
A área técnica do Mapa (Ministério da Agricultura) identificou um “elevadíssimo risco” para o setor de fertilizantes brasileiro com a eclosão da guerra no Irã e a imposição, pela China, de restrições à exportação desses insumos com ameaça de desabastecimento e elevação de preços internos já na safra que será plantada no segundo semestre.
A avaliação consta em duas notas técnicas produzidas pela secretaria-executiva do Mapa e obtidas pela Folha de S.Paulo. A documentação classificada como urgente e endereçada ao secretário-executivo do ministério, Irajá Lacerda.
“Os desdobramentos, atuais e potenciais, do presente cenário geopolítico expõem o Brasil a elevadíssimo risco de desabastecimento e de elevação de preços internos, por ocasião também dos impactos dos conflitos e medidas restritivas de mercado, na logística e preços de matérias-primas, já na safra 2026/2027”, diz o despacho entregue a Lacerda.
A assessoria da pasta aponta para um cenário de crise em duas frentes, com potencial de impacto no preço e na disponibilidade de produtos essenciais para a agricultura brasileira.
O Brasil é altamente vulnerável a choques externos nesse segmento, tendo dependência internacional de cerca de 85% dos fertilizantes usados. O país é o quarto maior consumidor global desses insumos e o principal importador.
Procurado, o Mapa não se manifestou até a conclusão desta reportagem.
No documento sobre a guerra no Irã, a pasta destaca que o fechamento do estreito de Hormuz passagem marítima estratégica para o tráfego internacional de petróleo e gás levou a uma “disparada do custo de navios-tanque e de LNG (gás natural liquefeito, na sigla em inglês)”.
“Gás natural é insumo crítico para a produção de amônia e, por consequência, de ureia. A IEA (Agência Internacional de Energia) já havia documentado, no conflito Israel-Irã de 2025, que interrupções no gás e nos fluxos físicos de comércio levaram à redução da produção de fertilizantes e evidenciaram a ligação direta entre segurança de suprimento de gás e segurança alimentar”, diz o relatório.
Após os ataques ordenados por Donald Trump contra o Irã, a Guarda Revolucionária do país persa anunciou o fechamento de Hormuz para navegação. O regime ameaçou ainda incendiar qualquer navio que tente atravessar a rota.
O resultado foi praticamente a total interrupção da travessia de navios.
Para a área técnica do Mapa, o risco imediato é de encarecimento de custos, atrasos na reposição e piora das condições de compra para o segundo semestre.
Mas, se o choque durar, “o risco migra de preço para disponibilidade”, ainda segundo o parecer.
A razão da preocupação do ministério é que cerca de 20% do comércio internacional de gás natural liquefeito transita por Hormuz.
“Para fertilizantes, a relevância do Irã e do Golfo [Pérsico] é dupla. Primeiro, porque o nitrogênio depende do gás. Segundo, porque parte importante da capacidade exportadora de ureia da Ásia Ocidental está na região”, diz a avaliação do Mapa.
A nota técnica elabora diferentes cenários, desde impactos para o setor de fertilizantes caso o fechamento de Hormuz dure poucas semanas até uma interrupção constante do tráfego pelos próximos seis meses, num cenário de guerra prolongada.
Nessa previsão mais negativa, o Brasil passaria a enfrentar risco de falta de determinados fertilizantes, sendo que as culturas mais expostas a prejuízos seriam soja, milho, cana e café.
Ainda na hipótese mais pessimista, a área técnica do Mapa sugere que o governo precisará ativar mecanismos emergenciais de financiamento agrícola para as culturas mais afetadas.
O fechamento do estreito de Hormuz, cujos efeitos recaem sobretudo sobre os insumos nitrogenados (como amônia e ureia), soma-se à decisão da China de restringir exportações de outro tipo de fertilizante.
O país asiático limitou as vendas internacionais dos chamados fosfatados até meados de 2026, com o objetivo de garantir seu próprio abastecimento interno.
A China é um dos principais fornecedores de fertilizantes para o Brasil. A participação do país asiático aumentou após a eclosão da guerra da Ucrânia, quando sanções e pressões dos países ocidentais dificultaram compras da Rússia e de Belarus.
“Há alto risco real de um déficit de volume estimado entre 1 e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026, suficiente para comprometer a produtividade das safras 2026/2027, segundo análises realizadas por empresas do setor”, afirma a nota técnica do Mapa.
A situação do Brasil se agrava pelo fato de que há poucos fornecedores de fosfatados no globo. Além da China, outros produtores relevantes são Rússia, Egito e Marrocos.
Entre as conclusões, a assessoria do Mapa apresenta um cenário de impacto econômico na agropecuária brasileira “devido à possibilidade de haver escassez de oferta de fertilizantes fosfatados em até 20% da demanda nacional”, além da elevação de preços, o que afetaria “a segurança alimentar, a produtividade e a competitividade do Brasil”.
A alta dependência externa do Brasil no segmento de fertilizantes é um problema antigo, que já deixou o país vulnerável em outros cenários de crise internacional, como na guerra da Ucrânia, com elevação de preços.
O governo federal tenta reduzir essa dependência com uma estratégia de longo prazo. No Plano Nacional de Fertilizantes, que começou a ser elaborado em 2021 e foi publicado em 2023, o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) define uma meta de reduzir em 50% a importação de fertilizantes até 2050. Há, porém, poucas perspectivas de medidas de curto prazo que possam reduzir o nível de dependência do Brasil.
Fonte: FolhaPress
