Cultura
Terça-feira, 16 de agosto de 2022

Samanta Schweblin em ‘Pássaros na Boca’ expõe o terror inominável

Em 1845, Domingo Faustino Sarmiento trazia à luz “Facundo: Civilização e Barbárie”, considerada a obra fundadora da literatura argentina. Desde então, a aparente irreconciliabilidade entre uma e outra tem sido um tema caro à produção cultural do país.
No entanto, é na intersecção dessas duas lógicas que a escrita da argentina Samanta Schweblin atinge seu ápice. Seja em um trem que sai do campo “rumo à alegre civilização”, um banheiro num descampado ou em um restaurante de beira de estrada, sua narrativa se desenvolve em um ponto de suspensão entre dois mundos. A barbárie, porém, espreita ambos.
Com domínio magistral da tensão superficial de cada página, a autora reivindica agora a atenção plena do leitor brasileiro. Reunidos em um único volume pela editora Fósforo, dois livros de contos de Schweblin, “Pássaros na Boca” e “Sete Casas Vazias” -este inédito em português- ganham tradução de Joca Reiners Terron após o lançamento do romance “Kentukis” no ano passado.
Transitando por uma arbitrariedade cuidadosamente construída, seus contos extraem o duvidoso de tudo aquilo que parece confiável: a casa, as relações familiares, uma lata de achocolatado. É quando as certezas se esfarelam -quando a estação de trem ou o banheiro na estrada se transformam em lugares de permanência involuntária- que suas histórias ganham vida.
Diante de contos que muitas vezes começam e terminam in media res, isto é, no meio dos fatos, o leitor vira cúmplice. A ele cabe inferir o subentendido e inventar o não dito. Longe de ser hermética, Schweblin é quase kafkiana na naturalidade exasperante com que descreve situações insólitas.
Há exceções. Se ela brilha nos subentendidos, nos raros momentos em que aparece uma voz em off para preencher lacunas a narrativa de Schweblin perde o viço. Outras vezes, cede à tentação da chave de ouro, mas parece fazê-lo em nome de um efeito antes político que estético. Assim, em “Mulheres Desesperadas” -cuja resolução se situa em algum lugar entre o remate de uma piada e um manifesto feminista- é o desfecho que define a mensagem.
Outro conto que poderia ser considerado feminista põe em primeiro plano a violência latente que atravessa o livro. Em “A Mala Pesada de Benavides”, um feminicídio é festejado como uma obra de arte genial. Ao levar a banalização da violência contra a mulher às raias do cômico, Schweblin lhe restitui, por vias inversas, sua condição de inaceitável.
Nos contos de Schweblin há mundos que se tocam. Não só a frágil civilização se revela prenhe de barbárie como também convivem vivos e mortos, presença e desaparição, subterrâneo e superfície. Em mais de um conto, esta divisão colapsa sob as pás de cavadores de poços tão profundos quanto despropositados. O terror é completo porque é inominável.
Em “A Respiração Cavernosa”, os limites móveis entre sanidade e loucura que são levados às últimas consequências. A deterioração física e mental da protagonista é comunicada ao leitor à força de um fascinante -porque angustiante- jogo de repetições, de pensamento obsessivo e desmemória.
“Um Homem sem Sorte”, um dos contos mais influentes da vencedora do prêmio Casa de las Américas, move a trama ao redor dos limites da ética. Em todos os casos, o leitor é convocado a participar, julgar, perdoar ou condenar; não se leem os contos de Schweblin impunemente.
Diante de nosso reflexo de rejeitar o que nos parece grotesco ou alheio, o livro da argentina nos crava dois olhos bem abertos e parece dizer, como a protagonista de “Pássaros na Boca”: “você também”. Em sua escrita ressoa, como um lembrete necessário, a máxima de que nada do que é humano nos é estranho.
