Cultura
Sexta-feira, 12 de abril de 2024

Jim Carrey faz rir e chorar em série que pode agradar até aos que não gostam do ator

MARCELLA FRANCO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A humanidade se divide entre os que riem com Jim Carrey e os que não veem a menor graça nele. Tivesse qualquer embasamento técnico, esta análise ainda diria que fazem parte do segundo grupo os que amam e aplaudem qualquer performance dramática do ator –e a pesquisa terminaria por afirmar que são eles os seus verdadeiros fãs.
À primeira vista, parece que é só para eles, estes fãs de verdade, que “Kidding” foi feita. A série, que estreou em 2018 nos Estados Unidos e agora tem suas duas temporadas disponíveis no Brasil via Globoplay, conta a história de Jeff Piccirillo, que apresenta o infantil “Mr. Pickles’ Puppet Time”.
Seu envolvimento com o programa de fantoches é tão profundo que parece não haver separação entre Piccirillo e Mr. Pickles, o apresentador carismático nas telas e quase monástico na vida pessoal – ele não bebe álcool nem fala palavrões, mantém um corte de cabelo esquisito e vive para fazer o bem para as crianças.
E é andando retinho na linha dentro e fora da TV que ele se vê surpreendido por um arrasador golpe do destino. Um de seus filhos gêmeos morre num acidente, quando a mãe dos meninos dirigia o carro com ambos no banco traseiro.
É o argumento perfeito para que Carrey exercite seu talento para o drama, tão evidente em produções como “O Show de Truman” e “Jim e Andy”. A partir da tragédia, o casamento de Pickles se desfaz, e tem início um processo de digestão da dor e de vazão da raiva.
Só que um exame mais generoso dos roteiros espetaculares de cada episódio mostra que “Kidding” é, sim, uma série cômica, com piadas afiadas e quase impróprias e que abrem uma oportunidade talvez inédita –a de as pessoas do segundo grupo fazerem as pazes como o humor de Carrey.
O papel do homem que sofre para administrar um império milionário e, ao mesmo tempo, o pior trauma possível a um ser humano dá ao ator a chance de exprimir polos tão opostos quanto o riso e o choro em uma atmosfera controlada. E, assim, fica impossível não se apaixonar por ele.
“Controlada”, aliás, aqui não quer dizer careta, porque “Kidding” passa a quilômetros da discrição. Seu texto é sarcástico, a estética é vibrante e a quantidade de maconha por metro quadrado –tanto em cena quanto provavelmente nos bastidores– só perde para “Narcos” e “Breaking Bad”.
“Kidding” demonstra domínio pleno de uma equação fundamental para o universo das séries, em que, quando um elemento entra em desequilíbrio, tudo desanda e alguém muda de canal. É a fórmula e o ritmo (os episódios têm meia hora de duração), mais consistência, mais qualidade, igual à vontade de maratonar.
Criada por Dave Holstein, a série tem como produtor executivo o diretor Michel Gondry, com quem Carrey trabalhou em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, e um elenco impecável, incluindo Frank Langella no papel do pai de Pickles, Judy Greer como a quase ex-mulher, e Catherine Keener, que interpreta a irmã Deirdre, a criadora dos fantoches, à beira de um colapso nervoso, e que se prova no fim a verdadeira força motora da família Piccirillo.