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Terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Justiça da França começa a julgar recurso de Le Pen para disputar Presidência em 2027

Marine Le Pen, maior nome da ultradireita da França, começa nesta terça-feira (13) a tentar salvar sua candidatura à Presidência nas eleições de 2027. É o início do julgamento do recurso contra a condenação, no ano passado, que a tornou inelegível por cinco anos por desvio de fundos do Parlamento Europeu.
A deputada é acusada, juntamente com outros 11 réus do partido Reunião Nacional (RN), de usar 4,6 milhões (cerca de R$ 29 milhões), destinados a remunerar assessores, para pagar funcionários do partido sem vínculo com o Parlamento Europeu. Le Pen também foi condenada a quatro anos de prisão, dos quais dois em regime fechado. Está recorrendo em liberdade.
Seus defensores acusam a Justiça francesa de partidarismo, e a juíza encarregada do caso sofreu ameaças nas redes sociais e passou a andar com seguranças. O julgamento vai durar um mês, mas a sentença só deve ser anunciada em julho.
A revista alemã Der Spiegel publicou na semana passada que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cogitou sancionar os juízes encarregados do caso a exemplo do que fez contra ministros do STF durante o julgamento da trama golpista contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A notícia causou indignação no meio jurídico francês.
Le Pen, que denunciou “um processo político” em várias entrevistas, não se pronunciou na manhã desta segunda (12). Quem falou foi seu pupilo no partido, Jordan Bardella, presidente da RN. Segundo ele, “seria profundamente inquietante para a democracia” que a deputada seja impedida de disputar a Presidência.
Caso a sentença seja confirmada, o próprio Bardella, de apenas 30 anos, passaria a ser o provável candidato do partido. Algumas pesquisas o apontam até como mais competitivo que Le Pen, criando uma rivalidade nos bastidores que os dois têm se empenhado em minimizar publicamente.
“Jordan Bardella pode ganhar no meu lugar”, disse Le Pen no final do ano em entrevista ao jornal La Tribune Dimanche. Sobre Bardella também pesa uma acusação de desvio de fundos do Parlamento Europeu no caso dele, para gastos com media training na eleição de 2022. Por enquanto, porém, ele não é réu.
O debate na mídia francesa, muito polarizado, raramente aborda o mérito do caso. As evidências contra a RN são acachapantes, incluindo agendas com anotações forjadas para justificar trabalho parlamentar não realizado.
O julgamento ocorre em um momento volátil da política francesa. Desde a última eleição legislativa, em 2024, a França não tem uma maioria clara na Assembleia Nacional. Terceiro primeiro-ministro desde então, o centrista Sébastien Lecornu tem tido dificuldade para aprovar o orçamento deste ano.
Ultraesquerda e ultradireita pediram votos de censura ao gabinete de Lecornu, em protesto contra a aprovação na semana passada, pelo Conselho Europeu, do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Para derrubar o governo, basta a maioria simples dos deputados.
Lecornu deixou no ar a possibilidade de uma dissolução da Assembleia Nacional em março, caso ele perca no voto de censura. Por ora, porém, uma derrota do governo é pouco provável, graças ao apoio relutante do Partido Socialista, da esquerda moderada.
Majoritários até 2017, hoje os socialistas contam com apenas 69 dos 577 deputados. Em caso de eleição legislativa antecipada, as pesquisas indicam que correm o risco de desaparecer do mapa político história que se repete com partidos tradicionais, à direita e à esquerda, em outros países do continente.
Marine Le Pen, 57, herdou a Reunião Nacional (RN) do pai, o notório antissemita Jean-Marie Le Pen, que fundou o partido em 1972 com o nome de Frente Nacional. Nos últimos anos, ela conseguiu reabilitar a reputação do partido, historicamente visto como neofascista.
Ela foi derrotada por Emmanuel Macron no segundo turno nas duas últimas eleições presidenciais, com 33,9% dos votos em 2017 e 41,5% em 2022.
De acordo com pesquisa divulgada pela consultoria Verian, 42% dos franceses afirmam concordar com as ideias da RN, contra 44% que discordam. É o melhor resultado do partido em duas décadas de série histórica. Em 2010, apenas 18% concordavam, enquanto 77% discordavam.

Fonte: FolhaPress