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Quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Cidade portuguesa adota soluções sustentáveis sem alterar patrimônio histórico

Como implementar estruturas sustentáveis, painéis solares, por exemplo, em sítios tombados pelo patrimônio histórico, que não permitem alterações arquitetônicas radicais? Essa é a questão que está diante de várias cidades da Europa, não à toa apelidada de Velho Continente.
Por isso, a União Europeia criou em 2019 o projeto Pocityf, sigla em inglês para “Modelo de transformação urbana para criar cidades com energia positiva”. O projeto envolveu um investimento de 20 milhões de euros, cerca de 120 milhões de reais.
Dois municípios europeus foram escolhidos como “cidades-guia”: Évora, em Portugal, e Alkmaar, na Holanda. Os primeiros resultados de Évora acabam de ser divulgados. De acordo com o balanço inicial, foram implantadas 36 soluções inovadoras em prédios históricos na cidade, que é considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade desde 1986.
“A ideia é que essas soluções possam ser aplicadas em cidades diferentes com as mesmas restrições”, diz João Cravinho, engenheiro da área de pesquisa da empresa EDP, Energias de Portugal, e coordenador do projeto Pocityf.
Os primeiros a se beneficiar da experiência inicial deverão ser os seis lugares escolhidos como “observadores”. Entre eles estão polos turísticos como Granada, na Espanha, e Bari, na Itália.
“Nós e vários outros municípios europeus temos a obrigação de preservar o patrimônio histórico, mas não podemos ficar parados no tempo”, diz Nuno Bilo, responsável pelo projeto junto ao poder público de Évora.
O próprio prédio da Câmara Municipal, que equivale à prefeitura (em Portugal, o chefe do Legislativo municipal exerce o poder Executivo), se tornou o “showroom” de algumas das soluções. Vidros fotovoltaicos, para captação de energia solar, foram aplicados sobre o pátio central de um edifício quinhentista. Ficaram assim preservadas a fachada, a iluminação e a estrutura do prédio, com enorme ganho de eficiência energética.
O edifício foi construído no século 16, época em que Évora viveu um apogeu. A cidade do Alentejo, região situada no oeste de Portugal, era uma espécie de segunda capital portuguesa, pela proximidade com a Espanha e pelo clima mais saudável que o de Lisboa. O rei D. Manuel I que governava Portugal quando Pedro Álvares Cabral desembarcou no Brasil chegou a construir todo um complexo palaciano para suas temporadas no local.
O prédio onde hoje fica a prefeitura era um tipo de quinta urbana ocupada por nobres da época, conhecido como Palácio dos Duques de Sortelha. O grande pátio central era comum em moradias senhoriais.
Agora, o prédio tem vidros de silício amorfo fabricados sob medida pela empresa espanhola Onyx. Eles formam uma claraboia no centro do edifício, que abriga também um conjunto preservado de ruínas romanas.
A mesma solução (claraboia com vidros fotovoltaicos) foi usada no Mercado Municipal de Évora, outro prédio histórico tombado. Construída em 1880 para reunir vendedores que se espalhavam por vários lugares da cidade, a edificação usa estruturas de ferro e vidro, comuns na arquitetura do final do século 19. Assim, a nova solução sustentável se integrou perfeitamente ao prédio, num diálogo entre o estilo da época passada e as necessidades energéticas do presente.
Évora se tornou Patrimônio Imaterial da Unesco pela quantidade de elementos de diferentes épocas históricas. As regras sobre o patrimônio histórico ali e em várias cidades europeias impedem que se modifiquem fachadas ou que se apliquem painéis solares sobre telhados.
Para isso foram desenvolvidas também telhas fotovoltaicas. Antes, elas já haviam sido empregadas no Palácio dos Mistérios, um dos lugares mais visitados das ruínas de Pompeia, perto de Nápoles, na Itália.
Em Évora, as telhas fotovoltaicas também foram instaladas no prédio da Câmara Municipal. “É uma solução tão interessante que alguns proprietários privados de imóveis já solicitaram o material”, diz João Cravinho. De acordo com ele, é um jeito de viabilizar reformas em imóveis tombados sem alterar seu visual, e eventualmente conseguir algum ganho na conta de luz.
As telhas e os vidros também começaram a ser usados em toldos que ligam prédios históricos, gerando energia para as edificações. A par com as soluções conectadas diretamente com a preservação do patrimônio, outros procedimentos vêm sendo utilizados para aumentar a eficiência energética da cidade como um todo. Entre eles, estacionamentos com coberturas fotovoltaicas, mais pontos de recarregamento para carros elétricos e descarbonização do transporte coletivo.
Na apresentação dos resultados iniciais do projeto Pocityf, o coordenador João Cravinho calculou que, juntas, Évora e Alkmaar conseguiram aumentar em 100 megawatts a geração de energia fotovoltaica, e reduziram em 35% as emissões de carbono, sem alterar o visual das edificações históricas.
Entre os legados dessa experiência inicial, além da replicabilidade imediata nas “cidades-observadoras”, contam-se, segundo Cravinho, o envolvimento da população no projeto e a criação de um mercado voltado para equipamentos energéticos sustentáveis em cidades históricas.

Fonte: FolhaPress