Política
Sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Nunes imita Maluf e recria a ‘Rota municipal’ na GCM de São Paulo

A gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), pretende deixar a GCM (Guarda Civil Metropolitana) cada vez mais parecida com uma polícia. O próprio prefeito não esconde o desejo e usa em suas entrevistas a expressão “polícia municipal” para se referir à Guarda.
O passo mais recente foi alterar o nome da Iope (Inspetoria de Operações Especiais) para Romu (Ronda Ostensiva Municipal), criada pela primeira vez pelo então prefeito Paulo Maluf em 1993, com o nome Rondas Municipais. A mudança de Nunes foi feita por decreto em 19 de janeiro.
O prefeito já tentou alterar o nome da GCM para Polícia Municipal, mas viu a Justiça paulista barrar a proposta no ano passado.
Procurada, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana disse que a decisão é uma reorganização administrativa para modernizar a estrutura da GCM e fortalecer a segurança urbana.
“A Ronda Ostensiva Municipal substitui a Inspetoria de Operações Especiais, assumindo seu efetivo e recursos, para atuar em ações ostensivas e táticas de maior complexidade, com foco na prevenção de crimes, controle da desordem urbana, apoio a operações integradas e resposta rápida a situações críticas”, disse a pasta.
A gestão Nunes criou, no mesmo decreto da Romu, a Iate (Inspetoria de Ações Táticas Especiais) em substituição à Inspetoria de Ações Integradas. O objetivo é que os agentes atuem “em ocorrências de alta complexidade, como em áreas de risco elevado, grandes emergências e crises”.
A Iope, criada em 2009 por Gilberto Kassab (PSD), tinha como principal atribuição atuar no perímetro da cracolândia, com abordagens, apreensões de drogas e deslocamento de usuários de um ponto para o outro. Seus integrantes já se vestiam no estilo militar, com boinas escuras, diferentemente da maior parte da Guarda Civil Metropolitana, que usa boné.
Na terça-feira (3), Nunes publicou um vídeo em que divulga o carro a ser usado pela equipe da Romu. A viatura é do tipo SUV, pintada com cores escuras, assim como de tropas de elite da PM paulista. O prefeito aparece na imagem ao lado do secretário de Segurança Urbana de SP, Orlando Morando, chefe da GCM.
Maluf nunca omitiu que sua pretensão ao criar a Romu era formar uma tropa semelhante à Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), unidade de elite da Polícia Militar paulista sob responsabilidade do governo estadual. Antes de ser prefeito, Maluf foi governador.
Matéria da Folha de S. Paulo em setembro de 1993 apontou os diferenciais da Rota de Maluf, que contava com veículos mais robustos, armas longas e trajes mais próximos aos usados por policiais militares. As mudanças também passavam por aulas de treinamento de tiro e ensino de técnicas de abordagem como as adotadas pela PM.
À época, o coordenador da Guarda Civil Metropolitana, o coronel Luiz Gonzaga de Oliveira, justificou a iniciativa como necessária para o crescimento da tropa. “O prefeito quer ampliar os serviços da Guarda. Isso só será possível com o aumento no número de policiais e de viaturas”.
Candidato à prefeitura em 2016, o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) chegou a aventar a possibilidade de recriar a unidade. Ele acabou sendo derrotado na disputa eleitoral.
O modelo Romu não vingou na capital e foi descontinuado, mas criou moda e passou a ser adotado em diversos municípios da Grande São Paulo, onde permanece em atuação.
GUARDAS VÊM GANHANDO MAIS PODER NOS ÚLTIMOS ANOS NO PAÍS
A ampliação de funções ostensivas é parte de um incremento de poderes das guardas civis que vem ganhando velocidade nos últimos anos. Em setembro de 2023, uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu as corporações como parte do sistema de segurança pública e ampliou suas funções. No fim daquele ano, um decreto do então ministro da Justiça, Flávio Dino, ratificou essas permissões, com destaque para policiamento preventivo, atendimento a ocorrências e a possibilidade de prisões em flagrante.
Em 2025, o Supremo considerou constitucional a criação de leis municipais que estabeleçam essas competências.
Quem defende o aumento de poderes alega vantagens de segurança jurídica, por exemplo, para as abordagens feitas por guardas, frequentemente contestadas na Justiça. Já os críticos têm apontado riscos na criação de milhares de polícias no país aliada à precariedade na fiscalização, que seria mais uma função a recair sobre o Ministério Público.
Outro aspecto negativo seria a mimetização das polícias militares, que tende a reproduzir o modo de agir, substituindo o trabalho preventivo pelo engajamento em confrontos, e a buscar identidade nas corporações estaduais.
Comandar a segurança pública dentro da própria gestão também parece uma ideia atraente para outros prefeitos além de Nunes. A iniciativa encontrou paralelo na gestão Eduardo Paes (PSD), que criou uma Força Municipal de Segurança unidade de elite da Guarda Municipal do Rio de Janeiro que deve começar a atuar em março deste ano munida de pistolas.
Também houve tentativas de mudança de nome para polícia municipal em cidades paulistas como Ribeirão Preto e Itaquaquecetuba. Belo Horizonte e Contagem, em Minas, Porto Alegre, Canoas e Pelotas, no Rio Grande do Sul.
Curitiba, Recife e Salvador também viram surgir projetos, tanto pelo Executivo quanto pelo Legislativo, no mesmo sentido. A proximidade com a tropa e uma suposta valorização a partir do nome de polícia têm sido usadas por prefeitos que buscam se projetar como figuras condutoras da segurança pública.
Em 2022, o país tinha ao menos 1.467 corporações, com um total de 97.175 agentes, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Fonte: FolhaPress