Cultura
Quarta-feira, 19 de junho de 2024

‘Cidade Pássaro’ mostra São Paulo de imigrantes sob olhar de nigeriano

SÉRGIO ALPENDRE
FOLHAPRESS – Filme brasileiro predominantemente legendado, “Cidade Pássaro”, de Matias Mariani, conta a história de um músico nigeriano chamado Amadi (o ator, também nigeriano, OC. Ukeje), que chega a São Paulo à procura do irmão, Ikenna, suposto professor de matemática em uma faculdade.
Amadi descobre que a faculdade não existe, mas uma nova pista o leva ao Jóquei, onde ele aposta em um cavalo azarão que termina vencedor e encontra um filho de imigrante húngaro que conheceu o seu irmão.
Encontros, desencontros, acasos, um tanto de sorte e muito de aventura perseguem Adami pelas ruas de uma cidade estranha (a ele e a todos que a habitam) e um tanto assustadora.
Talvez por falar em matemática e estatística, matéria de domínio do irmão procurado, o filme investe bastante na relação dos personagens com o espaço ao redor, em enquadramentos que denotam essa relação ao tirar o humano do centro das imagens ou ao colocá-los em reflexões ou distorções.
Ficamos logo seduzidos pela atmosfera de estranheza habilmente construída por Mariani, enquanto Amadi continua sua jornada pelo mundo dos imigrantes que tentam a vida na cidade grande e cosmopolita. Porque o filme também é deles, dos imigrantes de São Paulo.
Talvez todos sejam estrangeiros nesta cidade que ao mesmo tempo acolhe e repele. Amadi é mais um, e nesse sentido, vai se tornando tão paulistano quanto qualquer um que vive na cidade.
Quando se aprofunda no drama familiar, o filme enfraquece. Não porque os irmãos sejam personagens desinteressantes, mas porque o diretor não parece tão hábil na dramaturgia quanto na estilização arquitetônica dos quadros.
A obsessão em descobrir o paradeiro do irmão e dar uma satisfação à mãe distante impede que Amadi invista em sua relação com Emília, companheira de trabalho com quem inicia uma bonita história de amor. E aí ficamos no meio do caminho, sem muita definição entre uma e outra instância do drama.
Também a direção começa a oscilar na busca por um estilo e passa a ser engolida pelo espaço em alguns momentos, quando a arquitetura se torna mais invasiva do que um traço estético.
Felizmente, são poucas essas oscilações e o filme reserva ainda alguns momentos de poesia. A direção, se não volta a encontrar totalmente o rumo, ao menos permite que entremos finalmente no drama do protagonista.
Matias Mariani dirigiu, com Maíra Bühler (diretora de “Diz a Ela que Me Viu Chorar”), o surpreendente “A Vida Privada dos Hipopótamos”. Com “Cidade Pássaro”, tem uma estreia solo de inegável competência.