Tecnologia
Quinta-feira, 20 de junho de 2024

Inteligência artificial deve ser usada para criatividade, não para cortar custos, diz futurista Amy Webb

Amy Webb tem 95 ideias de como será o futuro. A norte-americana leva o título de “futurista quantitativa” e ajuda grandes empresas e governos a se adaptar às mudanças tecnológicas.
Webb, que vem ao Brasil em junho, é fundadora e CEO do Future Today Institute (FTI) e lançou recentemente a 17ª edição do Tech Trends Report, um material que analisa quase cem possíveis cenários futuros.
Em comum, eles têm o fenômeno de “superciclo tecnológico”, um período de grande produtividade e mudanças impulsionadas por inovações, como foi a máquina a vapor na Revolução Industrial. Webb diz que, desta vez, o ciclo é guiado pela convergência de três tecnologias: inteligência artificial (IA), biotecnologia e sistemas de dispositivos conectados.
O pior cenário possível, ela prevê, não serão os robôs assassinos temidos por Elon Musk, e sim a demora das empresas em abraçar IA, embora ela já veja estragos causados pela tecnologia. Em entrevista à reportagem, falou também de Brasil, China e dos erros mais comuns cometidos, incluindo pelas empresas de mídia.
Webb estará em São Paulo em 27 de junho no palco principal da Febraban Tech 2024, evento de tecnologia e inovação do setor financeiro.
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PERGUNTA – O que significa ser uma futurista quantitativa? Existe diploma para isso?
AMY WEBB – O termo futurista existe há muito tempo, uns cem anos. Existem diferentes tipos. No FTI, nos diferenciamos por utilizar mais dados, fazemos muitas pesquisas profundas e nos especializamos em tecnologia.
Muita gente que faz esse tipo de trabalho de previsão tem algum tipo de formação em economia ou teoria dos jogos, esse tipo de coisa, em que há um pouco mais de ênfase nos dados do que em entrevistar especialistas. Dá para obter um diploma em previsão estratégica em alguns lugares nos EUA. É comum em toda a Europa, e meus colegas e eu ministramos um curso sobre isso na Stern School of Business, da Universidade de Nova York.
P – Como você usa teoria dos jogos em sua metodologia de previsão estratégica?
AW – Testamos muitas variáveis ao mesmo tempo para ver quais seriam os resultados plausíveis. Isso porque hoje as coisas estão tão interligadas que qualquer variável tem a possibilidade de impactar todo o resto. Sempre foi assim, mas em 2024 a tecnologia desempenha um papel muito maior. A tecnologia não é determinante e algumas das regras sociais foram quebradas, as pessoas já não confiam necessariamente em suas instituições, por isso há muito mais variáveis em jogo.
P – Quando grandes empresas e governos pensam em IA, quais são os erros mais comuns?
AW – Quando as empresas falam em IA generativa, na maioria das vezes, estão falando em automatizar fluxos de trabalho para serem mais eficientes. É um caso estreito do uso da tecnologia, ignora muitas outras possibilidades.
Outro erro comum é achar que dá para usar IA apenas para se livrar de funcionários. Ouço muito isso em finanças, especialmente no setor bancário. Às vezes também em seguros. E a pergunta mais frequente é: quando?
Outro erro são empresas de mídia que acreditam que licenciar seu conteúdo trará um novo fluxo de receitas sustentável. É um negócio ótimo para elas a curtíssimo prazo. Mas e depois que seus arquivos forem usados para treinar modelos?
A agência Associated Press fez isso com a OpenAI, a revista People também. É uma péssima ideia a longo prazo. A OpenAI tem a capacidade de gerar receita com base nos dados.
Custa muito treinar um modelo, então eles estão investindo, mas também custa muito fazer todas essas reportagens.
Vejo muitos mal-entendidos fundamentais. Outra questão é que muitas empresas simplesmente não sabem que tipo e que dados possuem. E se ou como deveriam usá-los.
