Economia
Domingo, 19 de maio de 2024

Para enfrentar a crise, bar e restaurante vão além do delivery

No processo de se reinventar para sobreviver em tempos de pandemia do coronavírus, bares e restaurantes se apegaram aos serviços de entrega em casa (delivery), mas muitos foram além e criaram ações e produtos para se diferenciarem enquanto estão de portas fechadas à espera de um abrandamento da pandemia do coronavírus.

Garrafas especiais para drinks, “rodízio” de pizzas para delivery, comidas de chefs famosos em marmitas, drive thru na fábrica para venda de bebidas estão entre as novidades introduzidas no setor que, desde o início da quarentena, em meados de março, perdeu cerca de 200 mil estabelecimentos em todo o País, segundo cálculos da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

Com 30 anos de atuação na capital paulista, a Pizzaria Villa Roma não tinha ainda operado com delivery. Na unidade do bairro Jardins atendia entre 150 e 180 clientes aos finais de semana, número que chegava a 200 pessoas às quartas-feiras, dia de rodízio. Na filial do Tatuapé os finais de semana eram ainda mais movimentados, chegando a 260 pessoas, informa o sócio Gabriel Pinheiro.

Sem alternativas, ele teve de recorrer às entregas em casa mas, diante da concorrência que já havia no segmento pensou em formas de se diferenciar. Primeiro, encomendou embalagens que permitem que o vapor saia mais rapidamente da caixa, mantendo a pizza crocante mesmo que tenha de ser reaquecida, e passou a enviar sachês com álcool gel aos clientes.

Pinheiro também envia folhetos que renova toda semana com informações sobre cuidados contra o vírus e recomendação de três filmes, três vídeos e três músicas. O delivery passou a representar 20% do faturamento que tinha antes do surto da covid-19. Após ouvir de vários fregueses que sentiam saudades do rodízio pois podiam provar vários sabores, ele criou, no mês passado, a “pizza rodízio”, com quatro recheios diferentes. A opção passou a ser o carro-chefe da Villa Roma.

Dos 32 funcionários, 22 estão com contratos suspensos, conforme prevê a MP 936. “A suspensão vence no meio deste mês e espero que a medida seja prorrogada”, afirma Pinheiro, que tentou obter crédito de R$ 50 mil em várias instituições financeiras mas não conseguiu. A abertura de uma terceira pizzaria, em Fortaleza (CE), que seria administrada pelo sogro foi congelada.

Drinque engarrafado

Apesar de servir petiscos e “comida de bistrô”, o forte do Drosophyla Bar são os coquetéis originais. Criado há 34 anos por Lilian Varella, o bar ocupa há cinco anos um imóvel dos anos 20 tombado pelo patrimônio histórico no centro de São Paulo. Diante da pandemia, a proprietária precisou aderir ao “universo do delivery para tentar sobreviver”, mas encontrou dificuldades em entregar drinques sem perda de qualidade.

Com ajuda de um grupo de amigos da plataforma Sip Lovers, que criou garrafinhas de 100 mililitros com tampas que mantêm características e sabores de algumas bebidas, Lilian tem conseguido entregar quatro dos seus drinques preparados pela bartender Hannah Jacomme. As garrafas têm selos com a frase “Fique em casa” e o nome da bebida e do estabelecimento. Entregas em até 2 km de distância são feitos em bicicletas pela equipe do Drosophyla. Os mais distantes são por meio de aplicativos.

Esse tipo de venda representa só 8% do que o bar atendia, mas Lilian afirma estar “cruzando o oceano nadando com um braço só para fazer coisas inovadoras.” Pessoalmente, ela colore e escreve cartões que são enviados aos clientes explicando ingredientes, como o drinque foi feito e como deve ser servido. Também fala dos pratos entregues, além de ter introduzido dois tipos de hambúrguer que não estavam no cardápio.

Dos 16 funcionários, metade está com os contratos suspensos temporariamente. “Se o governo não manter a medida (MP 936) não sei quanto tempo vou conseguir segurar, até porque tentei um empréstimo, mas está difícil conseguir”, afirma Lilian.

A Cervejaria Madalena iniciou a venda por sistema drive thru em sua fábrica de cervejas artesanais em Santo André, no ABC paulista, onde mantinha uma loja própria. Também lançou garrafas plásticas de um e cinco litros, especiais para o transporte de cervejas na venda por delivery.

A fábrica tem capacidade para produzir 120 mil litros por mês e os novos formatos de venda foram a saída para não parar, informa a empresa que operava com mais de mil pontos de venda em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Minas Gerais, Amazonas, Paraíba e Maranhão.

Sem crédito

Segundo a Abrasel, 15% dos cerca de 6 milhões de trabalhadores do setor em todo o País foram demitidos a partir de março. “Dos empresários do setor, 80% buscaram crédito nos bancos e, destes, 81% tiveram os empréstimos negados”, informa Percival Maricato, presidente da entidade em São Paulo.

Sua preocupação se ampliou após o governo de São Paulo ter colocado bares e restaurantes da capital e de outras grandes cidades na lista de retomada de atividades previstas só para julho. “Estávamos preparados para receber o público, ainda que limitado e nos propusemos a atender todos os critérios de segurança”, diz Maricato. “Precisávamos abrir as portas.”

Ele informa que, só no Estado de São Paulo, 20% do setor quebrou. “São cerca de 50 mil estabelecimentos, 100 mil pequenos empreendedores e mais de 300 mil funcionários que perderam seu ganha pão”.

Se o ritmo atual for mantido, ele calcula que, só neste mês, fecharão em média 1.650 estabelecimentos por dia e 9,9 mil trabalhadores perderão seus empregos. Maricato ressalta que o delivery está amenizando os custos para alguns restaurantes, mas 50% deles não adotaram o sistema, assim como 80% dos bares.

Fonte: Site Terra