Internacional
Sexta-feira, 12 de abril de 2024

Explosões antirracismo nos EUA já ajudaram republicanos

MARINA DIAS
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – “Parem de olhar seus celulares, vão conversar com os vizinhos e os convençam a votar.” Os gritos vinham de um americano de 37 anos que ganhou a atenção -e os aplausos- de 40 manifestantes na manhã desta quarta (3) em frente à Casa Branca.
Ele afirmou que tem comparecido aos protestos contra o racismo e a violência policial, mas teme que os atos que já tomaram mais de 430 cidades dos EUA fortaleçam a reação conservadora e ajudem a reeleger Donald Trump.
Segundo o americano, é preciso motivar jovens e negros que estão nas ruas a votar em novembro e, assim, tentar impedir que o passado se repita.
Protestos contra o racismo e a violência policial beneficiaram republicanos em outras disputas presidenciais, quando o partido não ocupava o poder central nos EUA.
Com o discurso da lei e da ordem, Richard Nixon se elegeu em 1968, em meio à convulsão social após o assassinato do líder Martin Luther King.
Entre 2014 e 2016, no governo Barack Obama, primeiro presidente negro do país, diversas cidades registraram atos do tipo. Ferguson, Baltimore, Nova York, Chicago, St. Louis e Charlotte fervilharam antes de Trump derrotar a democrata Hillary Clinton.
É preciso considerar os diferentes contextos socioeconômicos de cada época e acrescentar que, em 2016, os protestos também refletiam o cansaço com a política tradicional.
Desta vez, Trump está no cargo, o que deve testar o roteiro do passado em meio à pandemia e à crise. Ele, porém, já deixou claro que decidiu repetir o discurso da ordem diante da turbulência para tentar manter unida a base de eleitores conservadores, brancos e pouco escolarizados.
Ainda está pouco claro qual será o efeito dos protestos na eleição, mas é consenso entre analistas que os atos têm uma janela pequena para conseguir resultados que motivem manifestantes a ir às urnas –o voto não é obrigatório nos EUA.
Justin Hansford, professor da Universidade Howard, afirma que ativistas americanos tendem a votar em candidatos com propostas compatíveis com suas bandeiras. “Os manifestantes não vão votar em um democrata só porque ele não é Trump.”
Virtual candidato democrata e ex-vice de Barack Obama, Joe Biden tem o desafio de reverter a perspectiva. Ele teve apoio dos negros nas primárias do partido, mas não conquistou jovens que estavam com Bernie Sanders e resistem a um nome moderado.
Desde que os protestos começaram, Biden tem tentado construir a ideia de que tem um plano de governo que dialoga com as demandas dos atos. Diz que não vai negociar no medo e na divisão, como faz Trump, e defendeu uma reforma do sistema de Justiça.
“As pessoas que se mobilizam por esse muro de policiais, e por todos os outros muros que Trump defende, têm alguém que representa esse ódio. Nós não temos. Eu planejo votar em Biden porque não quero que Trump continue como presidente, mas ele não me inspira”, diz o manifestante Bernard, que não quis informar seu sobrenome.
Em 2016, os negros também estavam desmotivados e não saíram para votar em Hillary como haviam feito para eleger Obama em 2008 e em 2012.
A ausência desse grupo em estados-chave foi determinante para a vitória de Trump.
A participação dos negros em 2016 caiu 4,7% no país em relação a 2012. Em Michigan e Wisconsin, onde Trump venceu por margem apertada, a queda chegou a 12%.
Há dez dias, os EUA mergulharam em uma série de atos contra o racismo e a violência policial após a morte de George Floyd, um homem negro desarmado que teve o pescoço prensado no chão pelo joelho de um policial branco.
O agora ex-agente Derek Chauvin está preso e aguarda julgamento.
A ação, gravada por testemunhas, viralizou e mobilizou o país. Nesta quarta, a acusação de Chauvin foi ampliada para seus colegas; os quatro oficiais vão responder pelo assassinato de Floyd.
“Se alguma mudança efetiva tiver que acontecer no nosso sistema de Justiça, precisa ser nas próximas semanas porque, em dois meses, os políticos vão querer mudar de assunto e passar a ignorar esses pedidos”, diz Hansford.
Ele avalia que as pessoas devem continuar nas ruas para pressionar o Congresso e legisladores estaduais e municipais a aprovarem leis que mudem o modo como a polícia e o Judiciário atuam -favorecendo a corporação e prejudicando negros e pobres.
Os negros representam 13% dos 328 milhões de americanos, mas são a maioria das vítimas da Covid-19 e dos mais de 30 milhões de desempregados.
Pesquisas do fim de semana, já sob impacto dos protestos, mostravam Biden dez pontos percentuais à frente de Trump em todo o país –53% a 43%.
É preciso esperar para ver se os maiores protestos nos EUA desde os anos 1960 vão impulsionar mais eleitores às urnas ou se funcionarão mais uma vez como munição para o discurso ultraconservador.