Política
Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Aumenta desgaste entre Tarcísio e Kassab, e entorno fala em saída iminente do governo

O desgaste da relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e seu secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD), que já enfrentava problemas desde o ano passado, chegou ao ápice nas últimas semanas. Segundo interlocutores, o clima entre os dois é ruim e o presidente do PSD deve deixar a gestão estadual em pouco tempo.
De acordo com aliados, Tarcísio ficou incomodado com a atuação de Kassab para ampliar o próprio partido, filiando em massa prefeitos e deputados de outras legendas da base do governo e criando problemas de estabilidade e articulação política para o governador.
Tarcísio também estaria insatisfeito com a pressão para escolher o secretário como vice na chapa à reeleição, posição que Kassab disputa com o atual vice e correligionário, Felício Ramuth (PSD), e André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa.
O governador teria ficado irritado ainda com o vazamento da informação de que Ramuth é investigado pela Justiça de Andorra, sob suspeita de ter lavado mais de US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8,3 milhões), o que ele nega. Na segunda-feira (23), questionado pela imprensa, Tarcísio disse que “fofoca antes de eleição sempre tem” e negou que o caso influencie na formação da chapa.
Integrantes da base especulam que o vazamento possa ter partido de Kassab ou de André, para minar as chances de Ramuth de continuar no cargo. Procurado pela reportagem, o presidente da Alesp negou com veemência qualquer participação no episódio. “Isso não faz parte da minha índole. Jamais faria”, disse.
Kassab também negou envolvimento, por meio de sua assessoria. “Kassab nega e lamenta o baixíssimo nível das intrigas apócrifas que circulam”, afirmou.
O secretário e o governador não quiseram comentar o desgaste na relação.
Como secretário de Governo, pasta responsável por controlar a verba de emendas e convênios e repassá-las para prefeituras, Kassab chegou a multiplicar por sete o número de prefeitos filiados ao PSD, como mostrou a Folha de S.Paulo.
Integrantes de outros partidos, insatisfeitos com o apetite do secretário, passaram a dizer que ele usava sua influência na gestão para atrair filiados à sua legenda. Kassab também foi acusado de facilitar a liberação de convênios para prefeitos do PSD.
Esse movimento irritava Tarcísio, que afirmava a interlocutores, até meados do ano passado, que seu secretário “vendia na praça” um comando da máquina pública que não detinha.
Em dezembro, o PP chegou a ameaçar ter candidato próprio ao Palácio dos Bandeirantes nas próximas eleições. A legenda divulgou uma nota se queixando da falta de atenção do governo, citando um crescente descontentamento dos prefeitos.
No fim do ano, Kassab afirmou publicamente que poderia antecipar sua saída do governo para coordenar as eleições. Segundo dois aliados de Tarcísio, o governador soube da informação pela imprensa, e ambos tiveram uma conversa.
Tarcísio não se opôs ao movimento, mas pediu ao secretário para ser informado, para que pudesse escolher um substituto para a pasta. Kassab teria entendido, nessa conversa, que, se saísse naquele momento, não poderia indicar um substituto. Por isso, não chegou a formalizar sua intenção.
Interlocutores dos dois dão como certa a saída de Kassab da pasta no máximo até abril. Isso porque Tarcísio já avisou aos auxiliares que quem continuar na gestão deverá estar focado no governo, e não nas eleições.
Um aliado do governador afirma, porém, que o secretário pode sair antes disso, porque o clima não é de continuidade.
Interlocutores do secretário já afirmaram em conversas privadas que ele quer se manter no cargo, evitando um rompimento público com Tarcísio, ao menos até o fim da janela partidária, no início de abril. Nesse período, parlamentares podem trocar de partido sem perder o mandato.
Segundo esses relatos, Kassab quer evitar que uma briga com o governador nesse momento resulte numa debandada de deputados do PSD, enfraquecendo a chapa de candidatos em outubro.
Outro aliado do secretário enxerga a reunião de Kassab com seus três presidenciáveis os governadores Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr. (PR), marcada para a próxima semana, como uma demonstração de força do PSD e um recado a Tarcísio de que o partido será importante para o governador em sua tentativa de reeleição.
TROCA DE FARPAS
O incômodo de Tarcísio com Kassab começou após as eleições municipais de 2024. Nos últimos meses, porém, o desgaste se aprofundou.
Um aliado avalia que ganhou corpo junto ao governador a percepção de que Kassab trabalha mais por ele próprio, e pelo PSD, do que pelo governo.
A insistência de se colocar como vice, segundo esse interlocutor, também incomodou Tarcísio, que não deve escolher para a chapa alguém que já começará o novo mandato preparando o terreno para ser o próximo governador.
O desgaste tornou-se público em uma fala de Kassab sobre a relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em entrevista ao UOL em janeiro.
Questionado se já havia aconselhado o governador a não se amarrar politicamente a Bolsonaro, o secretário respondeu que considerava importante os gestos de gratidão de Tarcísio ao ex-chefe, mas que ele também precisava mostrar sua identidade. “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”, disse.
A declaração foi mal recebida por Tarcísio, que, no dia seguinte, afirmou que tem uma relação de gratidão e amizade com o ex-presidente, “absolutamente nada a ver com submissão”.
Na quinta passada (19), em agenda em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, o governador voltou ao assunto, com uma indireta a Kassab. “Acho interessante que as pessoas, às vezes, querem rotular lealdade como submissão. Uma coisa não tem nada a ver com a outra”, disse. “Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros.”
No dia seguinte, o presidente do PSD publicou nas redes sociais uma mensagem em que afirma ter sido privilegiado “com bons amigos e conselheiros”, o que foi interpretado como uma resposta ao governador.

Fonte: FolhaPress