
Estudo do BTG Pactual aponta que o aumento da taxa neutra de curto prazo, e não apenas o risco da dívida pública, é o principal fator por trás da escalada dos juros de longo prazo no Brasil.
Estudo do banco revela que o aumento da taxa neutra de curto prazo — e não apenas o risco da dívida pública — é o principal vilão por trás dos títulos de 10 anos a 14,5%.
O que aconteceu
- Salto estrutural na curva: A taxa de juros de 10 anos no Brasil avançou expressivamente, saindo de uma média nominal de 9,9% (entre 2017 e 2019) para o severo patamar atual de 14,5% ao ano.
- Culpado majoritariamente doméstico: Estudo dos economistas do BTG Pactual aponta que fatores internos respondem por 63% do avanço nas taxas longas brasileiras, contra 37% de influência do cenário externo.
- Mudança de paradigma: O aumento dos gastos públicos aqueceu artificialmente a demanda e elevou a taxa neutra da economia, fator que responde por dois terços (305 pontos-base) do choque nos juros.
- Impacto do endividamento: A piora na dívida bruta brasileira — que passou de 75% em 2020 para mais de 81% do PIB em 2026 — gerou prêmio de risco extra e compõe a outra fatia do problema.
A curva de juros futuros de longo prazo é o principal termômetro da percepção de risco e das expectativas do mercado em relação ao futuro econômico de um país. Globalmente, as taxas longas vêm sofrendo um movimento de abertura (alta), mas, no Brasil, o fenômeno assumiu proporções maiores. Com a Selic atual estacionada em duros 14,00% ao ano após a decisão do Copom no início deste mês de agosto de 2026, os investidores se perguntam: quanto do estresse na curva longa é “culpa” de Wall Street e quanto é reflexo das fragilidades fiscais de Brasília?
Para responder a essa pergunta com precisão matemática, os economistas Tiago Berriel (estrategista-chefe da asset do BTG e ex-diretor do Banco Central) e Mateus Della debruçaram-se sobre o avanço de quase 5 pontos percentuais nas taxas nominais de dez anos — que saltaram da casa dos 9,9% no período 2017-2019 para os atuais 14,5%. A conclusão joga luz sobre a dinâmica oculta das contas públicas: 63% da culpa recai sobre o contexto puramente doméstico.
Historicamente, o senso comum do mercado financeiro sempre ditou que a escalada dos juros de longo prazo era uma resposta direta do aumento do risco calote — o chamado term premium (prêmio a termo) provocado por uma dívida pública em rota de explosão. O estudo do BTG, no entanto, traz uma abordagem mais refinada para a realidade de 2026.
De acordo com Berriel e Della, o motor primário para as taxas não foi a percepção imediata de risco fiscal sobre a dívida bruta (que saltou para mais de 81% do PIB neste ano). O grande catalisador atende pelo nome de “impulso fiscal”.
O mecanismo atua da seguinte maneira: ao injetar fortes gastos públicos e parafiscais no sistema, o governo mantém a economia aquecida artificialmente e crescendo acima de seu potencial natural. Esse excesso de demanda na ponta obriga o Banco Central a manter uma política monetária altamente restritiva por mais tempo. Consequentemente, a chamada taxa neutra de curto prazo — o juro necessário para que a inflação não suba nem caia — acaba subindo.
Quando os agentes econômicos percebem que as taxas correntes precisarão ficar persistentemente elevadas, isso se reflete quase imediatamente no componente de expectativas da curva futura. Na modelagem do BTG, esse canal foi responsável por cerca de dois terços da alta (305 pontos-base).
Embora a taxa neutra tenha roubado o protagonismo, o clássico risco fiscal manteve-se atuante. O segundo canal identificado pelo relatório é justamente a piora na dinâmica da dívida pública, que encarece o financiamento governamental.
O aumento no prêmio exigido pelos investidores para emprestar dinheiro ao Brasil no longo prazo (term premium) respondeu por um terço da elevação das taxas (159 pontos-base). Além das contas públicas internas em deterioração, o modelo também capturou, em menor escala, o impacto inevitável do ambiente externo, especialmente puxado pelas taxas de longo prazo praticadas pelo Federal Reserve nos Estados Unidos.
O estudo também modela um cenário de reversão. O que aconteceria com os títulos públicos brasileiros se o governo promovesse hoje um choque de austeridade, garantindo uma desaceleração dos gastos similar à vista entre 2017 e 2019, rumo a um superávit primário de 1,7% do PIB?
Os analistas do BTG estimam que essa aguardada “consolidação fiscal” seria capaz de reduzir os juros longos em até 250 pontos-base. O dado soa animador, mas carrega um choque de realidade para o mercado de capitais: mesmo no cenário mais otimista de austeridade, as taxas longas dificilmente voltariam aos patamares confortáveis de 10% observados antes da pandemia. O custo estrutural do capital no Brasil mudou.
Guia do Investidor
Com o mercado precificando uma taxa básica de juros de 14,00% ao ano no curto prazo e títulos de longo prazo sendo negociados a 14,5%, o investidor pessoa física e institucional precisa recalibrar sua estratégia na Bolsa de Valores (B3):
- Evite apostas longas e cegas no Pré-fixado: A alta estrutural da taxa neutra indica que os juros permanecerão altos por mais tempo. Ao comprar títulos pré-fixados de longo vencimento (como Tesouro Prefixado para 2030 ou além), você corre forte risco de marcação a mercado caso as expectativas fiscais do governo sofram novas pioras.
- Refúgio na inflação (Títulos IPCA+): Com a economia crescendo acima do potencial e pressionando os preços, proteger o poder de compra é mandatório. Alocar capital em títulos atrelados à inflação (Tesouro IPCA+ ou debêntures de infraestrutura) acrescidos de taxas reais polpudas, que hoje rondam prêmios históricos, garante blindagem e rentabilidade robusta.
- Foco na liquidez e no pós-fixado (CDI): Dado o atual prêmio elevado e os ruídos externos/internos, manter boa parte do portfólio em ativos pós-fixados (atrelados à Selic/CDI) garante captura do juro de 14% ao ano sem a volatilidade da curva futura.
- Atenção aos “Avisos de Risco”: Fique atento às publicações de relatórios bimestrais de avaliação de receitas e despesas do Ministério do Fazenda. Qualquer frustração na busca pela meta fiscal poderá elevar ainda mais as taxas curtas neutras apontadas pelo estudo do BTG.
Fonte: IstoéDinheiro
