Economia
Segunda-feira, 2 de março de 2026

Com lançamento em março, novo título do Tesouro Direto terá liquidez 24 horas

O Tesouro Direto deve lançar neste mês de março um novo título público que permitirá aplicações e saques 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. A funcionalidade será viabilizada por meio de uma nova plataforma operacional do programa.
Batizado de Tesouro Reserva, o papel é um título de renda fixa pós-fixado, cuja rentabilidade acompanha a taxa Selic em todos os dias úteis. O investimento mínimo previsto é de R$ 1 e a rentabilidade se assemelha à de outro investimento já conhecido: o Tesouro Selic.
A principal diferença entre os papéis é que no Tesouro Reserva o investidor não corre o risco de resgatar o título por um valor menor do que o esperado em momentos de instabilidade. “O preço do título não sofre oscilações negativas em momentos de maior volatilidade, oferecendo maior previsibilidade e estabilidade ao investidor, inclusive em resgates antecipados”, diz o Tesouro Nacional.
Atualmente, o produto está em fase de testes operacionais em parceria com o Banco do Brasil e, por enquanto, disponível apenas para um grupo restrito de clientes da instituição. Segundo o Tesouro Nacional, a disponibilização em outras instituições financeiras dependerá da adesão à nova plataforma operacional do Tesouro Direto e da implementação por parte de cada banco ou corretora.
Em nota, o Banco do Brasil diz que a negociação do título está disponível em seu aplicativo de investimentos. O banco afirma que a compra do papel será realizada mediante pagamento via Pix e a venda via crédito na conta do cliente. “Os últimos ajustes estão sendo concluídos com um grupo restrito de clientes e esta nova modalidade estará disponível para todos os correntistas ao longo do mês de março”, afirma.
De acordo com o Tesouro Nacional, a precificação do título continuará sendo atualizada diariamente, com possibilidade de recompra pelo próprio Tesouro. O título terá prazo de vencimento de 10 anos, mas permitirá resgates a qualquer momento.
A tributação segue as mesmas regras dos demais títulos do Tesouro Direto. Há incidência de Imposto de Renda apenas sobre os rendimentos, no momento do resgate ou do vencimento, com alíquotas regressivas conforme o prazo da aplicação: quanto maior o prazo, menor a alíquota cobrada sobre os rendimentos.
Para resgates realizados em até 30 dias, pode haver cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre os rendimentos, também de forma regressiva e zerada após esse período. A retenção dos tributos é automática e feita pela instituição financeira.
Segundo o Tesouro Nacional, o Tesouro Reserva foi criado com o objetivo de tornar o Tesouro Direto mais acessível e simples de usar, especialmente para quem está começando a investir.
Para o economista e professor do Ibmec-RJ, Gilberto Braga, o novo título tende a ser ainda mais conservador do que o Tesouro Selic tradicional justamente por não ter marcação a mercado.
Segundo ele, o papel pode estimular uma migração gradual de recursos da poupança, já que ambos têm perfil semelhante de segurança, mas o Tesouro Reserva tende a oferecer rentabilidade maior.
Considerando a Selic atualmente em 15% ao ano, o especialista afirma que, mesmo com o desconto do Imposto de Renda, o produto deve render ao menos o dobro da caderneta. A transição, no entanto, não deve ocorrer de forma acelerada.
TABELA REGRESSIVA DO IR
“A poupança tem um enraizamento cultural muito forte. Então não deve haver uma substituição imediata, mas pode ocorrer uma migração paulatina, principalmente entre investidores mais jovens ou com maior acesso à informação financeira”, diz.
Braga também afirma que o Tesouro Reserva tem como vantagem o fato de o investidor não precisar esperar 30 dias para completar o ciclo de remuneração, como ocorre na poupança. Na caderneta, ao retirar o dinheiro antes do aniversário, o aplicador perde o rendimento do período incompleto.
O especialista acrescenta que o produto tende a se consolidar como o investimento mais seguro do mercado, por estar vinculado ao Tesouro Nacional e, portanto, ao chamado risco soberano que mede a capacidade de um país honrar suas dívidas.
Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, a ampliação do horário de funcionamento facilita o uso do título como reserva de emergência, tornando a aplicação mais flexível sem alterar a segurança ou o rendimento do ativo.
Segundo ela, o Tesouro Reserva está sujeito à mesma dinâmica macroeconômica do Tesouro Selic, com a diferença de que, neste último, as oscilações decorrentes da marcação a mercado costumam ser pequenas, mas existem.
TESOURO RESERVA, CDBS, OU “COFRINHOS”?
Além de se aproximar de outro título público, o Tesouro Reserva também tem semelhanças com CDBs de liquidez diária. Para Henrique Soares, planejador financeiro certificado CFP pela Planejar, a escolha entre os produtos deve considerar três pontos principais: segurança, liquidez e simplicidade.
O especialista diz que CDBs de grandes bancos e as chamadas “caixinhas” costumam ser fáceis de usar e já fazem parte do dia a dia de muitos investidores. O Tesouro Reserva, por sua vez, tem como diferencial o fato de ser um título público, portanto, com baixo risco de crédito, aliado a uma proposta mais moderna de liquidez.
No caso dos CDBs, aplicações de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição financeira contam com a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que assegura o ressarcimento desse valor em caso de falência do banco.
“Na prática, não existe uma resposta única. O investidor pode, inclusive, combinar as duas opções, mantendo parte da reserva em banco e parte em títulos públicos”, diz o especialista. Para ele, o mais importante é garantir que esse dinheiro esteja acessível, tenha baixo risco e não apresente oscilações que possam gerar surpresa no momento de uso.

Fonte: FolhaPress