Política
Quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Janones se diz estrategista digital por acaso e faz das redes e do caos sua sobrevivência na política

Eleito deputado federal pelo Avante, em 2018, na esteira de vídeos que fez nas redes para auxiliar líderes de caminheiros durante a greve da categoria, André Janones, 42, não sabe explicar como virou um estrategista de redes.
Naquela época, já promovia lives de 24h e apelava para o “urgente” na hora de repassar informações.
Quatro anos depois da eleição de 2018, foi pré-candidato à Presidência pelo mesmo partido, mas abriu mão da candidatura para apoiar Lula. Na campanha petista, assumiu a tarefa de auxiliar com as redes e foi novamente eleito deputado.
Vindo de um lar humilde em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, filho de uma empregada doméstica que o criou sozinha o pai morreu quando ele tinha apenas dez meses de vida, o deputado federal reeleito pela Rede diz que nunca teve tempo para ter calma.
O jeito polêmico e espontâneo lhe rendeu, entre petistas, apelidos como “cachorro louco”, mas também o levou a se tornar réu no STF (Supremo Tribunal Federal) por injúria contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e a ser condenado por danos morais por ofensas a bolsonaristas. Partiu dele, por exemplo, o apelido de “chupetinha” ao também deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL).
“Tudo o que se faz na vida tem um preço a se pagar, e esse é o preço. No lugar deles [bolsonaristas], eu também reagiria”, responde o parlamentar.
Janones atendeu a reportagem nesta terça-feira (27) pelo telefone, dentro de um avião, aguardando a decolagem para o Rio de Janeiro, onde daria outra entrevista. O congressista deixava São Paulo dois dias após a reeleição do presidente Lula (PT), que o agradeceu por ter assumido a frente digital da reta final da campanha e garantido a virada do petista ante o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O sucesso do “Exército do Lula”, canal que arregimentou mais de 10 milhões de seguidores em menos de um mês, levou o deputado a ser procurado por campanhas de esquerda mundo a fora, sendo a mais emblemática a do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.
O deputado garante à reportagem que nunca leu um livro sobre o tema e que aprendeu na prática, ao longo dos anos, sendo autodidata e com diagnóstico de altas habilidades. Ele afirma que recebeu o diagnóstico há seis anos de um psiquiatra e que isso o ajudou a entender o porquê de ser tão acelerado.
“Meu cérebro não para de ter ideias, até quando eu não quero, por isso eu não durmo muito”, conta. Durante as madrugadas nestas eleições, bombava o canal do “Exército” de mensagens e viralizou o termo “explode”, que afirma ter surgido pronto em sua cabeça.
Para lidar com o excesso da mente, faz análise (“agradeço primeiro a Deus e, em segundo, à psicanálise”) e mantém uma rotina extensa de atividades físicas, que inclui musculação, boxe, corrida, pilates e, vez ou outra, forró. Os exercícios foram pausados para dar conta das tarefas de campanha e a vida normal, assim por dizer, ainda não foi retomada.
Cinéfilo, como ele mesmo se define, diz que se identifica com seu filme favorito, “À Procura da Felicidade”, com Will Smith, por considerá-lo autobiográfico. “Esse filme mostra o poder da resiliência, a história da minha vida”, relata. O longa relata a trajetória do empresário Chris Gardner, que enfrentou a pobreza extrema antes de se tornar milionário.
“A minha vida foi de superação o tempo todo. Tive o privilégio de uma vida sem privilégios, e a urgência foi a matéria prima da construção da minha vida”, conta.
Advogado de formação, Janones concluiu o ensino superior com uma bolsa de estudos que não era integral. Para complementar a mensalidade, trabalhava como cobrador de ônibus. Presidiu o diretório acadêmico da faculdade e integrou o movimento estudantil, filiado ao PT. “Foi quando comecei a me engajar, a entender o que eu poderia construir.”
Já formado, passou a atender a população de baixa renda para garantir o acesso a direitos básicos, em especial atendimento médico. Diz que as liminares não eram cumpridas quando fazia pedidos educados, então passou a apelar para os barracos e posts nas redes sociais. Sob o mote de fiscal do povo, concorreu a prefeito de Ituiutaba em 2016, pelo PSC, mas não foi eleito.
Derrotado, diz ter investido todo o seu dinheiro na campanha. “Foi tudo embora: o banco tomou meu carro, minha casa e voltei para a miséria”. Anos depois, veio à tona uma denúncia de que ele teria praticado rachadinha em seu gabinete, já como deputado federal, para arcar com dívidas daquela campanha. Inicialmente ele negou, mas depois admitiu e fez um acordo com a PGR (Procuradoria-Geral da República) para não ser processado criminalmente.
Janones também foi denunciado pela ex-mulher, a prefeita de Ituiutaba, Leandra Guedes (Avante), por ameaças de divulgação de fotos íntimas ao fim de 2024. No processo, que corre em sigilo, ela alega que ele tentava chantageá-la para exigir a demissão de uma servidora. Foi concedida uma medida protetiva à prefeita, que obriga o deputado a manter uma distância mínima de 300 metros dela. Na época, ele usou as redes sociais para negar as acusações e se dizer vítima de armação.
No entanto, vítima é uma palavra que Janones diz não gostar de usar. “A internet valoriza a vida real, e a vida real tem erros e imperfeições. Respondo a muitos processos porque fiz o que não devia fazer, porque falei o que não deveria falar, mas é isso: sou humano”, diz.
“Não sou um cidadão de bem e nunca serei. Sou um cidadão que erra e acerta, mas que aprende e se transforma através dos seus erros.”
Na trajetória e no jeito, Janones se encaixa na descrição do escritor João Guimarães Rosa sobre o mineiro: uma gente imaginosa e muito resistente à monotonia.

Fonte: FolhaPress