra.
São traços presentes em algumas das séries fundamentais da sua carreira, como os retratos de prostitutas da rua do Maciel, em Salvador, em que “pele humana e urbana” formam um amálgama, segundo Nogueira. Ou de “Maldicidade” que, aqui numa versão inédita, embaralha registros vibrantes de ruas pela América Latina, feitos na época em que era correspondente da agência Magnum.
Rio Branco já mostra nesse trabalho um certo desprendimento em relação a datas, lugares, pessoas. Mas Nogueira diz que o verdadeiro momento de ruptura acontece quando ele adota uma câmera de médio formato. O equipamento, mais pesado, muitas vezes dependente de tripé, impõe uma outra reflexão sobre o quadro. E a obra se torna mais pictórica, contemplativa.
É a partir dali que as imagens de Rio Branco parecem alcançar sua potência, combinadas de modo a dar luz a significados que não estavam presentes nelas quando isoladas, como planos de um filme construtivista russo.
Ou melhor, como uma sinfonia, diz Nogueira, já que as fotografias também se abandonam as pretensões narrativas. “É como se ele depurasse a imagem a ponto de ela virar uma nota musical e fosse recombinando elas para construir sentimentos diferentes, medo, angústia, aflição”, descreve Nogueira.
Uma sinfonia algo melancólica num contexto como o de agora, de pandemia. Nogueira afirma que, mesmo que a configuração da mostra não tenha sido afetada pelo coronavírus, ele passou a ter novas leituras das imagens depois dos últimos meses –ora com a angústia profunda de quem percebe que as cenas de encontros e acasos ali retratadas foram postas em xeque, ora como indícios de que o processo de exclusão social que chegou a um ápice agora, mas já estava em curso há muito tempo.
Rio Branco concorda que há uma melancolia, mas não de uma cidade esvaziada – “as pessoas não respeitam porcaria nenhuma, continuaram se contaminando e vivendo normalmente”, diz -, e sim da percepção de uma falência de um projeto de vida em comum nas cidades.
Ele questiona por que a mostra está sendo inaugurada agora. “Que interesse existe em fazer uma mostra num momento em que as pessoas estão restringidas a visitar?”
Em nota, Nogueira afirma que o IMS obedece a todas as orientações das autoridades de saúde, e argumenta que uma obra como a de Rio Branco ajuda as pessoas a lidarem com o momento difícil que atravessamos. “A pandemia deve se estender por tempo indeterminado. Teremos de aprender a conviver com restrições variadas”, diz