Cultura
Quarta-feira, 19 de junho de 2024

Metamorfose de Porto Alegre é tema de HQ ilustrada por arquiteta

PAULA SPERB
PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – Para retratar as transformações arquitetônicas da capital gaúcha na década de 1920, a quadrinista Ana Luiza Koehler optou pelo método analógico. Os desenhos dos prédios lembram os croquis à moda antiga, feitos à mão com lápis e papel.
Com o tempo, a técnica foi substituída por um processo digital que lembra fotografias e elimina qualquer imperfeição do traço de origem humana. Arquiteta de formação, Koehler é a autora e ilustradora da história em quadrinhos “Beco do Rosário” (Veneta).
É comum que as etapas de produção de quadrinhos sejam compartimentadas, atribuindo as funções de roteirista, quadrinista e colorista a diferentes profissionais. Com uma trajetória de ilustradora no mercado franco-belga desde 2004, Koehler assumiu os três papéis na sua HQ autoral.
Cada página foi finalizada em nanquim em folhas tamanho A3 -o dobro de um papel ofício comum- e colorida com aquarela. Neste processo artesanal de ilustração, cada página leva pelo menos seis horas para ficar pronta. Há desenhos com perspectivas do alto, interiores e fachadas.
“Beco do Rosário” narra o impacto da modernização do centro de Porto Alegre com a derrubada de áreas de moradia popular para a construção de avenidas. O projeto foi selecionado para receber apoio do Rumos Itaú Cultural e inclui vídeos e fotografias com bastidores da criação.
“O que eu fiz foi pegar a história a contrapelo, como propôs Walter Benjamin, na contramão da narrativa oficial. Procurei mostrar quem estava perdendo com as conquistas. Em uma narrativa tão bonita, tão higienizada, o que está sendo deixado de fora?”, diz Koehler.
A autora imaginou protagonistas que viveram os episódios históricos da derrubada de diversos becos da capital gaúcha, incluindo o do Rosário que dá título à obra, que deram lugar à construção da avenida Otávio Rocha.
Uma das personagens é Vitória, uma jovem negra cuja família precisou deixar o local com a tomada da área pela prefeitura. Vitória se torna repórter do jornal O Exemplo, expoente da imprensa negra que circulou em Porto Alegre de 1892 até 1930.
Assim como o periódico, diversas referências presentes no enredo foram retiradas de pesquisas acadêmicas e figuras históricas. É o caso do Ateliê Friederichs, de João Vicente Friederichs, que produzia esculturas para fachadas dos novos prédios.
No quadrinho, o personagem negro Fabrício serve de modelo ao escultor alemão Alfred Adloff, que atuou na capital gaúcha no início do século 20. Nos quadrinhos, Adloff está esculpindo o “Remador Negro”, ornamento do prédio da antiga Alfândega, próximo do rio Guaíba, representando os trabalhadores navais. As feições negras quebraram o paradigma da estatuária de inspiração na mitologia grega, segundo explica Koehler.
“Quando se pensa na década de 1920, do modernismo, vem à mente o art déco, com suas linhas retas e arrojadas. Mas em Porto Alegre não foi assim. As construções ricas e elegantes eram art nouveau, era historicista, eclética, imitando o barroco alemão”, diz a arquiteta.
A derrubada dos becos para abrir novas avenidas, dar passagem aos bondes e construir o viaduto Borges de Medeiros também teve como consequência a gentrificação do espaço, um fenômeno compartilhado por outras metrópoles nas suas áreas centrais.
“Naquela época já havia o controle da habitação pelo viés econômico. As pessoas foram proibidas de ter casas térreas, com um piso, e residências de madeira foram vetadas. Além disso, pensões e cortiços pagavam os impostos mais altos. Era uma forma de forçar a alta dos aluguéis para que aquelas pessoas, que precisavam viver perto do trabalho, se mudassem para longe”, diz.