Internacional
Segunda-feira, 22 de abril de 2024

Rejeição feminina barra plano de Trump para conquistar eleitoras de classe média

RAFAEL BALAGO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em campanha, Donald Trump tem se dirigido às mulheres de duas formas um tanto exageradas. Em alguns, adota um tom de namorado que suplica por nova chance. “Por favor, por favor, mulheres do subúrbio, vocês deviam me amar”, disse em um comício na Flórida na sexta (23).
Em outros, parte para a agressividade contra adversárias. Em um evento em Michigan, no dia 17, fez duras críticas à governadora democrata Gretchen Whitmer. Em seguida, seus apoiadores bradaram “prendam ela”. Trump respondeu “prendam todos eles” – o que foi visto como um endosso. Dias antes, o FBI havia detido dois grupos de homens acusados de elaborar um plano para sequestrar a governadora.
Nenhuma das duas táticas tem ajudado o presidente a atrair mais eleitoras. As pesquisas de intenção de voto mostram que elas o rejeitam cada vez mais, o que poderá custar sua reeleição. Nos levantamentos mais recentes que divulgaram recortes por gênero, a vantagem de Joe Biden foi de 14 pontos percentuais (Economist/YouGov) e de 23 pontos (New York Times/Siena). Mesmo uma pesquisa da Fox News, emissora alinhada a Trump, mostra Biden 19 pontos à frente no eleitorado feminino no início de outubro.
De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, também do começo de outubro, a diferença é maior entre as latinas (com Biden 44 pontos à frente) e as negras (85 pontos de vantagem). Se os resultados se confirmarem, será a maior distância entre os votos de homens e mulheres já registrado no país. Desde 1988, os democratas venceram entre as mulheres em todas as votações presidenciais. Isso não afetou o resultado final em alguns anos, porque a diferença era pequena.
A preferência feminina pelos democratas veio após mudanças na plataforma republicana nos 1980. O partido passou a defender a proibição do aborto e retirou o apoio a medidas para promover a igualdade de gênero, durante a gestão de Ronald Reagan (1981-1989). Trump não apenas é contra o aborto – liberado nos EUA desde 1973 -, mas também atacou outros programas de acesso a saúde para mulheres.
“A tentativa constante de revogar o Affordable Care Act [conhecido como Obamacare] e de limitar o acesso a serviços de saúde, como pré-natal e controle de natalidade, tem sido apontada por movimentos sociais e organizações como uma ameaça a conquistas estabelecidas”, avalia Tatiana Teixeira, pesquisadora do INCT-INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os EUA).
As americanas também tendem a ser mais favoráveis a gastos sociais do governo do que os homens, em áreas como ajuda aos pobres, escolas públicas e acesso a saúde, segundo análise do CAWP (Centro para Mulheres Americanas e Política), ligado à Universidade de Nova Jersey. Isso também ocorre entre as apoiadoras do Partido Republicano.
Trump tem focado sua campanha em mulheres brancas e de classe média, que ele generaliza como “donas de casa”. Promete manter a salvo a “vida de sonho de subúrbio”, ao dificultar a construção de habitações populares e ao prometer “lei e ordem” contra manifestações sociais, por exemplo.
Embora as mulheres brancas o tenham ajudado a vencer em 2016, as eleições de meio de mandato de 2018 mostraram afastamento. Entre as que têm formação universitária, 59% votaram em democratas para o Congresso no último pleito (contra 49% em 2016).
Assim, Trump tem buscado consolidar seu apoio entre as evangélicas com menor escolaridade, mais comuns no interior do país. Sua campanha contra o aborto, cujo principal movimento foi a nomeação da juíza conservadora Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, é uma tentativa de se aproximar delas.
“O objetivo dele é agradar as eleitoras conservadoras que são contrárias ao debate sobre ampliação de direitos reprodutivos. Mas a nomeação pode prejudicar o apoio de outros grupos de mulheres, porque Barrett é contra a implantação de um sistema universal de saúde, um elemento importante para as mulheres que, inclusive, têm sofrido mais com a pandemia”, analisa Débora Prado, professora da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisadora da política dos EUA.
Embora Trump foque mulheres brancas, negras e latinas estão votando mais. Segundo o Pew Research Center, 67% dos eleitores em 2018 eram brancos. Em 2010, esse grupo representava 72%. Os negros e hispânicos, somados, passaram de 22% para 26% do total no mesmo período, o que representa cerca de 22 milhões de eleitores a mais.
A maior parte do aumento de votantes americano nos últimos anos é composta por eleitores jovens, mulheres solteiras e minorias raciais e éticas, segundo análise do CAWP. Elas também tendem a votar em maior número do que os homens negros e latinos.
Mulheres jovens costumam ser mais engajadas na busca pela igualdade de gênero e no combate ao racismo. Essas bandeiras têm sido abraçadas por lideranças democratas, enquanto Trump fez ataques ao movimento negro e foi alvo de denúncias de abuso sexual. Como presidente, fez ataques à deputada Alexandra Ocasio-Cortez, uma das jovens lideranças democratas de origem latina.
Em 2019, disse que ela e outras três parlamentares deveriam “voltar e ajudar a consertar os lugares totalmente quebrados e infestados de crime de onde vieram”. Os comícios de Trump têm incluído críticas também a outras figuras democratas, como Nancy Pelosi (presidente da Câmara) e Kamala Harris (candidata a vice). Também atacou jornalistas que o entrevistaram.
Em 2019, ainda na pré-campanha, o rival Joe Biden foi alvo de denúncias por ter tocado mulheres de forma inadequada em algumas ocasiões. A equipe de Biden respondeu à época que o candidato costumava fazer campanha de modo caloroso, mas que iria rever seu comportamento.
“Biden nunca se desculpou oficialmente, mas recuou, prometendo se adaptar as ‘novos tempos’, pressionado pela ala mais progressista e jovem do partido. “, avalia Teixeira.
O democrata escolheu uma vice de origem latina, defende o direito ao aborto e promete lutar pela igualdade salarial entre os gêneros e aumentar a presença feminina no alto escalão da Casa Branca. Também fala em indicar a primeira mulher negra para a Suprema Corte.
Para Susan Caroll, professora de ciência política e pesquisadora do CAWP, a diferença entre a preferência de homens e mulheres pode ser explicada pela forma como se avalia o caráter dos candidatos.
“Os apoiadores de Trump, homens em grande maioria, são entusiastas selvagens dele e abraçam ou ao menos toleram seu estilo pessoal, enquanto seus críticos, que na maioria são mulheres, são igualmente passionais e veem seu comportamento como não-presidencial e frequentemente repugnante”, diz.