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‘O Homem do Norte’ se perde entre os urros de um viking meritocrata

A primeira questão que suscitam os filmes de mitologia contemporâneos diz respeito à sua cor. A tonalidade geral varia entre o bronze e o chumbo. As variações privilegiam uma gama que vai do marrom ao amarelo. O azul é raro e o vermelho quase inexiste.
Não é um detalhe. Em “O Homem do Norte”, novo filme do diretor Robert Eggers, de “A Bruxa” e “O Farol”, o sangue jorra abundante. Cabeças são cortadas, barrigas são abertas, mas nem assim o vermelho aparece. Estamos em território viking. Ali, um rei guerreiro é traído pelo irmão –Fjölnir, “o bastardo”. Amleth, o filho, de não mais de dez anos, jura vingar o pai e parte para o exílio.
Vale a pena aproveitar a sugestão shakespeariana do nome Amleth. De fato, existe algo de podre naquele reino nórdico. Talvez sejam os diálogos. Entre os vikings se fala de maneira solene, embora o essencial pareça ser a capacidade dessa gente de emitir urros. Eles urram para odiar, urram para lutar, urram para matar. Costumam urrar também quando matam um inimigo e bebem o seu sangue.
O urro corresponde, no mais, às metáforas animalescas que representam. O rei morto é um corvo, cujo espírito aparece providencialmente de tempos em tempos para livrar a cara do filho. Amleth vestirá a pele de lobo em dado momento e ela terá repercussões no futuro.
Aos fatos. Depois de adulto e bombado, Amleth decide que é hora de preparar sua vingança. Descobre que Fjölnir foi deposto e se refugiou na Islândia, ainda mais ao norte, com família e corte. Ele se dispõe a ser escravizado para melhor se aproximar do tio que usurpou o seu trono.
Cada etapa de sua preparação é regada a sangue, claro, embora nem o sangue seja vermelho. No mais, algumas surpresas existem ao longo da trama, mas não chegam a transformar nada de significativo. A sede de vingança de Amleth permanece intacta e, para executar seu plano, conta com a ajuda de uma bela jovem, por quem se apaixonará e será mútuo e tal e coisa.
O intrigante em “O Homem do Norte” é saber a que corresponde essa vingança. A um juramento feito ao pai, sem dúvida. Mas, à parte isso, estamos diante de um herói sem outro tipo de substância.
Seu desejo de vingança não tem transcendência. Ele não pretende, por exemplo, fazer o bem a populações maltratadas. Não importa a mínima liberar os homens e mulheres escravizados. Ele o fará apenas na medida em que isso convenha a seus planos. Muito menos deseja instaurar justiça.
Por que luta, afinal, Amleth? Ele é o homem que precisa superar as adversidades para se afirmar no mundo. Ele precisa vencer, eis o essencial. Transposto para nossos dias, esse homem seria um empreendedor, o sujeito que luta para não naufragar num mundo hostil e precisa (ou deseja) demonstrar, a si mesmo, o seu valor.
Amleth é, afinal, um meritocrata, um príncipe destituído que deve demonstrar o valor da monarquia –ou melhor, a virtude de seu sangue. Por isso se preocupa com o prosseguimento de sua linhagem, e com efeito a sua amada Olga terá filhos gêmeos –que poderão dar sequência à saga de Amleth, caso o filme emplaque e se transforme numa franquia.
À inacreditável platitude do roteiro corresponde uma encenação que se dedica, basicamente, a gerenciar os urros e massacres que se organizam em torno do neomonocromatismo que caracteriza o cinema comercial “de grande espetáculo” na era digital. Para resumir, “O Homem do Norte” são duas horas e tanto de intenso sofrimento.

O HOMEM DO NORTE
Quando: Estreia na quinta (12)
Onde: Nos cinemas
Classificação: 18 anos
Elenco: Alexander Skarsgard, Nicole Kidman e Anya Taylor-Joy
Produção: EUA, 2022
Direção: Robert Eggers
Avaliação: Ruim

Fonte: FolhaPress/Inácio Araujo

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