BEATRIZ MONTESANTI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – De olho em alimentar pessoas no home office ou baratear produtos em meio à crise, startups estão surgindo com foco em alimentação sustentável.
Essas empresas atuam desde a criação de alimentos à base de plantas, passando pela conexão entre pequenos produtores e cozinheiras, até a logística de distribuição, evitando assim o desperdício de comida.
Esse último é o caso da SuperOpa, uma foodtech que surgiu como um trabalho universitário em 2018 e hoje está em 500 cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O modelo consiste em um aplicativo que funciona como marketplace da indústria de alimentos, conectando distribuidoras diretamente ao cliente final, para que possam vender, a preços mais baixos, alimentos próximos do vencimento e que não vão para as prateleiras de mercado.
São toneladas e toneladas de comida que, de outra forma, acabariam em lixões ou incineradas porque não acham comprador.
“É uma ineficiência enorme da cadeia. Além de perder o que comprou da indústria, as distribuidoras ainda têm o custo de descarte do lixo”, explica Luís Borba, presidente-executivo da startup.
Para que a operação aconteça, o alimento passa por uma verificação de qualidade antes de ser disponibilizado pelo aplicativo. Aprovado, recebe um selo de sustentabilidade, estratégia encontrada pelos empreendedores de levar uma imagem positiva aos produtos que são por vezes rejeitados por mercados e clientes, ainda que estejam em ótimo estado para consumo.
“É necessária uma mudança de paradigma que talvez seja nosso maior desafio. A gente tem esse hábito de achar que a comida próxima à validade não presta e isso atrapalha muito a distribuição de alimentos. Fazendo o movimento contrário, ajuda a combater a fome e diminuir o descarte de lixo”, diz Borba.
Outro desafio também encontrado pela empresa é o de negociar os descontos com as marcas. Segundo Borba, algumas não permitem ofertas muito grandes, e como consequência alguns produtos seguem empacados.
Aqueles que não são vendidos em um prazo considerado adequado para o consumo antes do vencimento, são distribuídos pela startup a ONGs parceiras.
Borba explica que seu principal público hoje está nas classes B e C, que se beneficiam dos baixos valores em que os alimentos são vendidos -os descontos podem chegar a até 70%.
Os preços acessíveis ainda têm como efeito melhorar a alimentação da população, que sem eles acaba por vezes recorrendo a mercadorias de baixa qualidade, por serem mais baratas ou serem as disponíveis nos mercados próximos.
“Tivemos um distribuidor com uma picanha argentina de R$ 85 o kg empacada. Colocamos por R$ 16, preço da salsicha, que é campeã de vendas nas classes C e D e acaba sendo usada como mistura no dia a dia. Os clientes enviaram vídeos recebendo a carne, fazendo churrasco. Salvamos 200 kg de alimento e tivemos um impacto positivo na vida de pessoas que não conseguiriam introduzir a carne ao cardápio.”
Outras startups como a Liv Up e a duLocal vão além na cadeia e conectam agricultores a consumidores finais preparando os pratos e levando refeições saudáveis de porta em porta.
Para isso, usam inteligência de dados para prever consumo, elaborar cardápios e preparar pratos na medida certa, levando em consideração a sazonalidade de produtos e a demanda calculada.
A Liv Up começou com um portfólio de alimentos prontos congelados que podiam ser combinados pelo consumidor no momento da compra pelo aplicativo. Hoje a empresa entrega também refeições completas, sopas e sobremesas em 50 cidades brasileiras, além de oferecer uma quitanda de orgânicos.
Essa última opção teve início durante a pandemia, quando seus agricultores parceiros perderam muitos clientes com o fechamento de restaurantes. São mais de 7.000 toneladas compradas de mais de 30 famílias.
“Nossa tese sempre foi pautada em aliar alimentação saudável e praticidade”, diz o presidente-executivo Victor Santos. “Fazemos um trabalho bastante intenso com chefes de cozinha, nutricionistas e engenheiros de dados para entender como melhorar a experiência do consumidor nesse sentido.”
A duLocal possui uma logística semelhante, com a diferença de incluir cozinheiras de Paraisópolis, na periferia de São Paulo, que preparam refeições para serem consumidas na hora, a partir de ingredientes também comprados de produtores familiares.
As mulheres, que atuam como autônomas, recebem os produtos e realizam o preparo de casa. Para isso, recebem treinamento gastronômico, capacitação e apoio psicológico -hoje esse processo tem sido feito todo de forma online.
“Acho que de certa forma acabamos democratizando o home office, que foi segmentado para algumas classes”, diz Roberta Rapuano, sócia da foodtech e diretora de operações. “Mulheres venderem comida que fizeram nas próprias casas é a realidade do Brasil. Nós profissionalizamos essas mulheres que ganham a vida dessa forma.”
A startup, que começou com a ideia de reunir campo e cidade, abarca hoje uma rede de 13 cozinheiras, 30 entregadores e quase 50 fornecedores entre agricultores orgânicos e cooperativas.
Por ora, as entregas são feitas apenas na região do centro expandido de São Paulo, mas a empresa tem planos de aumentar o alcance e também levar a produção para outras comunidades da periferia.
“Acreditamos no poder de descentralizar as cozinhas na cidade, podendo produzir para mais pessoas sem precisar de grandes recursos”, diz Roberta.
Ainda na linha do uso de tecnologia para fomentar uma alimentação saudável e sustentável, outras startups atuam na própria criação de novos alimentos. É o que faz a N.Ovo, ao desenvolver produtos alimentícios à base de plantas.
“Conhecendo startups que fazem isso no Vale do Silício, vi quantos problemas globais elas ajudam a endereçar ao criar esse tipo de alimento, como combater aquecimento global, fomentar um uso sustentável da terra, combater pandemias e, principalmente, a fome”, diz a fundadora Amanda Pinto, nomeada este mês “inventora do ano” pela MIT Technology Review, publicação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Atualmente a N.ovo oferece variantes de ovos para serem usadas em receitas, ovos mexidos e três tipos de maionese. No ano que vem a startup pretende lançar um quarto sabor, que poderá ser escolhido pelos clientes.
“Queremos ser a escolha óbvia, sem sermos impositivos. Trabalhamos para educar consumidores e atingir um público de ‘flexitarianos'”, brinca, se referindo a pessoas que comem carne, mas se preocupam com a diminuição do seu consumo.
Entre as limitações dessas foodtechs está o de ainda atingirem um público restrito, devido ao preço de seus produtos ou área de alcance. Com exceção da SuperOpa, os clientes das demais se concentram nas classes mais altas.
O segundo desafio, dizem os empreendedores, está na educação alimentar.
“Tenho certeza de que o mercado está só no começo. As pessoas estão tomando consciência dessas questões e nós também estamos começando a desenvolver as tecnologias nesse sentido. Há um universo a se explorar”, conclui Pinto.
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