Cultura
Quinta-feira, 13 de junho de 2024

No caminho das bombas atômicas

Em 30 de julho de 1945 a II Guerra Mundial estava no final, a Alemanha havia se rendido, incondicionalmente, fazia dois meses, tropas inglesas, soviéticas, americanas e francesas ocupavam o país, e Hitler havia cometido o suicídio. Porém, na Ásia a guerra continuava, o Japão dispunha de mais de um milhão de soldados no continente, ocupando a Manchúria, a Coreia e todo o litoral chinês. O Sudeste asiático e a Indonésia também estavam sob a ocupação japonesa. Das ilhas Marianas, Saipan, Tinian e Guam, bombardeiros B-29 partiam, todos os dias, para voos de quase 6000 km (ida e volta) para atacar o Japão, onde centenas de milhares de pessoas já haviam morrido. Somente em Tóquio, 131 quilômetros quadrados da cidade havia sido destruído pelos bombardeios. No dia 16 de julho, secretamente, os Estados Unidos da América, conduziram o primeiro teste de uma arma nuclear na historia da humana. Em um local conhecido como “Jornada del Muerto “, no campo de treinamento de bombardeio em Alamogordo, Novo México. O teste, batizado de “Trinity”, liberou a potência de 22 kilotons de energia, equivalente a 22 milhões de quilos de TNT. Com a posse de armas nucleares, o governo decidira usá-las para por fim à guerra. O plano consistia em fazer um ultimato ao Japão, sem explicar a natureza da arma e ante a provável recusa na rendição, lançar a bomba em um alvo não bombardeado anteriormente, deixando claro o seu poder. Varias cidades foram selecionadas para eventuais ataques: Kokura (Kitakyushu), Hiroshima, Yokohama, Niigata e Kioto. Posteriormente a cidade de Nagasaki foi incluída entre os alvos. Mas, a bomba atômica, era o maior segredo da guerra e por mais eficientes que tenham sido as medidas de segurança, sabe-se que houve vazamentos de informação. Os Estados Unidos trocavam informações com o Reino Unido, e os soviéticos tinham espiões em ambos os países. Se alguém conseguisse interceptar uma arma, durante seu transporte, está poderia ser copiada, com consequências imprevisíveis. Portanto decidiu-se enviar as bombas em partes, por navio ou avião, pois, caso ocorresse um acidente, seria mais fácil substituir um conjunto do que a arma toda. Parte da bomba “Little Boy”, que seria lançada sobre Hiroshima em 6 de agosto, foi transportada pelo cruzador (navio de guerra) USS Indianápolis, que entregou sua carga na ilha de Tinian em 26 de julho de 1945. Após a entrega da carga, cujos tripulantes do navio ignoravam do que se tratava, o navio de guerra seguiu rumo às Filipinas, onde se preparava a força que invadiria o Japão. Na noite de 30 de julho o submarino japonês I 58 avistou o navio americano, e disparou dois torpedos que, atingindo o centro do navio, o partiu ao meio. A detonação do torpedo, provavelmente, atingiu a sala de caldeiras ou o paiol de munições, de qualquer modo, o Indianápolis fundou em apenas 12 minutos, levando consigo 300 marinheiros (dos 1195 a bordo), presos em seu interior. Dos aproximadamente 900 remanescentes, que quase não tiveram como lançar botes salva vidas ao mar, tendo entre eles muitos feridos, apenas 316 sobreviveram. A tripulação tinha ordens de manter silêncio no rádio durante a missão, e, de qualquer modo, o naufrágio foi extremamente rápido. Dos seiscentos marinheiros mortos, por hipotermia, sede, ferimentos há que se destacar os ataques de tubarões, centenas de homens foram devorados, alguns se suicidaram para evitar tal fim.

Três dias e meio após o naufrágio, ainda ignorado pela marinha americana, um avião de patrulha avistou os náufragos e teve início a operação de resgate. Quatro dias depois a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, provocando 130.000 baixas, mortos, feridos, inválidos e sequelas em muitos mais. Mesmo assim a rendição oficial do Japão somente viria em 15 de Setembro, não antes de outro ataque nuclear, desta vez em Nagasaki, provocando 66.000 vítimas. A II Guerra Mundial terminou, oficialmente, em 02 de Setembro de 1945, com a rendição incondicional do Japão, assinada a bordo do couraçado “Missouri “, da marinha dos Estados Unidos da América, ancorado na baía de Tóquio. Em novembro de 1945, o capitão do USS Indianápolis foi julgado em corte marcial, é considerado culpado pela perda do seu navio. Ele foi o único capitão da marinha americana a sofrer tal punição na guerra. Embora tenha sido posteriormente retornado ao serviço ativo, o capitão Charles B. Mc Vay III, se retirou da marinha em 1949. Em 1968, ainda tomado pela culpa, cometeu o suicídio. Finalmente, em outubro de 2000, o capitão Mc Vay foi, oficialmente, “exonerado de culpa”pela perda do navio. Quanto às bombas atômicas, necessárias ou não, justificáveis ou não, não ensejaram nenhum julgamento, é ninguém tirou sua vida por se sentir culpado.