Política
Quinta-feira, 20 de junho de 2024

Como Bolsonaro, Russomanno multiplica informações falsas em campanha

CAROLINA LINHARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Jornalista com bandeira de defensor dos direitos do consumidor, Celso Russomanno (Republicanos) tem espalhado seguidas informações falsas em sua campanha à Prefeitura de São Paulo, seguindo o estilo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
O acúmulo de fake news difundidas abrange temas diversos, incluindo coronavírus, apoio de adversários, verba gasta no combate à pandemia e lançamento do programa Renda Brasil.
Ao tratar da sua promessa de auxílio paulistano, Russomanno também tem ignorado sua experiência de mais de 20 anos na Câmara dos Deputados. Diante de questionamentos sobre a Covid-19, deixa de lado o fato de seu partido ter comandado a política funerária em São Paulo na pandemia.
Em segundo lugar nas pesquisas, mas em queda, o candidato do Republicanos busca cristalizar votos da base bolsonarista para estancar o derretimento e ir ao segundo turno contra o primeiro colocado, o prefeito Bruno Covas (PSDB).
O próprio Russomanno é vítima de fake news, que dizem que ele votou contra o auxílio emergencial e a lei da ficha limpa, ou que quer acabar com a Uber. Ao mesmo tempo, porém, a campanha do candidato também responde com ataques inverídicos contra adversários.
Russomanno teve que tirar do ar vídeo em que associava Guilherme Boulos (PSOL) à ocupação do edifício Wilson Paes de Almeida, que desabou em maio de 2019. Também foi obrigado a publicar direito de resposta de Covas por ter dito que o prefeito desativou o Procon.
A equipe de Russomanno apagou ainda um post em que uma foto de Andrea Matarazzo (PSD) foi descontextualizada para simular que o candidato apoiava o deputado.
Em relação ao coronavírus, ele já associou uma suposta imunidade de moradores de rua ao fato de não tomarem banho. Nesta terça (3), questionou os testes da vacina e sugeriu que eles fossem feitos na China, o que já acontece, e entre pessoas doentes, o que não é o ideal para testar a eficácia do imunizante.
Russomanno tem dito que o estado e o município de São Paulo não gastaram nada para combater a pandemia e que toda a verba é federal. Os dois entes contaram com transferências da União, mas gastaram do próprio bolso –o estado, cerca de R$ 2 bilhões, e a prefeitura R$ 900 milhões, segundo a agência Lupa.
Já suas afirmações de que houve exagero na abertura de valas e compras de caixões são contestadas por Thiago Dias, membro do Republicanos responsável pelo Serviço Funerário Municipal de São Paulo até agosto. O partido foi exonerado da administração tucana quando Russomanno anunciou a pré-candidatura.
Em live em um canal bolsonarista, no dia 21 de outubro, Russomanno afirmou incorretamente que a prefeitura estocava 28 mil caixões porque o coronavírus “não dizimou ninguém”.
Para atacar Covas e o governador João Doria (PSDB), considerado inimigo por Bolsonaro, Russomanno postou que a abertura de covas no cemitério Vila Formosa, que estampou a capa do Washington Post, visava apenas espalhar terror e pânico.
Segundo a prefeitura, o estoque atual é de 9.453 caixões, número que atende a uma demanda de 30 dias. Procurado pela reportagem, Russomanno disse que no dia da live havia 28 mil no estoque e que, atualmente, são 11 mil, mas não apresentou provas.
A prefeitura informou ainda que foram abertas 13 mil valas em três cemitérios municipais, sendo que 5.892 foram utilizadas para mortes de Covid-19 e de outras causas. No Cemitério Vila Formosa, foram abertas 8.000 e utilizadas 3.487.
A média mensal de sepultamentos em São Paulo, de janeiro a setembro, foi de aproximadamente 7.600.
A afirmação de Russomanno vem na esteira de outra fake news, a de que Covas comprou 38 mil caixões sem licitação. A compra de 37.109 caixões é baseada em pregão de 2019 e as entregas foram antecipadas de forma gradual –mais de 33 mil já foram usados.
Dias afirmou à reportagem que o estoque de caixões é organizado e auditado. Para ele, não houve exagero e sua atuação foi correta.
“O Serviço Funerário foi a instituição que mais se apresentou preparada. As medidas adotadas foram as mais eficientes e as que menos gastaram”, disse ele, destacando que o valor dos caixões já estava provisionado e as valas já seriam abertas a longo prazo.
“Deixando questões partidárias de lado, o número é absurdo? É absurdo, mas também era a única medida que se podia ter ali, não vejo outra. Se houvesse o pico como houve em vários lugares, estaríamos preparados”, completa.
Russomanno também tem se referido a programas que ainda não saíram do papel como se eles já tivessem sido criados. “É por isso que o presidente lançou o Renda Brasil, para não deixar toda essa gente de mãos vazias”, disse na TV, em relação à ideia de Bolsonaro. “Criei o auxílio paulistano”, afirmou o candidato em sua propaganda nesta terça.
Ele tem dito que, se vencer, irá complementar a verba do auxílio emergencial do governo Bolsonaro pago a 2,6 milhões de paulistanos. O candidato não detalha o valor ou quando a medida seria implementada na cidade.
A verba para a proposta viria de uma renegociação da dívida que São Paulo tem com a União. A certeza de que isso irá acontecer é baseada, segundo Russomanno, em sua amizade com o presidente.
A medida é desacreditada por gestores públicos porque o artigo 35 da Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe operação de crédito individual entre entes da Federação –ou seja, as renegociações têm que ser abertas a todos os municípios.
O efeito cascata reduz as chances de que a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, ceda ao amigo de Bolsonaro. Além disso, ao contrário do que prega Russomanno, as renegociações precisam ser baseadas em leis complementares que exigem aprovação no Congresso –não dependem só do Executivo.
De acordo com apuração da reportagem, a proposta de Russomanno não conta com a simpatia da área econômica do governo federal.
Em entrevista à reportagem, o candidato afirmou ter conversado com Bolsonaro sobre a viabilidade da renegociação da dívida só com São Paulo e que o presidente lhe assegurou que era possível.
Russomanno alegou que, em 2016, o então prefeito Fernando Haddad (PT) renegociou a dívida sem envolvimento do Legislativo. No entanto, não foi bem assim.
Em 2015, Haddad recorreu à Justiça para que a União passasse a aplicar as regras delineadas na Lei Complementar 148, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff (PT) no ano anterior, e que reduziam a dívida da cidade.
Durante a tramitação da lei na Câmara, ao longo de 2013 e 2014, Haddad trabalhou pela aprovação de regras favoráveis e chegou a redigir uma emenda que foi aprovada.
O então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, só cedeu à renegociação e aplicou as novas regras aprovadas no Congresso após São Paulo vencer uma liminar na Justiça.
Haddad teve ainda que aprovar uma lei na Câmara Municipal que o autorizasse a renegociar a dívida.
O ex-prefeito petista tentou a renegociação desde 2013, quando assumiu o cargo, e obteve o acordo apenas em fevereiro de 2016.
Com a mudança do indexador do saldo devedor previsto na lei complementar, a dívida que era de R$ 74 bilhões passou a R$ 27,5 bilhões.
Como a dívida atual já é alinhada às regras sancionadas em 2014, Russomanno dependeria de uma nova lei aprovada no Congresso para obter ainda mais vantagens em uma nova renegociação. Para especialistas, não há brecha para que São Paulo volte a discutir sua dívida repactuada há quatro anos.