
Um relatório preliminar do Departamento de Segurança Interna (DHS) sobre a morte do enfermeiro Alex Pretti, 37, em Minneapolis, no sábado (24), contradiz a versão do próprio governo dos Estados Unidos a respeito da ação, a segunda na cidade cometida por agentes federais de imigração que resultou na morte de um cidadão americano.
O material, enviado ao Congresso americano, é o primeiro relatório escrito do governo sobre os eventos que levaram à morte de Pretti e foi produzido pelo Escritório de Responsabilidade Profissional (OPR, em inglês), um órgão corredor do CBP, a patrulha de fronteiras e alfândega, que está sob o guarda-chuva do DHS. Diferentemente do ICE, o CBP costuma atuar apenas na fronteira e nos pontos oficiais de entrada no país.
“Essas notificações refletem o protocolo padrão do CBP e são emitidas de acordo com os procedimentos existentes. Elas dão um contorno inicial de um incidente ocorrido e não transmitem uma conclusão definitiva ou resultados de investigação. Elas são relatórios factuais, não julgamentos analíticos, e são providenciados para informar o Congresso e promover a transparência”, afirmou Hilton Beckham, uma porta-voz do CBP.
O relatório não menciona que Pretti segurava ou apontava uma arma contra os agentes federais. Kristi Noem, secretária de Segurança Interna e superior responsável pelo ICE e pelo CBP, afirmou anteriormente, repetidas vezes, que Pretti abordou os agentes com uma arma “com o intuito de provocar máximo dano e massacrar” os funcionários federais.
Ela também classificou Pretti como “terrorista doméstico” pouco depois do incidente, sem que uma investigação tivesse sido iniciada. Vídeos da abordagem gravados por testemunhas contradizem as declarações de Noem, que foram multiplicadas pelo governo federal e pelo próprio presidente Donald Trump.
O relatório se torna público em momento em que o governo Trump muda seu discurso em relação à morte de Pretti. Na noite de domingo (25), pressionado por críticas às ações e por democratas que ameaçam não aprovar o orçamento federal e, portanto, provocar uma nova paralisação do governo, Trump disse que o governo estava “revisando tudo”.
No dia seguinte, no entanto, em telefonema com o governador democrata de Minnesota, Tim Walz, o presidente afirmou que o governo federal só recuaria se as autoridades do estado ajudassem a Casa Branca com deportações.
A pressão não funcionou. Ainda na segunda, a imprensa americana afirmou que Gregory Bovino, comandante da operação em Minneapolis, conhecido como um defensor da truculência das ações de deportação, deixaria o posto. O prefeito democrata da cidade, Jacob Frey, disse ainda que uma parte dos agentes federais deixariam Minneapolis.
Já Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump na Casa Branca e um dos cérebros das políticas agressivas do republicano dentro e fora do país, admitiu que os agentes que provocaram a morte de Pretti podem ter agido fora do protocolo.
O assessor disse que seus comentários se basearam em declarações iniciais de Kristi Noem sobre o ocorrido, em aparente tentativa de culpar a secretária de Segurança Interna.
O relatório preliminar do CBP apresenta uma linha do tempo detalhada dos eventos com base em imagens de câmeras corporais que estavam ativadas e em documentação da agência.
Segundo o texto, analisado pelo jornal The New York Times, por volta das 9h de sábado, um agente federal foi confrontado por duas mulheres que sopravam apitos. Embora o agente tenha ordenado que elas saíssem da rua, elas não se moveram.
O funcionário então “empurrou ambas para longe”, e uma das mulheres correu em direção a Pretti. Depois que o agente tentou movê-las para fora da rua e elas não se moveram, o funcionário usou spray de pimenta contra elas, de acordo com a revisão.
Pretti, então, resistiu às tentativas dos agentes do CBP de detê-lo, provocando uma luta, segundo o relatório. Um agente da Patrulha de Fronteira gritou várias vezes: “Ele tem uma arma!”
Cerca de cinco segundos depois, um agente da Patrulha de Fronteira disparou sua Glock 19, e um funcionário do CBP também disparou sua Glock 47 contra Pretti, segundo a revisão.
Fonte: FolhaPress
