Cultura
Segunda-feira, 22 de abril de 2024

Relatos de ingleses dão noção do espanto que era o Brasil colônia

REINALDO JOSE LOPES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Não se descobrem mais continentes novos como há 500 anos, mas é possível ter uma noção bastante clara do espanto, do maravilhamento e, por vezes, do terror que era encontrar um “novo mundo” simplesmente lendo os relatos dos primeiros europeus a pisar nas Américas. Há abundância desse frescor da descoberta em “Ingleses no Brasil: Relatos de Viagem, 1526-1608”.
O livro, porém, não vale só pelas observações boquiabertas dos mercadores, náufragos e corsários do tempo da dinastia Tudor que acabaram na costa brasileira. Sheila Hue e Vivien Kogut Lessa de Sá, organizadoras, contextualizaram habilmente os relatos no panorama das relações internacionais na Europa.
Conturbado pela Reforma Protestante, o continente se fragmentou por motivos confessionais, de modo que o comerciante Roger Barlow deixou a Inglaterra quando ela ainda era católica e descreveu as Américas ao rei Henrique 8º quando o monarca já tinha cortado laços com Roma.
A maioria dos relatos produzidos no Reino Unido é bem menos conhecida do que a documentação francesa ou holandesa sobre o Brasil colonial. Segundo o livro, isso se dá, de um lado, porque a Inglaterra nunca empreendeu esforços para colonizar o Brasil; de outro, as narrativas inglesas são, em geral, fragmentos de coletâneas maiores sobre as Américas e outras áreas.
Nada disso diminui, porém, seu interesse histórico e até seu potencial de entretenimento. Quem poderia imaginar, por exemplo, que a capital pernambucana amargou um mês de ocupação por corsários ingleses (aliados a franceses e holandeses) em 1595?
A narrativa do saque do Recife –alvo inglês por causa das especiarias armazenadas no local– é um momento de alívio cômico do livro. “Dois índios vieram a bordo [dos navios ingleses] numa jangada, fugindo de seus senhores. E eu […] interpelei um deles, que me respondeu com uma grande gargalhada –’em terra estão todos se cagando’.”
É difícil não se divertir com os mal-entendidos culturais e as análises culinárias. Pão feito com mandioca é tão bom quanto o similar europeu? “Cerveja” feita com milho mascado e fermentado empata com a inglesa em sabor, mas vale a pena encarar o nojo da mastigação?
E há a simpática resignação de John Whithall, radicado em Santos, no litoral paulista, e conhecido como João Leitão entre os vizinhos. “Eles vêm usando esse nome há tanto tempo que agora só me resta o manter”, diz ele numa carta.