
Microapartamentos eram vistos como locais sem qualidade de vida na cidade, mas agora a solução pode ser construir vários
Microapartamentos já simbolizaram tudo o que havia de errado com a cidade de Nova York. Eles não tinham cozinhas ou banheiros privados e eram vistos como locais baratos onde o crime prosperava, as drogas floresciam e pessoas pobres sofriam indignidades diárias.
Hoje, autoridades municipais dizem que a solução para a crise de moradia envolve construir muitos mais deles.
O vereador Erik Bottcher, democrata que representa partes de Manhattan, deve apresentar um projeto de lei que permite, pela primeira vez em décadas, a construção de novos apartamentos de ocupação individual com apenas 9,2 metros quadrados.
A legislação, apoiada pelo Departamento de Preservação e Desenvolvimento Habitacional, tornaria mais fácil converter prédios comerciais nesses tipos de moradia, também conhecidas como SROs.
Os apartamentos podem lembrar dormitórios ou suítes e podem se tornar opções mais baratas em uma das cidades mais caras do mundo.
“Estamos tentando tornar a moradia mais acessível e criar mais oferta”, disse Ahmed Tigani, comissário interino do departamento de habitação.
Esses apartamentos, onde cozinhas e banheiros geralmente são compartilhados, podem custar US$ 1.500 (R$ 8.000) ou menos em bairros como Bedford-Stuyvesant e Clinton Hill, onde os aluguéis medianos facilmente superam US$ 3.000 (R$ 16.000) por mês.
O movimento destaca como uma escassez extrema de moradias levou a uma mudança de postura em relação a formas de moradia compartilhada, que há muito são um elemento controverso em cidades do mundo todo.
Cidades como Londres, Zurique e Seul, na Coreia do Sul, sedentas por moradia acessível, estão explorando ideias semelhantes, assim como outras partes dos Estados Unidos. Outras cidades, como Hong Kong, ainda enfrentam dificuldades em tornar essas moradias habitáveis.
Poucas cidades, porém, têm sua história tão entrelaçada com esse tipo de habitação quanto Nova York. Um boom populacional na primeira metade do século 20 levou milhares de pessoas a se amontoarem em pensões baratas, quartos individuais e SROs.
Restam cerca de 30 mil a 40 mil, em comparação com mais de 100 mil na cidade de Nova York no início do século 20, segundo um estudo de 2018 do Centro Furman da NYU. Mas essas moradias tornaram-se associadas à pobreza, superlotação e condições insalubres.
A cidade aprovou leis impedindo a construção de novas unidades e a divisão de prédios residenciais em SROs, levando à sua queda constante ao longo das décadas.
“A superlotação, a cobrança excessiva e a criação de favelas que geram doenças e crimes foram o resultado direto dessa prática de conversão”, disse o prefeito Robert F. Wagner em 1954 ao assinar uma dessas leis.
Um assessor de um comitê do Conselho Municipal afirmou na época que o crescimento das SROs “reduziria a cidade de Nova York à vida em cubículos”.
De certa forma, agora essa é parte da ideia.
O benefício óbvio, dizem autoridades, é que SROs e outras moradias compartilhadas seriam baratas. Mas elas também poderiam se adequar melhor à mudança demográfica da cidade.
O número de domicílios de apenas uma pessoa cresceu quase 9% entre 2018 e 2023, segundo dados oficiais. O número de lares onde pessoas vivem juntas sem formar uma família — por exemplo, colegas de quarto — cresceu mais de 11% no mesmo período.
Por causa da escassez de moradias, muitas pessoas acabam se juntando para alugar casas maiores destinadas a famílias, disse Michael Sandler, comissário-associado do departamento. Construir novas moradias compartilhadas poderia liberar esses apartamentos.
Ele disse que hoje há diversas empresas que se apresentam como fornecedoras de “co-living” e operam em uma área legal “cinzenta” e não regulamentada.
Por exemplo, podem possuir um prédio ou algumas unidades e alugar quartos individuais a pessoas em uma suíte compartilhada, mas os inquilinos não têm contratos formais e não podem, por normas municipais, fazer coisas rotineiras como instalar fechaduras nas portas dos quartos.
A legislação que deve ser apresentada terça-feira também melhoraria certos padrões de segurança para moradias compartilhadas, como permitir no máximo três unidades por cozinha ou banheiro, disse Sandler. Também exigiria sprinklers e fornecimento adequado de eletricidade para operar pequenos eletrodomésticos em cada quarto.
Permitir novas moradias compartilhadas poderia oferecer opções para jovens solteiros; pessoas em situação de rua; idosos e novos moradores da cidade, disseram autoridades.
“Estas não são as SROs do passado”, afirmou Bottcher. “São lares modernos, flexíveis e bem administrados, que podem atender às necessidades de uma população diversa.”
Ainda assim, habitações de ocupação individual podem não ser uma solução perfeita, disse Paul Freitag, diretor executivo da West Side Federation for Senior and Supportive Housing, uma organização sem fins lucrativos que administra um abrigo e três prédios de SRO no Upper West Side construídos antes da mudança das leis.
Ele disse que elas não são ideais para idosos, que podem não querer compartilhar banheiros e podem achar o espaço limitado difícil para se movimentar.
Freitag afirmou que muitas pessoas acabam ficando mais tempo em abrigos à espera de kitnets ou apartamentos de um quarto, em vez de se mudar para SROs. Seu grupo planeja converter seus prédios atuais em apartamentos maiores.
“Acho que é um ambiente muito desafiador para envelhecer”, disse ele.
Fonte: The New York Times
