Economia
Terça-feira, 23 de junho de 2026

BC indica em ata que combinará momentos de pausa e retomada do ciclo de cortes da Selic

O Banco Central indicou que combinará momentos de pausa e retomada no ciclo de cortes da taxa Selic para levar a inflação à meta de 3% no primeiro trimestre de 2028, um prazo mais longo do que o usual, mostrou nesta terça-feira, 23, a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

A autoridade monetária ressaltou que uma eventual tentativa de atingir a meta de inflação no último trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, demandaria “variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguida de diversos trimestres com inflação abaixo da meta.”

O BC avaliou serem mais adequadas trajetórias da Selic menos discrepantes às apontadas pelo mercado no boletim Focus, no questionário pré-Copom e na precificação da política monetária, que “contemplavam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”.

Para o BC, essas trajetórias levariam a inflação ao alvo de 3% apenas no primeiro trimestre de 2028 e evitariam “induzir volatilidade excessiva” nos ativos financeiros e agregados macroeconômicos.

O BC cortou a Selic em 0,25 ponto percentual na semana passada, a 14,25% ao ano, e deixou os próximos passos em aberto. A indicação de que poderia trabalhar para alcançar o alvo de 3% para o IPCA um trimestre após o atual horizonte relevante gerou reação negativa no mercado e foi seguida de uma elevação dos juros futuros no país.

Na ata, o BC argumentou que o conjunto de alternativas em avaliação para os juros deve ser ponderado “à luz das melhores práticas de política monetária, recomendando não reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes.”

A autarquia enfatizou no documento que as expectativas de mercado, a inflação corrente e suas projeções de preços se deterioraram e adicionou um fator não declarado anteriormente ao apontar que seu balanço de riscos para a inflação agora passou a ter “assimetria altista” — com fatores que apontam chance mais forte de alta dos preços à frente do que de baixa.

Como o mercado interpretou a ata

Na avaliação do economista-chefe da AZ Quest, André Muller, a ata tem tom conservador em suas avaliações, inclusive ao afirmar que os riscos de inflação pendem mais para pressões de alta. Para ele, o BC explicou melhor as razões para considerar trajetórias de juros que evitem flutuações bruscas, sem uma “leniência” da autarquia.

“Isso não traz risco de mudança na condução da política monetária de uma maneira mais ampla, pelo contrário, acho que o Copom segue conduzindo de maneira conservadora”, disse, avaliando que a continuidade de cortes de juros só será possível se os riscos inflacionários caírem.

Para o economista-chefe da XP, Caio Megale, “a combinação de uma descrição dura do cenário” para a inflação, “com a preferência revelada por uma trajetória que envolve pausas” no ciclo de juros sugere que o plano de voo atual do Copom inclui uma pausa na próxima reunião do Copom.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, disse que a ata trouxe maior preocupação com o cenário inflacionário, que exigirá restrição monetária maior, o que indica espaço menor para cortes de juros.

O conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord) Pablo Spyer, por sua vez, avaliou que a ata reforçou que o BC buscará uma trajetória mais gradual de convergência da inflação para a meta.

“A principal mensagem é que o ciclo de cortes (de juros) não está encerrado, mas o Banco Central reforça que os próximos passos dependerão da evolução da inflação, das expectativas e do cenário internacional”, disse.

Aceleração do PIB e política fiscal

A autoridade monetária também afirmou na ata que indicadores econômicos do Brasil mostram aceleração da atividade, com retorno de resultado significativo de setores mais cíclicos — cujo desempenho está mais ligado aos movimentos da economia.

A autarquia ainda voltou a mencionar que a política fiscal do governo tem um impacto de curto prazo, por meio de estímulo à demanda, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar os juros futuros.

“O Comitê mantém a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas”, disse.

No ambiente externo, o Copom apontou indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados da guerra.

Fonte: Reuters