Cultura
Quinta-feira, 11 de junho de 2026

‘Spider-Noir’ foge dos gibis do ‘Homem-Aranha’ e privilegia trama policial

As gerações mais recentes de filmes e séries no streaming devem muito aos super-heróis dos gibis. O sucesso das adaptações de HQs pesa muito na balança financeira. Mas essas produções também não demonstram piedade ao exibir personagens em versões alternativas que os afastam de suas figuras clássicas.
Algumas dessas mudanças têm suas origens ainda no papel, como o novo Batman “retrô” com Robert Pattinson, que mistura três gibis diferentes para dar nova vida ao morcego no cinema. Mas outras alterações surgem de puro delírio dos adaptadores, como “WandaVision”, que faz sátira de gêneros diferentes de séries de TV com Feiticeira Escarlate e Visão, dos Vingadores.
“Spider-Noir” nasceu no gibi. Levou um tempo para que as aventuras de um Homem-Aranha nos anos 1930 tivessem sua versão audiovisual, mas é possível cravar que valeu a pena esperar mesmo que, em alguns momentos, o espectador possa esquecer da figura do herói.
Na maior parte dessas adaptações, por mais que pipoquem inovações, a fidelidade às características básicas do personagem costuma ser valorizada pelos fãs. Mas “Spider-Noir” traz uma quebra radical na conexão com o super-herói original, e nisso está boa parte de seus pontos fortes.
O Homem-Aranha criado nos anos 1960, que está valendo até hoje, é um adolescente cheio de dúvidas, mas feliz da vida ao usar seus superpoderes e vestir um uniforme muito colorido.
O Homem-Aranha dos anos 1930 é um homem maduro que já desistiu de suas convicções, trata seus poderes como uma maldição e, quando veste um uniforme, é apenas uma roupa preta com uma máscara da mesma cor.
E só não é difícil levá-lo a sério porque, atrás da máscara, está Nicolas Cage. Ator que se equilibra entre desempenhos vigorosos e momentos de canastrice, tem um olhar amargurado num rosto de pedra, seus recursos para levar um herói de gibi à tela.
Mas, é evidente, ele passa muito longe de Peter Parker. Por isso que seu nome no streaming é Ben Reilly. Olha a confusão. No gibi “Spider-Noir”, o nome do detetive é Peter Parker. Na série, mudaram para Ben Reilly, que, nos quadrinhos, é um clone de Parker que combate o crime como Aranha Escarlate. Coisa de nerd.
As alterações não param na figura do protagonista. Os roteiristas partiram para uma jogada de mestre ao privilegiar a estrutura do romance policial noir e esquecer um pouco o gibi da Marvel. As participações em cena do herói mascarado, disparando teias e subindo pelas paredes, são mais raras do que qualquer fã poderia esperar.
Num exercício mental até fácil de ser feito, é possível imaginar a história de “Spider-Noir” sem máscara ou superpoderes. O que sobra é puro noir. Todos os elementos do envolvimento de um detetive cínico com mulheres fatais, bandidagem e policiais corruptos estão devidamente inseridos na trama. E vem a surpresa sem o escalador de paredes, ainda resta um bom enredo de um policial noir “tradicional”.
Mas aí o público não veria Nicolas Cage com uniforme de super-herói. Interpretar o Homem-Aranha, ainda que alternativo, é um consolo para ele.
Mesmo depois de receber um Oscar, Cage passou anos e anos suplicando aos produtores dos filmes de Superman a chance de ser o Homem de Aço, sem conseguir o papel. Grande decepção para alguém que batizou um dos filhos como Kal-El que é o nome do Superman em Krypton, ainda bebê.
Ao achar um caminho alternativo bem atraente, “Spider-Noir” vale ser vista, e talvez até duas vezes. Depois de assistir à versão em preto e branco de alto contraste, ótima sacada para o noir, é bom conferir a versão colorida também disponibilizada no streaming, que é muito bonita.
Spider-Noir
Avaliação Muito bom
Classificação 14 anos
Elenco Nicolas Cage, Lamorne Morris, Jack Huston
Criação Oren Uziel e Steve Lightfoot
Onde ver Disponível no Prime Video

Fonte: FolhaPress