
Em 2024, Donald Trump baseou a retórica de sua campanha de reeleição na desregulamentação e em cortes de impostos para livrar o setor privado de regulações consideradas excessivas e estimular a atividade econômica. Na prática, a economia de Trump 2.0 tem se parecido menos com esse ideal conservador de “c” minúsculo e mais com o status quo protecionista e mercantilista do início do século 20.
“Este é o governo mais intervencionista da minha vida”, disse Justin Wolfers, economista da Universidade de Michigan, à rede progressista MeidasTouch. “É o governo menos conservador da minha vida.”
Wolfers — que já foi nomeado pelo FMI como um dos 25 jovens economistas do mundo que “moldam a forma como pensamos a economia global” — afirmou que a corrosão da independência das instituições federais promovida por Trump e sua propensão a se inserir em decisões do setor privado estão reorientando a economia para longe de um caminho produtivo e previsível. O resultado, alertou Wolfers, pode ser uma geração de oportunidades perdidas e crescimento desperdiçado.
Wolfers já comparou a economia de Trump, especialmente seu regime tarifário, à saída do Reino Unido da União Europeia. “O Brexit é um estudo de caso excelente para meus amigos aqui nos Estados Unidos”, disse à CNN no ano passado.
Wolfers criticou o efeito isolacionista do Brexit sobre o Reino Unido, que resultou em anos de crescimento estagnado e desemprego mais alto. “Esse é basicamente o roteiro que a América também vai ter de seguir”, afirmou, em meio à escalada da retórica de guerra comercial dos EUA na primavera passada, direcionada ao Reino Unido e à Europa. (Na verdade, Wolfers compara a eleição de Trump ao Brexit desde 2016, embora mesmo naquela época já alertasse que o primeiro provavelmente seria pior.)
Os dados mostram de forma consistente efeitos negativos moderados, porém persistentes, sobre o PIB, o comércio, o investimento e a oferta de trabalho.
Pesquisas recentes que usam comparações do tipo “e se” sugerem que o PIB por pessoa do Reino Unido está cerca de 6% a 8% abaixo do que estaria sem o Brexit por volta de 2024–25.
Por que a economia de Trump é mais radical do que conservadora
Embora Trump tenha cumprido promessas de cortar regulações e reduzir impostos para empresas e americanos ricos, Wolfers observou que outras políticas são menos compatíveis com as economias de presidentes republicanos recentes.
O governo Trump abordou algumas empresas explorando o poder regulatório do Estado, interferindo ocasionalmente em casos antitruste ou lançando dúvidas sobre fusões que exigem aprovação federal, como reguladores fizeram para desencorajar companhias a adotar políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI).
O governo Trump também assumiu um papel mais ativo no setor privado ao comprar participações acionárias ou de controle em várias empresas.
No ano passado, o governo comprometeu mais de US$ 10 bilhões de recursos dos contribuintes para esse tipo de operação, com a maior parte destinada a garantir uma fatia de 9,9% na gigante de chips Intel.
A administração também demonstrou interesse em mineração, geração de energia nuclear e siderurgia. No fim de semana, surgiram ainda relatos de planos do governo para injetar US$ 1,6 bilhão na USA Rare Earth, grande fornecedora de minerais.
Para muitos economistas, o mais preocupante é que Trump tem repetidamente subvertido a independência de instituições federais, notadamente ao demitir o chefe do Bureau of Labor Statistics (Departamento de Estatísticas de Emprego) após um relatório de emprego desfavorável (com revisões, é verdade, bastante grandes, que colocaram em dúvida a leitura anterior de uma economia forte) e ao assediar e ameaçar repetidamente remover o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell.
Trump tentou demitir a diretora do Federal Reserve Lisa Cook, caso agora sob análise da Suprema Corte, e seu Departamento de Justiça abriu uma investigação sobre suposta fraude hipotecária envolvendo Cook, o que ela contesta veementemente.
O desconforto nos mercados dos EUA é apenas um indício do caos que poderia resultar caso Trump leve adiante o enfraquecimento da independência do banco central.
CEOs de destaque, incluindo Jamie Dimon (JPMorgan), alertaram para os riscos enfrentados por países que seguem esse caminho, tendo a Turquia como exemplo notório do que pode dar errado quando o Executivo demite banqueiros que lhe dizem coisas que ele não quer ouvir.
Wolfers afirmou que esse comportamento é incompatível com o papel dos EUA como uma das nações mais ricas do mundo.
À medida que a confiança na economia cai e os dados econômicos se tornam menos confiáveis, acrescentou, as consequências podem repercutir por muito tempo no futuro, arriscando a eliminação prematura de anos de crescimento potencial.
“Não pense no próximo trimestre. Não pense no próximo ano ou sobre uma possível recessão. Faça a pergunta muito mais profunda: quais são os alicerces da prosperidade?”, disse Wolfers. “Daqui a uma década, haverá algumas empresas que nunca foram fundadas.”
Além das ameaças à estabilidade dos mercados, outros economistas e cientistas alertaram que algumas políticas de Trump, incluindo tarifas, cortes no financiamento federal para pesquisa e exigências migratórias mais rígidas, estão criando riscos de longo prazo que podem minar a inovação nos EUA.
Uma análise de economistas da UC Davis constatou que tarifas impostas no fim do século 19 e início do século 20 — período que Trump exaltou como uma era dourada da economia — reduziram a produtividade doméstica em 25% a 35% para cada aumento de 10% nas tarifas.
Kent Jones, professor emérito do Babson College, observou que tarifas foram usadas para financiar o governo federal até 1913.
Foi nesse ano que o Congresso aprovou a lei da qual deriva o imposto de renda moderno, iniciando o fim de uma era de desigualdade de riqueza exorbitante, um momento-chave do que os historiadores chamam de Era Progressista.
A era que Wolfers acusa Trump de ressuscitar, é claro, é a Era Dourada (Gilded Age, com rápido desenvolvimento econômico e grande desigualdade social), que veio imediatamente antes desse período.
“Seja lá qual for o próximo Google ou OpenAI da geração seguinte, talvez ele não chegue a ser inventado ou talvez não aconteça em nosso território”, disse Wolfers. “Nunca veremos essa ausência, mas nossos filhos sentirão. Nossos filhos sentirão isso como um conjunto de oportunidades perdidas.”
Fonte: InfoMoney
