Início Cultura L.O.R.C.A' e 'Vênus', peças-filme com Helena Ignez, coroam a poesia cotidiana

L.O.R.C.A’ e ‘Vênus’, peças-filme com Helena Ignez, coroam a poesia cotidiana

Os tempos atuais fizeram “L.O.R.C.A” e “Vênus”, criadas por André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla, borrarem a fronteira entre cinema e teatro, tornando uma zona híbrida de difícil classificação.
Esses projetos inéditos do Estúdio Lusco-Fusco, que estavam previstos para serem teatrais, tiveram que migrar para o online por causa da pandemia do coronavírus, proporcionando uma nova experiência para o telespectador, seja com a atuação ou a narração do grande nome do cinema brasileiro, Helena Ignez .
“L.O.R.C.A” parte dos poemas de Federico García Lorca que, segundo Lopes, são “pertinentes para os nossos tempos atuais”. O poeta foi morto durante a Guerra Civil Espanhola, por ordem oficial do governo de Franco. Algumas biografias defendem a ideia deque ele foi fuzilado de costas pelo fato de ser homossexual.
“Essa alucinação que ordenha os olhares de quem assiste” é um trecho de um poema do artista que guiou a obra de Lopes. Sua intenção era conectar o cotidiano de São Paulo com os versos de Lorca, transformando a cidade em poema e vice-versa.
Na obra, Helena Ignez é uma andarilha que, a partir de seu olhar, leva o espectador a entrar no universo poético do espanhol a partir de uma caixa-traquitana-teatro que carrega pela cidade. A ideia de trazer esse elemento surgiu inspirada no grupo teatral que o poeta tinha, chamado La Barraca, de caráter itinerante, que levava peças dirigidas e encenadas por ele em um caminhão pelo interior do país ibérico.
A caixa-mágica tem um furo no qual Ignez convida as pessoas que passam pelas ruas a olhar. O telespectador, então, enxerga encenações e interpretações dos poemas de uma forma teatral, e é aí que as duas artes se encontram e dialogam com o caráter multifacetado de Lorca , que, além de poeta e dramaturgo, pintava e tocava piano
Característico do modo de fazer cinema dos anos 1970, “L.O.R.C.A” foi abraçando o acaso e tudo o que acontecia ao redor das filmagens, como a cantoria de uma mulher em situação de rua ou um indígena tocando seu violão. Helena Ignez faz sua performance justamente em meio a esses acontecimentos. Isso, inclusive, é uma extensão de seu trabalho, que hoje é objeto de estudo, como aparece no livro publicado neste ano, “Helena Ignez – Atriz Experimental”.
A artista se debruça sobre esses aspectos e chama esses corpos de figuração para estar dentro da cena com ela.
“O André me deu essa liberdade e quis que a linguagem do filme fosse essa”, diz Helena Ignez. Isso só é possível quando o diretor conhece profundamente o trabalho da atriz. A primeira peça em que os dois trabalham juntos foi “Um Sonho”, de August Strindberg , em 2007, e a parceria dura até os dias de hoje.
O momento político atual conversa com a obra de uma forma viva. Além de ter sido gravada no centro histórico de São Paulo e na marginal Pinheiros, imagens foram feitas no Museu da Memória, onde ficava o antigo Dops, o Departamento de Ordem Política e Social, e também durante as manifestações pró-Bolsonaro do 7 de Setembro.
“Nesse momento em que a arte está sob ataque, em que há polarizações e em que tudo é classificado, não existe mais a sutileza. A poesia nos traz a sutileza”, diz a atriz.
Enquanto em “L.O.R.C.A” ela utiliza de sua performance e atuação, em “Vênus” a atriz empresta sua voz. A narração é um trabalho ao qual ela vem se dedicando pelo menos desde os anos 1980. “Quando um ator percebe que a voz é um corpo invisível, ele já não tem medo da velhice, inclusive, porque esse outro corpo tem uma sutileza que pode atravessar toda a vida”, afirma.
“Vênus” parte do real para o ficcional ao apresentar o relato de uma menina que está prestes a nascer e que reflete sobre a pandemia, o passado e o seu futuro. As imagens gravadas por Guerreiro Lopes são da própria Djin Sganzerla em seu período de gestação.
“O artista tem essa capacidade de abrir a sua experiência de vida e trazê-la ao público de uma forma transformadora”, diz a atriz. O texto, que segundo ela é feminino, delicado e potente, foi escrito pela dramaturga Dione Carlos.
A obra chega em um momento em que Djin Sganzerla já carrega uma longa trajetória como atriz no teatro e uma vasta bagagem cinematográfica, tendo dirigido o seu primeiro longa-metragem, “Mulher Oceano”, que lhe rendeu 12 prêmios, entre eles o de melhor filme no Porto Femme Int. Film Festival, de Portugal. Ambos os projetos se relacionam com o feminino, o que pode ser tido como uma característica de seu trabalho, e também com as águas.
De alguma forma, uma obra totalmente voltada para o audiovisual e a outra com aspectos teatrais puderam se relacionar. “Trazer essa aproximação é fundamental para o público ter um encontro maior com teatro e cinema.”

L.O.R.C.A
Quando: De 25/11 a 12/12, às 20h
Onde: canal no Youtube do Estúdio Lusco-Fusco
Autor: André Guerreiro Lopes e Antônio Arruda, a partir de poemas de Federico Garcia Lorca
Elenco: Helena Ignez, Djin Sganzerla, Michele Matalon, Samuel Kavalerski, André Guerreiro Lopes
Direção: André Guerreiro Lopes
Link: https://www.youtube.com/user/estudioluscofusco

VÊNUS
Quando: de 25/11 a 12/12, às 19h
Onde: canal no Youtube do Estúdio Lusco-Fusco
Autor: Dione Carlos
Elenco: Djin Sganzerla, André Guerreiro Lopes e Helena Ignez (narração)
Direção: André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla
Link: https://www.youtube.com/user/estudioluscofusco

Fonte: FolhaPress/Vitória Macedo

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