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Quarta-feira, 24 de julho de 2024

Quem é o jovem de 28 anos que pode iniciar uma era da extrema direita na França

Conheça Jordan Bardella, o pupilo de Marine Le Pen que tem chances de se tornar o próximo primeiro-ministro francês

Jordan Bardella, de 28 anos, foi o candidato indicado pelo União Nacional, o partido de extrema direita de Marine Le Pen, para representar a sigla nas eleições ao Parlamento Europeu. Com 31,8% dos votos, o dobro do partido do presidente Emmanuel Macron, foi o vencedor indiscutível da França nas eleições europeias e garantiu ao partido de Le Pen um dos seus melhores desempenhos numa eleição.

Com a decisão de dissolver a Assembleia Nacional, o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, e convocar eleições legislativas antecipadas, Macron abriu as portas para Bardella cumprir mais um grande feito: tornar-se o novo primeiro-ministro da França e o mais jovem a assumir o cargo no país.

Duas pesquisas divulgadas após a dissolução indicam que o União Nacional deve ficar com o maior número de assentos no novo Parlamento, quando a França for às urnas em 30 de junho e 7 de julho.

Se as previsões se concretizarem, o partido de Le Pen terá a prerrogativa de indicar um novo primeiro-ministro e se iniciará o chamado governo de coabitação, termo usado na França quando o presidente e o primeiro-ministro são de campos opostos.

Le Pen já informou que Bardella será o indicado para assumir o cargo. E assim, o político de 28 anos pode entrar para a história como um dos responsáveis por levar a extrema direita ao poder na França.

Bardella é um discípulo de Marine Le Pen. Ele a substituiu como líder do União Nacional em novembro de 2022, ao vencer uma votação interna com 85% dos votos com apenas 27 anos.

Já foi apelidado de “ciborgue” por ser considerado uma máquina política diante da sua carreira meteórica. E também de “genro ideal” da extrema direita, com seu estilo engomado e uma retórica mais suave, que se distancia da tradicional estridência dos políticos extremistas.

Mesmo assim, não conseguiu esconder sua faceta mais radical. Uma reportagem de uma das principais emissoras francesas, a France 2, revelou em janeiro a existência de uma conta no X administrada por Bardella sob o pseudônimo de RepNatdu Gaito. O perfil falso estava repleto de comentários racistas e homofóbicos. Jordan Bardella negou ser proprietário da conta, mas Marine Le Pen excluiu discretamente a assinatura assim que a informação foi divulgada.

Bardella nasceu em 1995, em Drancy, comuna do subúrbio de Paris, no departamento de Seine-Saint-Denis, um dos mais pobres da França. Estudou em uma escola privada, de alto nível de exigência e é filho único de pais divorciados. A mãe enfrentou dificuldades financeiras, mas o suporte do pai garantiu que ele tivesse uma vida confortável, bem diferente dos jovens do bairro operário em que cresceu.

Jordan Bardella é afilhado político de Marine Le Pen, líder da extrema direita da França / Chesnot/Getty Images

Depois de participar de um exercício de oratória no qual defendeu as ideias de Le Pen, ainda com 16 anos se filiou ao União Nacional. Ganhou fama dentro do partido depois de expulsar da divisão regional da sigla um jovem que compartilhou um vídeo nas redes sociais para explicar sua conversão ao islamismo. Bardella, então secretário departamental do partido, disse que ele era “instável” e que o vídeo com elogios ao islamismo foi “a gota d’água que fez transbordar o copo”.

Depois de assumir o cargo de secretário do partido aos 19 anos, atuou por cinco meses como assistente de um deputado europeu do União Nacional em 2015. No mesmo ano, foi eleito pela primeira vez, como o candidato do União Nacional em Seine-Saint-Denis para as eleições regionais. Na campanha, disse que seu objetivo era “desconstruir o mito que opõe o União Nacional e os subúrbios”.

Em 2017, fez parte da equipe de campanha presidencial de Marine Le Pen, que perdeu as eleições para Emmanuel Macron.

Em 2018 e 2019, Marine Le Pen o indicou como o primeiro porta-voz do partido e, um ano depois, como o candidato no topo da lista do União Nacional nas eleições europeias.

Ele começou então a explorar a narrativa do garoto suburbano, de origem humilde. Dizia que sua mãe era uma imigrante italiana, que o criou sozinha. Em meio à tentativa do União Nacional de mirar eleitores do partido de esquerda La France Insoumise, da classe trabalhadora, Bardella afirmava que morava no oitavo andar de um “bloco monótono” em Seine-Saint-Denis, “assolado pela criminalidade”.

Le Pen o adotou como um pupilo porque ele a ajudou a cumprir seu objetivo de modernizar o partido e afastar a imagem do seu precursor, o Frente Nacional, fundado pelo seu pai Jean-Marie Le Pen, o grande nome da extrema direita francesa após a Segunda Guerra Mundial. Le Pen pai foi acusado de xenofobia e antissemitismo depois de negar o holocausto diversas vezes e chegou a ser condenado por incitação ao ódio racial pelo menos seis vezes.

    Bardella usou as redes sociais para catapultar a nova imagem do partido e afastá-la do seu passado. Ele tem 1,5 milhão de seguidores no TikTok, o que o torna o político francês mais popular na plataforma, além de 600 mil seguidores no Instagram.

    Mas em meio à tentativa de se descolar da imagem racista e xenofóbica do partido, uma reportagem do jornal Libération revelou que Bardella encaminhou documentos do União Nacional para serem impressos por Frédéric Chatillon, antigo chefe de um sindicato estudantil neofascista e antissemita. Chatillon é um grande amigo de Marine Le Pen e foi condenado em 2023 por fraude e cobrança excessiva de materiais do União Nacional para desvio de verbas públicas.

    Mas nada que tenha abalado a popularidade do jovem político, que após o sucesso nas eleições europeias é visto como uma ponte para Le Pen se eleger à presidência em 2027 – isso se ele não eclipsar sua mentora e se tornar um candidato mais forte que ela.

    Jordan Bardella ajudou a rejuvenescer o União Nacional e a disfarçar a imagem xenofóbica, nacionalista e anti União Europeia da sigla. E assim “o genro ideal” pode se tornar uma opção de extrema direita viável, o que Le Pen não conseguiu nas suas três tentativas de chegar ao Palácio Eliseu.

    Fonte: CNN