No Mundo
Quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Inflação acelera na Argentina em meio à crise entre governo Milei e instituto de estatísticas

Era para ter sido um mês de festa para o Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos), com a estreia de uma aguardada nova forma de calcular a inflação na Argentina. Mas uma crise com o governo de Javier Milei suspendeu a publicação do novo indicador, mudou a direção do instituto e abriu uma crise interna no órgão.
Acabou sendo divulgado nesta terça-feira (10) o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) tradicional, que marcou 2,9% em janeiro, ante 2,8% no mês anterior. Em 12 meses, o indicador ficou em 32,4%.
Os dados, no entanto, acabaram sendo ofuscados pela crise no instituto, que planejava atualizar a cesta de bens e serviços usada nos cálculos, após uma pesquisa realizada entre 2017 e 2018 -a atual se refere a dados de 2004.
Em janeiro, o segmento de alimentos e bebidas registrou o maior avanço (4,7%) do índice, puxado pelas carnes, verduras e legumes. Em seguida, aparece o de restaurantes e hotéis (4,1%).
Como prévia da inflação nacional, o índice de preços na Cidade Autônoma de Buenos Aires ultrapassou 3% e fechou em 3,1% no primeiro mês do ano, resultado dos aumentos nos serviços vinculados à temporada de verão, segundo o Idecba (Instituto de Estatística e Censo de Buenos Aires). Dessa forma, a variação de preço atingiu seu nível mais alto desde março de 2025.
O novo IPC seria menos afetado por variações na taxa de câmbio e mudanças nos preços internacionais que influenciam alimentos, enquanto estaria mais exposto a aumentos em serviços como energia, transporte e comunicações. Itens como habitação, eletricidade e gás teriam um peso maior na nova cesta.
Por outro lado, categorias como alimentos e bebidas, embora mantivessem a maior importância, teriam sua participação reduzida. A categoria de roupas e calçados também diminuiria de importância.
Só que a atualização da fórmula para calcular o IPC foi suspensa uma semana antes, provocando a renúncia do diretor do Indec, Marco Lavagna, e abrindo uma crise interna no instituto.
A suspensão do IPC e a saída de Lavagna foram influenciadas por tensões internas entre ele e o ministro da Economia, Luis Caputo. Lavagna queria publicar o novo índice, enquanto Caputo e Milei preferiram manter a medição anterior. Lavagna estava na direção do Indec desde 2019.
O governo argumenta que a pandemia alterou significativamente os hábitos de consumo e que primeiro é preciso encerrar o processo de desinflação desde o programa de ajustes de Milei para depois alterar o índice.
“Junto com Milei, não concordamos em mudar o índice”, defendeu Caputo a jornalistas. “Você tem que comparar peras com peras ou maçãs com maçãs.” “O lógico é encerrar o processo de desinflação e então realizar outra Pesquisa Permanente de Domicílios, onde isso realmente reflete as mudanças.”
Outro ponto é que a atualização do IPC tinha consequências diretas em contratos de aluguel, aumentos salariais e tarifas, já que muitos indicadores são atrelados ao avanço da inflação. Aposentadorias e algumas tarifas de transporte, por exemplo, seguem os dados do IPC com um acréscimo percentual.
Ainda não há previsão de publicação da nova forma de medir a inflação na Argentina.
A desistência levou a uma série de críticas por parte de economistas ao governo, eles apontaram semelhança com a intervenção sofrida pelo Indec durante os governos kirchneristas.
Mesmo economistas com pensamento mais próximo ao de Milei se manifestaram. O ex-ministro Domingo Cavallo publicou um texto contra a forma como o governo lida com as críticas econômicas. Ele questionou a “intolerância” diante de observações técnicas.
A situação da inflação na Argentina ainda é sensível, com dados anuais mostrando altas taxas de inflação em anos anteriores, e uma expectativa de desinflação gerada pela chegada de Milei ao poder, em dezembro de 2023, que ainda enfrenta desafios.
Em 2025, a inflação fechou no menor patamar desde 2017, mas o próprio Milei é parcialmente responsável pela inflação no fim de 2023, ao promover uma maxidesvalorização do peso argentino logo que assumiu o poder.

Fonte: FolhaPress