P – Qual sua familiaridade com o cenário empresarial do Brasil?
Tenho uma relação muito próxima com o Brasil. Já estive antes, estou muito feliz em voltar. O Brasil está numa situação interessante. É uma das economias mais importantes do mundo, mas as empresas que construíram sua economia são do século 20, estão muito enraizadas na mineração e na agricultura. Essas indústrias poderiam ser atualizadas com tecnologia, mas é preciso estar disposto a fazer mudanças. Pode ser um desafio para muitos líderes empresariais assumir esse tipo de risco estratégico.
Olhando de fora, minha opinião é que Jack Welsh [executivo que expandiu a GE nos anos 1980 e 1990 e foi eleito o ‘gestor do século’ pela Fortune em 1999] segue bem vivo no Brasil, é ainda uma grande influência. Muitos líderes olham para IA como uma forma de melhorar os resultados financeiros através de cortes. Me preocupo que, quando decidirem fazer essa mudança, farão a mesma coisa, como uma IA Jack Welsh, cortar, cortar, cortar, em vez de usar IA para criatividade.
P – Como as empresas brasileiras podem aproveitar esse superciclo tecnológico?
AW – O Brasil deveria ser líder mundial em inovação agrícola porque o Brasil tem mais a perder. Grandes empresas brasileiras são desafiadoras. Vejo desejos de fazer inovações, mas na minha experiência não há disposição para correr riscos.
Conheci muitos líderes incrivelmente criativos e inteligentes no South by Southwest. Parece que todo ano metade do Brasil vai para SXSW. São muitos brasileiros! De alguma forma, essas pessoas com grandes ideias e novas perspectivas deveriam se reunir e fazer acontecer esse ciclo de inovações.
P – Como é possível para países como o Brasil serem competitivos nessa arena dominada por EUA e China?
AW – Esse superciclo tecnológico está começando a reordenar a economia global. A relação que a China tem com o Brasil está se fortalecendo, e a China pode oferecer condições mais favoráveis a curto prazo, mas não sei o que acontecerá a longo prazo.
Preocupo-me com o fato de a China se alinhar com o Sul Global porque os EUA e a Europa sempre se esquecem do Sul Global, o que é uma coisa terrível. Poderíamos acabar com uma diferença hemisférica. Portanto, não se trata apenas dos EUA e da China.
Trata-se de um hemisfério Norte contra um hemisfério Sul. E isso criará problemas. Teremos novos blocos geoeconômicos. E historicamente, quando isso aconteceu, não foi bom.
P – Como vocês fazem pesquisas na China?
AW – É muito difícil. Morei em Hong Kong, e era uma cidade muito diferente de hoje. E costumava ir e voltar de Shenzhen, quando não havia ninguém lá. Estamos realmente restritos neste momento ao que podemos obter publicamente. São muitas informações do governo. Há alguns think tanks nos EUA em quem confiamos. E, na medida do possível, rastreamos as patentes chinesas.
P – Que tipo de inovações podemos esperar da China?
AW – A curtíssimo prazo, são os veículos elétricos. Isso é um problema para os EUA e um maior ainda para a Alemanha. Na Europa, foram aprovados mandatos rigorosos para adoção de veículos elétricos, e muitas montadoras alemãs simplesmente não estão agindo de forma rápida o suficiente.
Também é ruim para o Brasil porque ainda é uma economia baseada no petróleo. Então, com mais elétricos no mercado, a lógica é que, ao menos para gasolina de carro, vamos precisar de menos.
P – Quais serão os impactos mais significativos nas instituições financeiras nos próximos 5 a 10 anos?
AW – Existe uma oportunidade de criar novos caminhos para trazer mais pessoas ao sistema financeiro. Sistemas bancários mais antigos requerem muita mão de obra, e isso tem um custo muito alto. Esse é um caso em que, na verdade, menos pessoas poderiam bem, por um lado é ruim, você quer que mais pessoas tenham empregos, mas, nesse caso específico, se você tiver menos pessoas e puder escalar serviços usando tecnologia, trará um ciclo positivo.
