Cultura
Segunda-feira, 22 de abril de 2024

Strauss faz três óperas em ‘Ariadne em Naxos’ que troca Viena pela Barra da Tijuca

 A ópera oferece tudo o que a humanidade deseja -sopranos ensandecidas, tragédia, alta-costura e música boa. Até o século 19, era comum o público das casas europeias se divertir durante os espetáculos, em jogos de azar e regabofes com alcoólicos de primeira qualidade, num ambiente propício à azaração.
Nos camarotes da Ópera de Paris, bigodudos não aguentavam o dispêndio libidinal vindo do palco e se amontoavam atrás de cortininhas, onde se reproduziam como ratazanas.
Mesmo com o bulício, havia quem se concentrasse na leitura do libreto, peça-chave em muitas óperas, como em “Ariadne em Naxos”, do compositor alemão Richard Strauss em parceria com o poeta austríaco Hugo Von Hofmannsthal, agora no Theatro São Pedro.
O comportamento da plateia mudou com o passar do tempo, mas a leitura do libreto ainda distingue o modo como a palavra se insere na composição operística. Num extremo, está a poesia, princípio da arte, que se liberta do poema para ganhar o som.
No outro, está a ópera, fim da arte, que em sua grandiosidade tudo agrega. Mais do que na forma canção, a palavra na ópera, gênero também lírico, se insere na melodia numa relação ambígua. Ora, o texto sublinha a música, ora, dela se desprende, motor da trama.
Pela complexidade entre palavra e música, não raro a figura do poeta, que utiliza a língua em sua função mais elevada, é designada para escrever o libreto. Em “Ariadne em Naxos”, Hofmannsthal encaixa três óperas dentro de uma. A obra estreou em 1912 em Stuttgart, na Alemanha, e é dividida em duas partes.
De início, há um prólogo, em que músicos, carpinteiros e cantores se encontram na mansão do homem mais rico de Viena, nos preparativos para a apresentação de uma ópera-séria -gênero que representava uma reação conservadora na ópera, quando surgiu, nos anos 1700.
Para o desespero do compositor, interpretada pela mezzo-soprano Luisa Francesconi, o mordomo, papel de Luiz Päetow, manda avisar que, por decisão do patrão, uma ópera-bufa será executada ao mesmo tempo, ambas sendo sucedidas por uma queima de fogos. Nesse sentido, “Ariadne em Naxos”, uma ópera que fala sobre ópera, tematiza os dilemas entre as aspirações artísticas dos compositores e os limites impostos pelo mecenato.
A trupe da ópera-bufa tenta consolar o compositor. Zerbinetta, estrela coquete interpretada pela soprano Carla Domingues, e o professor de dança, papel do tenor Giovanni Tristacci, o convencem a realizar os ajustes determinados pelo mecenas.
“O patrão não aparece em nenhum momento da ópera, porque ele é invisível assim como o valor do dinheiro”, diz o diretor cênico Pablo Maritano. “A questão da ópera é o dinheiro, uma burguesia que desejava um padrão conservador de arte mas que, no fundo, só se importava com os fogos de artifício.”
Posto o dilema, a ópera se inicia em ato único. Respeitando os temas clássicos da ópera-séria, Ariadne, vivida pela soprano Eiko Senda, está na ilha deserta de Naxos, abandonada por seu amado Teseu. As ninfas Naiade, Dríade e Eco -Tatiane Reis, Fernanda Nagashima e Cintia Cunha, respectivamente- estão junto dela, enquanto Zerbinetta e Arlequim, papel de Igor Vieira, tentam distrair sua dor.
De repente, as ninfas anunciam a chegada de um navio, trazendo à ilha um jovem deus. Ariadne pensa se tratar de Hermes, deus mensageiro, por quem esperava. Mas era Baco, vivido pelo tenor Eric Herrero, que também fez confusão -pensou que Ariadne era Circe. Nesse baile de máscaras, Ariadne, diante do jovem deus, jura ver Teseu, seu amado. Mas uma paixão inesperada une Baco à princesa de Creta e, juntos, eles entoam um dueto.
Com direção musical de Felix Krieger, a Orquestra do Theatro São Pedro executa a música de Strauss numa montagem contemporânea. O cenário, assinado por Desirée Bastos, e o desenho de luz, de Aline Santini, transformam o palacete vienense numa mansão de novos ricos da Barra da Tijuca. Zerbinetta, por exemplo, mais parece uma influenciadora digital, que passa o dia todo de calça legging, preparada para o “treino”.
“Para a história das artes cênicas, o passado é uma invenção”, afirma Maritano. “No fundo, toda encenação acontece no presente.” “Ariadne em Naxos” é a terceira de seis parcerias entre Hofmannsthal e Strauss -até 1912, eles já haviam criado “Elektra” e “O Cavaleiro da Rosa.”
Na ópera, o libretista reafirma a ideia de “ópera compacta”. Se “Elektra” ou mesmo “Salomé” espantaram o público com a concentração de música e drama em ato único, “Ariadne em Naxos” se encerra em menos de duas horas, atribuindo particular complexidade entre as composições de Strauss -uma obra que desvela amor, ironia e filosofia.
Vulto da elite intelectual vienense, Hofmmansthal foi amigo do filósofo Ludwig Wittgenstein, dos escritores Robert Musil e Stefan Zweig e do pintor Gustav Klimt. Além de instituir o Festival de Salzburgo, ele escreveu coletâneas de poemas e peças de teatro. Na parceria com Strauss, esteve por trás de tudo, sendo a cabeça pensante e exercendo a função do poeta -ser o criador.
Seus libretos foram cartas de despedida do mundo romântico, conforme ele mesmo mostrava ter consciência em notas íntimas, de 1913. “Se a nossa época for a do declínio, quantas coisas, porém, temos aí incólumes, na sua pureza original.”

Fonte: FolhaPress/Gustavo Zeitel