Economia
Quarta-feira, 4 de março de 2026

Escala 6×1: Olhar só planilha de custos é visão perversa, diz presidente do Sebrae

Fim da escala 6×1 é visto como positivo ou sem impactos entre MPEs, de acordo com levantamento do Sebrae; presidente da instituição destaca “modernização”, “qualidade de vida” e “aumento da produtividade”

Enquanto o Congresso não pauta a proposta pelo fim da jornada de 44 horas semanais (escala 6×1) sem redução de salário, o debate segue entre militantes da proposta e aqueles contrários, posicionando o tema como um dos principais embates políticos do ano, que, vale dizer, é de eleições para presidência, governo, senado e câmara.

As associações representativas dos setores produtivos, em geral, destacam os impactos negativos do fim da escala 6×1, apontando aumento de custos, que serão repassados ao consumidor, redução de lucro e inflação. Por meio de das redes sociais, o governo tem postado sistematicamente mensagens de incentivo à pauta, já fez uso até da trend ‘explicando com gatinhos‘, para divulgar.

Já na oposição, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), por exemplo, destaca  o custo de R$ 358,1 bilhões por ano em ajustes no atendimento ao público e contratação de pessoal adicional. A Abrasel também se posicionou, apontando que o aumento de custos será pago pelo consumidor, que não vai gostar da conta, segundo a associação.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula – e divulga – que o custo da redução de jornada de trabalho até 40 horas poderia ser de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano. Isso significaria um impacto de 7% na folha de pagamentos. A projeção considerou dois cenários: compensando a redução com horas extras ou com contratações novas. Segundo a projeção da CNI, os impactos serão sentidos com maior força na indústria da construção e nas micro e pequenas empresas industriais.

Apesar de as entidades representarem também empresas de menor porte, um levantamento do Sebrae feito entre micro e pequenas empresas (MPEs) revelou que a maioria vê impactos positivos, ou não vê impactos, na mudança de jornada de seus funcionários.

+ 67% da população no Sudeste apoia fim da escala 6×1, aponta pesquisa

Sebrae, que atua no suporte às MPEs, endossa o lado do governo e diz que está pronto para apoiar os empreendedores na adequação à nova jornada, caso se confirme a proposta.

Em entrevista à IstoÉ Dinheiro, o presidente do Sebrae nacional, Décio Lima, considera que a redução da jornada é uma modernização do mercado de trabalho brasileiro, e não deve ser vista apenas pelo ponto de vista do “custo momentâneo na planilha”.

“Trabalhamos com o debate de que nós não podemos ficar com essa cultura apenas na perversidade de olhar uma planilha momentânea de custos, né? Por isso que eu sempre digo, essa planilha de custos, ela tem que ser comparada com o crescimento econômico. Eu acredito que isso traz resultados fantásticos para as cadeias produtivas e para os setores. É uma questão de adaptação. Sempre que o Brasil procura se modernizar, há processos conservadores de resistências que trazem uma visão muito equivocada”.

Lima reforça o argumento da qualidade de vida dos trabalhadores – 90% dos empregados formais estão em pequenas empresas – e no ganho de produtividade e bem-estar com a mudança no mercado de trabalho. “Quanto mais abelha, mais mel, a economia cresce”, diz. Para ele, uma economia humanizada, que permita uma distribuição de renda melhor, “naturalmente vai gerar um processo de um crescimento econômico”.

O presidente do Sebrae, e ex-deputado federal em três mandatos, afirma “não ter dúvidas” de que essa mudança seria a eliminação de um atraso, uma vez que a escala 6×1 seria um modelo arcaico, herdado do sistema fordiano. “Então, um processo produtivo com aquela visão antiga é inimaginável dentro de um contexto de uma economia moderna”.

“A economia brasileira precisa se modernizar. Se o trabalhador atua sob um regime que beira o conceito escravocrata, a produtividade sofre. Quando as pessoas trabalham com entusiasmo e paixão, e não por mera obrigação cruel entre capital e trabalho, o resultado é superior. Por fim à escala 6×1 trará esse fôlego novo para as cadeias produtivas”

Sobre o posicionamento das entidades setoriais, Lima acredita que as dificuldades serão superadas, e que levará um tempo de adaptação, e, aqui, entraria o apoio do Sebrae, incluindo por meio de crédito, previsto em programas de fomento às MPEs. Em sua avaliação,  os negócios terão uma “expansão extraordinária”.

“Uma coisa é alguém que está prestando um serviço com obrigação, com cara feia, com cansaço, com sentimento de que o que ele faz é apenas para obter a renda do seu sustento, a outra coisa é nós termos um processo em que os trabalhadores pulverizados nos vários aspectos da economia estão ali apaixonados para fazer a entrega daquilo que sabem fazer”.

Governo divulga pesquisa que mostra impacto positivo

Na semana passada, a Secretaria de Comunicação (Secom) divulgou um levantamento da economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostrando que a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas teria potencial de gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevaria em cerca de 4% os níveis de produtividade no país.

Na esteira da pesquisa, o governo afirma:

“A conclusão central do dossiê é direta: o Brasil está pronto para trabalhar menos. O diagnóstico contraria projeções pessimistas do mercado e derruba o argumento de que a mudança poderia provocar queda no PIB ou agravar a insolvência das empresas”.

Entidades empresariais querem adiar votação do fim da escala 6×1

Entidades empresariais defendem protelar o debate e a votação do projeto que trata da redução da jornada de trabalho, batizado de fim da escala 6×1. O receio das entidades é de que a iminência das eleições “contamine” o debate e pressione os parlamentares a se posicionar favoravelmente ao tema, sem debate aprofundado.

A preocupação foi apresentada por uma série de entidades do setor produtivo, do agronegócio, transportes, comércio, à indústria, a parlamentares durante reunião da Coalizão das Frentes Parlamentares do Setor Produtivo.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) pediu aos parlamentares que o debate seja prorrogado para 2027 para que o tema não seja votado “no calor dos ânimos” e após um estudo minucioso dos impactos. Em comum, as entidades defendem também a manutenção da livre negociação da escala por acordos coletivos e flexibilização entre as partes.

O “Fla-Flu” do fim da escala 6×1 na política

O debate sobre o fim da escala 6×1 tornou-se o epicentro da disputa política brasileira no início de 2026. O governo Lula transformou a redução da jornada em sua principal bandeira para a reeleição, amparado por pesquisas que mostram um forte apelo popular — cerca de 51% dos eleitores afirmam que não votariam em candidatos contrários à medida. Atualmente, quatro propostas principais tramitam no Congresso, com destaque para a PEC da deputada Erika Hilton, que propõe 36 horas semanais e a possibilidade da semana de quatro dias, embora o relator Luiz Gastão sugira um teto de 40 horas.

A oposição, liderada por caciques do PL, União Brasil e Republicanos, reagiu de forma contundente, prometendo “dar a vida” para barrar a pauta. Figuras como Valdemar Costa Neto e Marcos Pereira alinharam-se ao setor empresarial, argumentando que a mudança retiraria a competitividade das empresas e que o “ócio excessivo” seria prejudicial à sociedade. O setor produtivo, representado pela CNI, reforça o coro pessimista, alertando para custos que seriam inevitavelmente repassados ao consumidor final, gerando inflação e instabilidade econômica.

No contra-ataque, o Palácio do Planalto e seus aliados utilizam dados técnicos e exemplos internacionais para combater o “terrorismo econômico”. O ministro Guilherme Boulos e a deputada Gleisi Hoffmann citam casos de sucesso na Islândia e no Japão, além de estudos que preveem a criação de até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil.

Fonte: IstoéDinheiro