No Mundo
Segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Por que o acordo entre EUA e Canadá fracassou? Embaixador revela os bastidores da crise comercial

Negociações entre EUA e Canadá fracassam devido a divergências sobre impostos digitais e protecionismo agrícola. O impasse afeta o USMCA e o mercado global, gerando incertezas.

Evolução de divergências em torno de impostos sobre gigantes digitais, proteção ao agronegócio e barreiras tarifárias travou as negociações bilaterais entre as duas maiores economias da América do Norte.

O que aconteceu

  • Bastidores expostos: Revelações diplomáticas indicam que o diálogo direto entre Washington e Ottawa ruiu diante da inflexibilidade em pontos regulatórios estratégicos.
  • Imposto digital na mesa: A insistência canadense na implementação da taxa sobre serviços digitais (DST), direcionada às Big Techs americanas, foi um dos principais estopins do impasse.
  • Protecionismo agrícola: Barreiras e cotas históricas no setor de laticínios do Canadá voltaram a gerar forte resistência por parte dos negociadores dos EUA.
  • Sinais para o mercado: O fracasso na consolidação deste entendimento joga incertezas adicionais sobre a revisão formal do USMCA e sobre o fluxo de suprimentos na América do Norte.

Os Bastidores do Fracasso Diplomático e Comercial

A ruína das negociações recentes entre Estados Unidos e Canadá expõe a crescente complexidade das relações comerciais internacionais em um ambiente global marcado pelo protecionismo reforçado. De acordo com os detalhes revelados por representantes diplomáticos que participaram diretamente das conversas, o diálogo travou em pontos onde nem a Casa Branca nem o governo canadense estavam dispostos a ceder capital político.

O elemento central de atrito foi a implementação do imposto sobre serviços digitais (Digital Services Tax – DST) pelo Canadá. A medida atinge diretamente gigantes de tecnologia sediadas nos Estados Unidos, gerando forte reação do setor produtivo norte-americano, que pressionou o governo dos EUA a adotar uma postura intransigente ou aplicar retaliações tarifárias equivalentes. Do lado canadense, a defesa do tributo foi tratada como uma questão de soberania fiscal e justiça regulatória, inviabilizando qualquer recuo tático na mesa de negociação.

Impasse Agrícola e o Futuro do USMCA

Além do impasse tecnológico, as antigas feridas do comércio agrícola voltaram a sangrar. A rígida política de controle de oferta do Canadá no mercado de laticínios permaneceu irreconciliável com as exigências de abertura irrestrita pleiteadas pelos produtores dos Estados Unidos. A soma dessas barreiras regulatórias estagnou um processo que visava harmonizar fluxos de bens intermediários e commodities cruciais para a cadeia industrial integrada dos dois países.

A paralisia neste acordo bilateral lança uma sombra de preocupação sobre a revisão geral do USMCA (o acordo que substituiu o Nafta), agendada para ser rediscutida pelos países membros. Sem um consenso prévio entre Washington e Ottawa, a volatilidade no comércio da América do Norte tende a se elevar, afetando cadeias globais de suprimentos que dependem da estabilidade alfandegária e regulatória entre as nações fronteiriças.

Reflexos no Mercados Internacionais e no Brasil

Para a economia global e o mercado emergente brasileiro, fissuras no comércio do G7 geram impactos mistos. Por um lado, o acirramento de tensões comerciais na América do Norte costuma provocar movimentos de busca por segurança, fortalecendo a divisa norte-americana e elevando a volatilidade nos mercados acionários internacionais.

Por outro lado, eventuais reajustes de rotas de suprimento no setor agrícola e industrial podem abrir janelas de oportunidade pontuais para exportadores brasileiros, que ganham competitividade em produtos agrícolas e commodities metálicas caso os entraves entre EUA e Canadá resultem em retaliações tarifárias mútuas.

Guia do Investidor

Diante das crescentes tensões comerciais na América do Norte e dos desdobramentos no mercado de capitais, investidores devem adotar uma postura defensiva e atenta:

  • Gestão de Risco em Big Techs e BDRs: Disputas envolvendo impostos sobre serviços digitais (DST) em economias desenvolvidas aumentam a pressão regulatória e custos sobre as Big Techs. Monitore o peso desses ativos na carteira e reavalie os múltiplos de valuation do setor de tecnologia.
  • Acompanhamento de Commodities e Agronegócio: Fique atento aos papéis de empresas brasileiras exportadoras negociadas na B3. Frituras comerciais entre EUA e Canadá em grãos e laticínios podem redirecionar demandas de compra internacionais para o mercado sul-americano.
  • Proteção Cambial Tática (Hedge): O aumento das tensões entre parceiros de primeira grandeza no G7 impulsiona a busca global por dólar. Mantenha parcela da carteira em ativos atrelados à moeda americana para proteger o patrimônio da volatilidade nos mercados emergentes.
  • Aproveitamento do Carrego na Renda Fixa Doméstica: Com as incertezas geopolíticas externas e a Selic mantida no patamar elevado de 14% a.a. no Brasil, títulos pós-fixados (CDI) e papéis IPCA+ de médio prazo continuam oferecendo excelente relação entre risco e retorno sem expor o investidor ao estresse do mercado externo.

Fonte: IstoéDinheiro