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Quarta-feira, 24 de abril de 2024

Brasil precisa recompor a confiança na economia, afirma economista-chefe do Santander

Para a economista-chefe do banco Santander, Ana Paula Vescovi, a economia brasileira tem de seguir com a disciplina fiscal e recuperar a agenda de reformas para recuperar a confiança dos investidores, após o Produto Interno Bruto (PIB) do país registrar no segundo trimestre o pior desempenho da histórica, com queda de 9,7%.

Ex-secretária do Tesouro, Ana Paula diz que uma piora fiscal pode levar a uma deterioração das condições financeiras do país, o que dificulta ainda mais uma recuperação.

“O país precisa recobrar, recompor a confiança da economia de agentes internos e externos para que possa ter mínimas condições de reativar a atividade econômica, gerar empregos e rapidamente atenuar esses efeitos (da pandemia)”, diz.

A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao G1.

  • Qual é o estágio da economia brasileira?

O segundo trimestre foi o fundo do poço da economia em função dos efeitos da crise sanitária. Não tenho dúvida de que haverá uma recuperação cíclica. O terceiro trimestre vai apontar uma recuperação mais enfática e, depois, a intensidade vai decrescendo. No fim do ano, estaremos em um modo normal, de uma recuperação bem gradual.

  • Como se dará essa recuperação gradual?

O setor de serviços foi o mais atingido nessa crise, algo diferente do que aconteceu em crises anteriores, e vai precisar ter um momento de recuperação. Ele é muito ligado ao mercado de trabalho e é o que mais cria empregos. O mercado de trabalho também vai sair muito afetado da crise. A gente vai precisar ver alguns direcionadores desse crescimento para ter a certeza de que a economia possa se recuperar mais aceleradamente.

  • É possível ver esse direcionadores?

Hoje é difícil ver esses direcionadores. A economia vai sair com uma capacidade ociosa muito grande e um nível alto de incerteza. O país vai alcançar uma dívida bruta pública muito elevada. Enfim, vamos ver provavelmente uma recuperação bem lenta após esse início, em que reabertura da economia vai trazer mais condições de uma recuperação cíclica mais intensa no terceiro trimestre. A partir daí, a gente vai ver a economia andando com as próprias pernas.

  • Qual será o impacto da diminuição dos estímulos na atividade?

O nosso cenário já incorporava uma extensão do Auxílio Emergencial. Mas, como próprio nome diz, é um auxílio, uma emergência para cobrir a contingência de pessoas que não podiam sair de casa para trabalhar em empresas que tiveram que suspender as suas atividades.

Em 2021, a economia vai andar com as próprias pernas, e esses estímulos serão compensados pela possibilidade de as atividades funcionarem plenamente. Óbvio que a gente sabe que empresas sucumbirão no meio do caminho e que vamos lidar com um nível de desemprego bem maior. Mas a questão fiscal do país, muito frágil, implica que esses estímulos não têm espaço para ser continuados.

  • E como avalia essa disputa entre o governo, entre uma ala que quer gastar mais e a outra que defende um ajuste das contas?

O dilema está posto, o dilema é claro. O Brasil já entrou nessa crise com condições fiscais muito apertadas, sem espaço nas contas públicas. Para a gente criar um programa, por exemplo, de assistência para fazer frente a um número maior de desempregados e vulneráveis, não tem espaço para isso, a não ser aumentar ainda mais a dívida pública.

Por outro lado, se isso acontecer, será preciso furar o teto dos gastos, o que piora as expectativas e as condições financeiras do país. O Brasil vai conviver com taxas de juros mais altas, pressões inflacionárias e mais incerteza, com um PIB, portanto, crescendo menos, e o país criando menos empregos.

  • Há espaço fiscal para um programa como o Renda Brasil?

Se o Renda Brasil não partir de uma reestruturação do gasto de assistência, não há espaço para um novo programa. Se houver um novo programa sem essa reestruturação do que já existe, é possível pressupor que não haverá possibilidade de cumprir o teto.

Agora, para criar um programa que não caiba no teto, vai precisar de uma Emenda Constitucional. É uma discussão que precisa de uma maioria ampla dentro do Congresso. Não vai ser uma discussão simples, obviamente. Mas isso tudo envolve escolhas que precisam ser feitas num momento muito crucial. Não há dúvida de que mexer no teto implica em aumento das incertezas quanto a evolução da dívida pública. E aí vem uma piora das condições financeiras, o PIB cresce menos, e o país gera menos empregos.

  • Para além da questão fiscal, como você avalia a agenda do governo?

Nós tivemos uma crise inesperada, um momento muito crítico na história do mundo, do Brasil. Isso há que ser reconhecido. Nesses momentos críticos, as decisões ficam muito mais tensas. E de novo: o Brasil entrou na crise com a desvantagem de não estar ajustado no aspecto das contas públicas. Isso implica agora em ter muito foco porque os dilemas se acirraram. É importante eleger as prioridades de atenção nesse momento e ter muito foco na condução dessas reformas que precisam ser endereçadas para modernizar a economia brasileira e assegurar um caminho de recuperação sustentada.

Nó vamos ter, sim, uma recuperação cíclica. O país tem uma capacidade ociosa imensa em função da crise e há estímulos monetários, creditícios e fiscais que foram colocados para atenuar esse momento. Então, teremos uma recuperação cíclica neste ano. Agora, para 2021, temos de enfrentar esses dilemas e priorizar as ações que são mais relevantes para segurar que a gente vai conseguir sustentar uma recuperação do PIB.

  • Além da questão das contas públicas, há incerteza sobre os rumos da pandemia no país. Como avalia o impacto da doença na atividade econômica?

As diferenças regionais e de renda implicaram em o Brasil ter uma crise mais longa. A gente já viu alguns países da Europa com uma segunda onda da doença, mas com uma taxa de letalidade da pandemia menor. Mas o Brasil teve essas contradições.

Nós temos uma crise contágio mais longa e isso dificulta o processo de abertura da economia. Nesses ciclos mais recentes, vemos uma queda da taxa de fatalidade aqui também, mas o contágio segue alto. E o que implica isso? Insegurança, incerteza. As pessoas se contêm em voltar a uma vida normal pela dificuldade antever um fim desse processo de contágio.

  • Há risco de a crise sanitária se prolongar por um longo período?

Temos um cenário de produção de uma vacina no fim deste ano, início do próximo. No nosso cenário-base, a crise sanitária será restrita ao ano de 2020. Se isso se concretizar, nós vamos ter em 2021 um ano de enfrentamento de uma crise econômica em decorrência desse processo.

Por isso é importante que o país consiga retomar a agenda de reformas o quanto antes para preparar essa recuperação da melhor forma possível para o ano que vem. O país precisa recobrar, recompor a confiança na economia de agentes internos e externos para que possa ter mínimas condições de reativar a atividade, gerar empregos e rapidamente atenuar esses efeitos (da pandemia). A recuperação vai ser lenta e, não antes de 2022 vamos voltar para os níveis de atividade do período da pré-pandemia.

Fonte: G1