No Mundo
Quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Águas na costa da Europa estão até 6°C acima do normal, fruto da mudança climática

Oceanos em todo em todo o planeta registraram temperatura recorde em junho e julho, mostrou o último relatório do serviço Copernicus. Nas águas que banham a Europa o aquecimento é ainda mais agudo, com temperaturas até 6°C acima do normal. A anomalia, que afeta da remota vida marinha aos preços do mercado da esquina, é fruto da mudança climática.
A conclusão é de um estudo de atribuição publicado nesta quarta-feira (19), que analisou o comportamento da temperatura da superfície da água (SST, na sigla em inglês) em quatro regiões costeiras europeias. Em todas, detectou aquecimento acima da média global; no mar Mediterrâneo, o dobro.
No golfo de Biscaia, localizado ao norte da Espanha e sudoeste da França, no mar Celta, ao sul da Irlanda, e nas porções ocidental e oriental do Mediterrâneo, o SST excedente é, na média, de 1,4°C.
Dos 3°C de aquecimento alcançados no Mediterrâneo, ao menos 2°C são obra da mudança climática, provocada sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, mostra a análise realizada pelo World Weather Attribution (WWA).
Capitaneado pelo Imperial College, de Londres, o grupo reúne cientistas para averiguar o tamanho da responsabilidade do aquecimento global em eventos extremos.
A contribuição subsidiária da crise climática, segundo o WWA, chega a 1,4°C na Península Ibérica e a 1,3°C nas proximidades da costa irlandesa.
“Em todas as quatro regiões, esses eventos teriam sido muito raros em um clima pré-industrial, apesar de terem se tornado comuns atualmente”, afirma Claire Bergin, da Universidade de Maynooth, na Irlanda. Uma das autoras do estudo, ela chama a atenção para o caso crítico da porção de mar que separa a Europa da África.
“As regiões do Mediterrâneo estão se aquecendo ainda mais rapidamente, com um aumento de aproximadamente 2,9°C no leste e de 3,4° no oeste. Os valores representam mais do que o dobro da taxa de aquecimento global e mais do que o triplo da taxa de aquecimento dos oceanos no planeta.”
Com dados coletados durante os 14 dias mais quentes de julho e usando modelos climáticos, a responsabilidade do aquecimento global também ficou evidente quando analisada a extensão das ondas de calor marítimas.
“Constatamos que, sem a mudança climática, seria esperado que apenas 30% da área do mar Celta sofresse uma onda de calor marinha, em comparação com os 80% atingidos no clima atual”, diz a pesquisadora. Na região do golfo da Biscaia, a área atingida passou de 40% para 90%, e no Mediterrâneo ocidental, de 40% para 80%.
“No Mediterrâneo oriental, a variação passou de surpreendentes 9% para 70%.”
O calor em excesso tem forte impacto na vida marinha, explica John Bruno, professor da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, que também participa da análise. “É notável a pequena quantidade de aquecimento necessário para que organismos ultrapassem seus limites e morram. Apenas 1°C no caso dos recifes de corais, por exemplo.”
O aquecimento também reestrutura as comunidades e provoca migrações. “Temos vencedores e perdedores. Muitas espécies veem sua abundância diminuir ou desaparecer por completo, enquanto outras prosperam e se proliferam”, explica Bruno. Entre os perdedores está o fitoplâncton, a base da cadeia alimentar marinha.
Grandes cúpulas de calor estão reforçando a estratificação natural dos oceanos, dificultando a movimentação natural de nutrientes do fundo do mar para as águas rasas. Isso inibe a chegada de nitrogênio e fósforo ao fitoplâncton, que entra em colapso. “No fim das contas, o que acontece é que toda a cadeia alimentar fica desequilibrada.”
Depois dos predadores de topo, como aves, mamíferos marinhos e peixes de grande porte, está o ser humano, responsável por todo esse aquecimento.
“O que acontece no oceano não fica só no oceano. O aquecimento dos mares ameaça a pesca e o abastecimento alimentar, prejudica ecossistemas e pode intensificar ondas de calor perigosas e fenômenos climáticos extremos em terra firme”, afirma Mohamed Adow, diretor do Power Shift Africa, think tank de energia e clima.
Segundo diversos estudos científicos, águas mais quentes contribuem para sucessivas ondas de calor, incêndios florestais, secas e rios exigindo baixo calado das embarcações, a realidade deste verão na Europa. Nas cidades costeiras, aumentam a frequência das noites tropicais, acima de 20°C, impedindo o resfriamento noturno, e o nível de umidade.
No fim da estação, o aquecimento ainda pode alimentar a umidade atmosférica extrema, provocando chuvas violentas, como as observadas em Valência, na Espanha, em 2024.
“A Europa não pode reconhecer dados científicos e, por outro lado, continuar a expandir o uso de combustíveis fósseis. Cada novo projeto de petróleo e gás agrava ainda mais o aquecimento global e leva os ecossistemas cada vez mais perto de limites dos quais talvez não consigam se recuperar”, diz Adow.

Fonte: FolhaPress