Em 1845, Domingo Faustino Sarmiento trazia à luz “Facundo: Civilização e Barbárie”, considerada a obra fundadora da literatura argentina. Desde então, a aparente irreconciliabilidade entre uma e outra tem sido um tema caro à produção cultural do país.
No entanto, é na intersecção dessas duas lógicas que a escrita da argentina Samanta Schweblin atinge seu ápice. Seja em um trem que sai do campo “rumo à alegre civilização”, um banheiro num descampado ou um restaurante de beira de estrada, sua narrativa se desenvolve em um ponto de suspensão entre dois mundos. A barbárie, porém, espreita ambos.
Com domínio magistral da tensão superficial de cada página, a autora reivindica agora a atenção plena do leitor brasileiro. Reunidos em um único volume pela editora Fósforo, dois livros de contos de Schweblin, “Pássaros na Boca” e “Sete Casas Vazias” -este inédito em português- ganham tradução de Joca Reiners Terron após o lançamento do romance “Kentukis” no ano passado.
Transitando por uma arbitrariedade cuidadosamente construída, seus contos extraem o duvidoso de tudo aquilo que parece confiável: a casa, as relações familiares, uma lata de achocolatado. É quando as certezas se esfarelam -quando a estação de trem ou o banheiro na estrada se transformam em lugares de permanência involuntária- que suas histórias ganham vida.
Diante de contos que muitas vezes começam e terminam in media res, isto é, no meio dos fatos, o leitor vira cúmplice. A ele cabe inferir o subentendido e inventar o não dito. Longe de ser hermética, Schweblin é quase kafkiana na naturalidade exasperante com que descreve situações insólitas.
Há exceções. Se ela brilha nos subentendidos, nos raros momentos em que aparece uma voz em off para preencher lacunas a narrativa de Schweblin perde o viço. Outras vezes, cede à tentação da chave de ouro, mas parece fazê-lo em nome de um efeito antes político que estético. Assim, em “Mulheres Desesperadas” -cuja resolução se situa em algum lugar entre o remate de uma piada e um manifesto feminista- é o desfecho que define a mensagem.
Outro conto que poderia ser considerado feminista põe em primeiro plano a violência latente que atravessa o livro. Em “A Mala Pesada de Benavides”, um feminicídio é festejado como uma obra de arte genial. Ao levar a banalização da violência contra a mulher às raias do cômico, Schweblin lhe restitui, por vias inversas, sua condição de inaceitável.
Nos contos de Schweblin há mundos que se tocam. Não só a frágil civilização se revela prenhe de barbárie como também convivem vivos e mortos, presença e desaparição, subterrâneo e superfície. Em mais de um conto, esta divisão colapsa sob as pás de cavadores de poços tão profundos quanto despropositados. O terror é completo porque é inominável.
Em “A Respiração Cavernosa”, os limites móveis entre sanidade e loucura que são levados às últimas consequências. A deterioração física e mental da protagonista é comunicada ao leitor à força de um fascinante -porque angustiante- jogo de repetições, de pensamento obsessivo e desmemória.
“Um Homem sem Sorte”, um dos contos mais influentes da vencedora do prêmio Casa de las Américas, move a trama ao redor dos limites da ética. Em todos os casos, o leitor é convocado a participar, julgar, perdoar ou condenar; não se leem os contos de Schweblin impunemente.
Diante de nosso reflexo de rejeitar o que nos parece grotesco ou alheio, o livro da argentina nos crava dois olhos bem abertos e parece dizer, como a protagonista de “Pássaros na Boca”: “você também”. Em sua escrita ressoa, como um lembrete necessário, a máxima de que nada do que é humano nos é estranho.

PÁSSAROS NA BOCA E SETE CASAS VAZIAS
Preço: R$ 69,90 (280 págs.); R$ 49,90 (ebook)
Autor: Samanta Schweblin
Editora: Fósforo
Tradução: Joca Reiners Terron
Avaliação: Ótimo

Fonte: FolhaPress/Lívia Prado