Economia
Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Inflação acima de 4% nos EUA? Especialistas dizem que tarifas e fiscal sugerem isso

Executivos do Peterson Institute dizem em artigo que que há vários riscos de alta e que projeções de CPI moderado em 2026 podem ser “otimismo prematuro”

Em meio às pressões do governo de Donald Trump para que o Federal Reserve reduza com vigor as taxas de juros nos Estados Unidos, projeções sobre a inflação americana no ano ganham cada vez mais importância. Nesse contexto, um artigo assinado pelo CEO e pelo presidente do Petersen Institute fazem uma alerta importante em artigo: os risco de que o índice de preços dos EUA suba mais do que o esperado no ano é alto. “Uma inflação acima de 4% até o fim de 2026 não é apenas plausível, mas, em certo sentido, o cenário mais provável”, escreveram.

Peter Orszag e Adam Posen destacam no texto que a visão consensual entre os previsores de que a inflação americana continuará  sua queda gradual em direção à meta de 2% do Fed ao longo de 2026 é um “otimismo prematuro”.

Segundo essa leitura, os principais fatores de risco para a alta são os efeitos defasados das tarifas comerciais que Trump aplicou no ano passado, uma expansão do déficit fiscal (que pode superar 7% do PIB neste ano), um mercado de trabalho mais apertado refletindo os efeitos da mudança na política de imigração, uma política monetária mais frouxa do que se costuma reconhecer e expectativas de inflação que estão se deslocando para cima.

Ele detalharam esses riscos no texto:

1 – Defasagem na transmissão das tarifas

Os autores dizem que o repasse das tarifas para os preços ao consumidor tem sido modesto até agora, sugerindo que os importadores americanos vêm absorvendo a maior parte das mudanças tarifárias. “Isso vai mudar na primeira metade de 2026. Há várias razões para esse repasse defasado, incluindo empresas precificando com base em quando seus estoques chegaram — e que agora já se esgotaram — e o receio de aplicarem reajustes muito rápido. Os aumentos, portanto, têm sido graduais.

“As empresas já esgotaram os estoques que haviam acumulado antes da implementação das tarifas. E embora CEOs tenham relutado em aplicar um aumento acentuado de uma só vez, eles vêm elevando preços em incrementos menores ao longo de um período mais longo. Até meados de 2026, o repasse atrasado deverá estar substancialmente completo”, diz o artigo.

Segundo os autores, isso pode adicionar 50 pontos-base à inflação cheia até o meio do ano. A questão então passa a ser se o efeito desparece dos números de inflação, já que os preços mais altos também entram na base de comparação do ano anterior. “Justamente porque o repasse tem sido tão lento, somos céticos de que o impacto das tarifas vá desaparecer tão rapidamente.”

2 – Política de imigração e o mercado de trabalho

Várias regionais do Federal Reserve agora estimam que o nível de emprego de equilíbrio — o número de empregos mensais necessários para manter a taxa de desemprego estável — caiu dramaticamente, de aproximadamente 150 mil no início de 2024 para menos de 90 mil em meados de 2025. E a redução da imigração é o principal fator. Isso significa que o mercado de trabalho está mais apertado do que sugere a taxa de desemprego agregada, mesmo com o crescimento do emprego tendo se moderado.

Orszag e Posen destacam que, apesar das notícias diárias sobre deportações, o emprego formal nos setores mais dependentes de mão de obra migrante — agricultura, processamento de alimentos, construção residencial, saúde e cuidados infantis — permaneceu essencialmente estável. E destacam que não há evidência de trabalhadores nativos ocupando essas vagas, nem de uma onda de investimento em automação, nem de aumento significativo de salários nesses setores, e ainda assim a produção se manteve.

“Quando os efeitos das deportações se materializarem plenamente, a escassez de mão de obra nos setores dependentes de migrantes irá se intensificar, forçando aumentos salariais que se transmitirão à inflação de serviços — os custos com cuidados de saúde domiciliares já crescem a uma taxa anual de 10%, perto das máximas da década. Esses aumentos salariais também exercerão pressão altista sobre a inflação em 2026.”

3 – Política fiscal mais expansionista do que parece

Já a perspectiva fiscal para 2026 é mais expansionista do que a maioria reconhece, diz o artigo, e pode adicionar um ponto percentual do PIB ou mais em estímulos adicionais neste ano.

Um ponto importante citado é que, mesmo sem uma decisão da Suprema Corte que invalide as tarifas impostas sob o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA), a carga tarifária já está diminuindo. As receitas com tarifas estão caindo desde o pico de novembro à medida que empresas estão trocando, obtendo isenções e reduzindo volumes de importação.

Mas ao mesmo tempo existe um ricos de uma variedade de novos gastos. Uma alta de subsídios autorizada pelo Congresso parece cada vez mais provável, por conta das eleições de meio de mandato marcadas para o ano. Ainda entram na conta a adoção dos cheques de “dividendo das tarifas” para famílias de baixa renda, prometido por Trump e que devem ter um custo entre US$ 300 bilhões a US$ 600 bilhões. Até mesmo o corte de verbas para o IRS (a Receita Federal dos EUA) pode contribuir para a redução de arrecadação de impostos.

Leia também: A visão do Fed sobre a inflação nos EUA pode estar errada – e o que isso significa?

4 – Política monetária mais acomodatícia

Para os autores, política monetária continua mais frouxa do que o FOMC parece reconhecer. As razões de serviço da dívida das famílias estão próximas de mínimas históricas  e os spreads de crédito estão excepcionalmente estreitos, lembram, enquanto o patrimônio líquido das famílias supera US$ 180 trilhões. São indicadores que Orszag e Posen dizem sugerir um ampla capacidade para manutenção dos gastos.

Além disso, eles alertam que o mecanismo de transmissão monetária enfraqueceu. “Grandes empresas de tecnologia financiam em grande parte seus investimentos com fluxo de caixa, em vez de mercados de dívida. O mercado de crédito privado já alcança quase 2 trilhões de dólares, fornecendo um canal alternativo de financiamento que responde de forma diferente às mudanças de juros.”

5 – Desancoragem das expectativas

Por fim, são citadas pesquisas do Peterson Institute mostrando que a experiência vivida com inflação tem efeitos duradouros sobre as expectativas. “As famílias se lembram muito mais vividamente de aumentos de preços marcantes — ovos, carne, cuidados infantis, reparos domésticos — do que de estatísticas agregadas. Esses efeitos de memória persistem por anos ou até gerações”, explicam.

Um exemplo citado é que um item de alta frequência, como ovos. Embora eles representem menos de 0,2% da cesta de consumo usada no CPI, esse item pode distorcer desproporcionalmente a percepção de inflação durante choques de oferta como a gripe aviária. “À medida que aumentos de preços escalonados em categorias muito visíveis se materializem ao longo do próximo ano, as expectativas das famílias podem derivar para cima, o que também exerce pressão altista sobre a inflação efetiva”.

Fonte: InfoMoney