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‘Master of None’ volta e revela um cineasta na pele de um comediante

TETÉ RIBEIRO –

Aziz Ansari surgiu como uma das vozes mais estimulantes de uma nova leva de cômicos dos Estados Unidos, uma leva que, além do americano de origem indiana, tem Mindy Kaling (de “The Office”, que também tem pais indianos), Awkwafina (de “Raya”, pais coreanos) e Ramy Yousseff (de “Ramy”, pais egípcios), entre outros, entre 20 e muitos e 40 e poucos anos.
Com as duas primeiras temporadas de “Master of None”, exibidas em 2015 e 2017, Ansari provou que, além de fazer stand-ups engraçadíssimos, sabia escrever, dirigir e atuar. Suas minisséries na Netflix eram cômicas, mas não exclusivamente, com toques de lirismo, preocupação com a questão da diversidade e momentos dramáticos.
Então, em 2018, veio o cancelamento. Num texto publicado no site ativista Babe.net, que já saiu do ar, uma fotógrafa, que preferiu fazer a acusação com o pseudônimo Grace, contou que foi coagida pelo comediante a fazer sexo num encontro. Ansari soltou uma declaração depois que o artigo foi publicado dizendo que ficava muito surpreso ao saber que a moça tinha se sentido desconfortável mas que levava muito a sério o que ela tinha dito.
O comediante sumiu do olhar público por um tempo, chegou a dizer em entrevistas que temia que sua carreira fosse aniquilada pelo ocorrido. Um ano depois, voltou a fazer stand-ups, que viraram o especial da Netflix “Right Now”, “agora mesmo”, que começava e terminava falando do episódio, e não em tom de chacota. A última frase do espetáculo era “isso me fez pensar muito, e espero que tenha me tornado uma pessoa melhor”.
Tanto a reação de Ansari quanto o fato de a acusação ter sido considerada dúbia, inclusive dentro do movimento MeToo, fizeram com que o cancelamento do comediante fosse repensado.
Agora, três anos depois, ele volta ao streaming com a terceira temporada de “Master of None”, uma minitemporada, de cinco episódios apenas, e que tem um subtítulo, “Moments in Love”. E ela é sublime.
Mestre, não do nada, mas da leitura política, Ansari aparece só em duas pontas. A história toda gira em torno da relação amorosa de Denise, que é interpretada com gosto por Lena Waithe, que também assina o roteiro dos cinco episódios, e a britânica Alicia, papel de Naomi Ackie.
As duas estão quase o tempo todos isoladas numa casa rural de 150 anos supostamente no interior de Nova York -mas que na verdade foi filmada na Inglaterra- e ali ficamos sabendo que Denise acabou de lançar um best-seller, está no auge do sucesso, e Alicia, sua mulher, trabalha com antiguidades.
Denise, aliás, aparece nas outras temporadas como uma grande amiga de Ansari -o que Waithe é na vida real. É interessante e estimulante ver como a relação das duas se desenvolve, pelos gestos mais banais, como ouvir música juntas e improvisar uma dancinha enquanto tiram as roupas da secadora, até os mais importantes, como a decisão de ter ou não um filho por inseminação artificial -e como isso vai mudar a vida delas.
Os episódios têm duração variada, alguns giram em torno de 25 minutos, outros chegam a quase uma hora e lembram –foram inspirados– na clássica minissérie de TV sueca “Cenas de um Casamento”, de Ingmar Bergman, que já rendeu homenagens de Woody Allen (“Maridos e Esposas”, de 1992) e Noah Baumbach (“História de Um Casamento”, de 2019), seja pelo formato, pelo tema, mas principalmente pela delicadeza e simplicidade visual com que foram filmadas.
Agora, em vez de casais heterossexuais e brancos, duas mulheres negras. Especialmente excruciante é o episódio todo dedicado ao processo de fertilização in vitro pelo qual Alicia passa. Quem já viveu isso assistirá com um misto de dor, pelas próprias lembranças e pelo realismo do que vê na tela, e encantamento, pela qualidade desta temporada.

Fonte: FolhaPress

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