A burocracia no Brasil, a papelada O único lugar pior é a Índia, e isso é muito ruim. Há uma chance de tornar o sistema bancário mais fácil para as pequenas empresas, desde que preconceito não seja introduzido no sistema.
O risco continua a ser um problema, e essas tecnologias emergentes são realmente boas para reconhecimento de padrões. Portanto, se os sistemas forem bem construídos, poderemos, teoricamente, fazer com que não haja um colapso financeiro novamente.
P – Na greve de Hollywood, roteiristas conseguiram algumas vitórias em relação ao uso de IA. Acha que vai funcionar?
AW – Greves, acordos e políticas são tão eficazes quanto os mecanismos de fiscalização. Sem eles, não há muito impacto. Muitas dessas políticas, tanto em Hollywood como na Europa, são punitivas, o que você pode e não pode fazer, o que é importante. Mas, em muitos casos, se você for atrás de uma empresa de tecnologia, acabará num tribunal. E então você tem apenas ações judiciais, nada realmente é feito. Em termos de greves similares, fiquei surpresa de não ver os sindicatos de jornalistas fazendo o mesmo.
P – Quais as melhores habilidades para aprender hoje e não ser substituído por IAs?
AW – Habilidades de raciocínio crítico são muito importantes. Aprender a delegar e priorizar também, e a maioria das pessoas não sabe fazer. Porque o que está por vir é uma era em que trabalharemos ao lado de máquinas. Sistemas de IA generativos, como o ChatGPT, só são realmente bons se você souber usá-los de verdade.
E aprender a ser muito cético e fazer perguntas. Me preocupo que agora todo o mundo leva em conta as respostas das IAs. Ou como aquela foto viral da Katy Perry no Met Gala. Demorou para descobrir que não era ela.
P – No seu relatório de tendências, há quase cem possíveis cenários futuros. Pode falar sobre aqueles que te deixam acordada à noite?
AW – O pior cenário possível é que as empresas esperem muito para passar por uma transformação de IA da mesma forma que passaram por uma transformação digital. Elas vão perder seu valor e sua capacidade de influenciar seu crescimento, de expandir, de fazer coisas boas. Sei que não parece urgente, não são robôs vindo para nos matar, mas é um cenário assustador para mim porque é muito realista e verdadeiro em todos os setores.
P – Os temores de que IA apresenta um risco para a humanidade são exagerados?
AW – Li uma reportagem assustadora da Bloomberg Businessweek sobre adolescentes no Instagram e no Snap enganados por imagens geradas por IA de outros adolescentes que os convencem a enviar nudes. São golpistas na Nigéria que passam a fazer extorsão. Por causa disso, crianças estão cometendo suicídio. Já não estamos vivendo uma ameaça existencial da IA?
Se você não fica muito chateado com isso e está à espera de robôs assassinos porque Elon Musk e Sam Altman falaram, então não posso ajudá-lo. Eles não deveriam ser quem você escuta sobre o futuro. Porque eles têm um interesse monetário tanto em assustar as pessoas quanto em dar-lhes ideias do futuro. Todo o mundo está se envolvendo nessas histórias e perdendo de vista o que realmente está acontecendo.
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RAIO-X | AMY WEBB, 49
CEO do Future Today Institute, é professora-adjunta da Stern School of Business, da Universidade de Nova York, e pesquisadora visitante da Universidade de Oxford. Formada em ciência política, teoria dos jogos e economia pela Universidade de Indiana, com mestrado em comunicação na Universidade Columbia, é autora dos livros: “Os Nove Titãs da IA” (2020, ed. Alta Books), “The Genesis Machine” (2022, ed. PublicAffairs), “The Signals Are Talking” (2016, ed. PublicAffairs), “Data: A Love Story” (2013, ed. Dutton)

Fonte: FolhaPress