Economia
Quinta-feira, 8 de outubro de 2026

OMC dobra previsão para comércio global com inteligência artificial

A OMC (Organização Mundial do Comércio) dobrou sua projeção de crescimento do volume do comércio de mercadorias em 2026. A estimativa passou de 1,9%, prevista em março último, para 3,9%. Para 2027, a expectativa subiu de 2,6% para 4,1%.
Os números estão na atualização do relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, divulgado nesta quinta-feira (8). O principal motor da revisão é o investimento em inteligência artificial, que mais do que compensou os efeitos da guerra no Oriente Médio.
Os chamados bens habilitadores de IA, como chips, servidores e equipamentos de rede, responderam por 47% do crescimento do comércio de bens em valor no primeiro semestre. O comércio desses produtos saltou 67% no período, depois de altas de 16% em 2024 e 31% em 2025, de acordo com a entidade.
A fatia desses bens no comércio mundial, que oscilou entre 7% e 8% de 2016 a 2023, chegou a 14,8% no primeiro semestre de 2026. Segundo a OMC, o investimento em IA depende muito de importações. Por isso, eleva mais o comércio do que outros tipos de gasto, como a construção civil, cujo conteúdo importado é de cerca de 2%.
Isso explica por que o comércio deve crescer acima do PIB (Produto Interno Bruto) mundial, estimado em 2,6% neste ano e 2,9% no próximo. Somados bens e serviços, o comércio global deve avançar 3,7% em 2026 e 4,7% em 2027, projeta a entidade.
O movimento é concentrado, segundo a OMC. Os dez maiores participantes respondem por 85% das exportações e 80% das importações de bens de IA. Ásia Oriental e Sudeste Asiático fornecem a maior parte, e a América do Norte puxa a demanda.
A Ásia deve responder por quatro pontos percentuais do crescimento de 3,9% do comércio de bens neste ano, mais que o total. O Oriente Médio vai na direção oposta: suas exportações devem cair 17,2% e as importações 15,4%.
O conflito na região, iniciado em março, praticamente fechou o estreito de Hormuz. As exportações de gás natural liquefeito do Oriente Médio caíram 47% no semestre. Outros produtores, porém, ampliaram a oferta, e o volume global de gás recuou apenas 1%.
O barril do Brent chegou a alcançar US$ 138 em abril, ante cerca de US$ 70 antes da guerra. Recuou para perto de US$ 75 após o memorando de entendimento entre EUA e Irã, em junho, mas voltou a rondar US$ 100.
A guerra explica o corte na projeção para serviços: a estimativa de crescimento mundial do setor caiu de 4,8% para 3,3% em 2026. Os transportes devem crescer apenas 0,9%, e viagens, 0,2%, como consequência do espaço aéreo fechado na região e o combustível de aviação mais caro.
O relatório também a diferença entre volume e valor. No primeiro semestre, o comércio de bens subiu 15% em dólares, ante 3,5% em volume. É uma das maiores distâncias dos últimos anos, explicada pelo encarecimento de combustíveis e componentes eletrônicos.
A OMC aponta riscos à frente, já que a alta no preço dos derivados de petróleo corrói o poder de compra das famílias. A inflação global prevista para 2026 foi revista de 3,7% para 4,7% pela entidade.
Outro risco é uma reversão do investimento em IA. Segundo a organização, uma queda do setor, hoje com peso recorde na Bolsa americana, afetaria o comércio diretamente.
AMÉRICA DO SUL E BRASIL
O relatório não traz projeções por país. Para a América do Sul, Central e Caribe, região em que o Brasil é a maior economia, a OMC elevou a previsão de alta das importações em 2026 de 2,5% para 4,6%. As exportações devem crescer 3,4%, estimativa praticamente estável.
Para 2027, a previsão é de alta de 3,4% nas exportações da região, acima dos 2,5% estimados em março. As importações devem subir 4,7% e o PIB regional deve avançar 2,5% neste ano e 2,7% no próximo.
Em valor, as vendas externas de bens da região subiram 19% no primeiro semestre ante igual período de 2025. A alta foi puxada por ouro, combustíveis, oleaginosas, minérios e carne. Caíram as vendas de veículos, frutas, café e chá e máquinas elétricas. As importações cresceram 7%.
Segundo a OMC, a alta de preços de minerais críticos, metais preciosos e energia favoreceu as exportações sul-americanas. A região, porém, segue à margem da cadeia de IA, com participação inferior a 1% nesse comércio.
O Brasil aparece no relatório entre os fornecedores que ampliaram a produção e o embarque de petróleo, ao lado de EUA e Noruega. Isso ajudou a compensar a queda de cerca de 24% nas exportações de petróleo do Oriente Médio no semestre.
Em serviços, as exportações brasileiras de serviços de computação cresceram 13% no segundo trimestre. A OMC cita o país entre exportadores emergentes que avançaram rapidamente nesse segmento, ao lado de Malásia (34%) e Paquistão (23%).
O relatório também registra a disparada dos fertilizantes, insumo do qual o agronegócio brasileiro depende de importação. O Golfo respondia por 24,8% das exportações globais de nitrogenados. A tonelada da ureia superou o dobro do preço anterior em abril, a cerca de US$ 850, e voltou a US$ 400 em julho.
As projeções para 2027, segundo a OMC, dependem de uma solução para a guerra no Oriente Médio. Segundo a entidade, se o conflito se prolongar ou se intensificar, as estimativas para o próximo ano podem se mostrar otimistas demais.

Fonte: FolhaPress