No Mundo
Terça-feira, 4 de agosto de 2026

Modelos de IA da China contornam cerco da Casa Branca e avançam nos EUA

Apesar das tentativas da Casa Branca e de legisladores dos Estados Unidos de frear o avanço dos modelos de IA chineses, o uso de plataformas do tipo tem avançado de forma consistente entre empresas americanas o que sugere que as tentativas de represálias à China podem ter saído pela culatra.
Companhias dos EUA processaram semanalmente, desde 8 de fevereiro, mais de 30% de seus tokens com modelos desenvolvidos na China, segundo a plataforma OpenRouter. A participação chegou a 46% em algumas semanas ante 11% na média dos 12 meses anteriores e apenas 4,5% no primeiro semestre de 2025.
A OpenRouter funciona como um intermediário que permite a desenvolvedores acessar, por uma única interface, centenas de modelos de empresas como OpenAI, Anthropic, Google, Alibaba, DeepSeek e Moonshot. Tokens são as unidades em que os sistemas dividem textos para processá-los. O indicador não equivale ao número de usuários nem à receita de cada companhia, mas oferece uma medida do volume de trabalho entregue aos modelos.
A tendência ganhou força com a popularização de agentes de IA, sistemas capazes de encadear dezenas de operações para executar tarefas como pesquisar informações, escrever código e operar ferramentas. Segundo a OpenRouter, uma solicitação feita por um agente consome, em média, 15 vezes mais tokens do que uma interação humana comum.
O avanço chinês é impulsionado sobretudo pela combinação de preço, desempenho e abertura dos modelos de IA. Modelos como DeepSeek, Qwen, da Alibaba, GLM, da Z.ai, e Kimi, da Moonshot, alcançaram resultados próximos aos de sistemas americanos de ponta, mas podem custar menos e, em muitos casos, disponibilizam seus parâmetros os valores que determinam como cada um produz suas respostas para download e modificação .
Adotar um modelo chinês não significa necessariamente enviar informações à China, algo que alguns críticos americanos chegaram a apontar como um risco. Quando os modelos são abertos, uma companhia pode executá-los em servidores próprios ou contratar um provedor americano, mantendo os dados nos Estados Unidos.
O lançamento recente do Kimi K3, com desempenho próximo aos modelos mais poderosos da OpenAI e da Anthropic, vem reforçando a pressão sobre os laboratórios americanos.
Além disso, enquanto os principais produtos de OpenAI e Anthropic só podem ser acessados pelos serviços controlados pelas empresas, os pesos do Kimi podem ser hospedados e modificados por terceiros.
A vantagem de preço varia conforme a tarefa. A Moonshot cobra US$ 3 por 1 milhão de tokens de entrada e US$ 15 pela mesma quantidade de saída. O GPT-5.6 Sol custa cerca de US$ 5 e US$ 30, respectivamente, enquanto o Claude Fable 5 chega a US$ 10 e US$ 50.
Nos testes gerais da Artificial Analysis, cada tarefa custou em média US$ 0,94 com o Kimi K3, ante US$ 1,04 com o sistema da OpenAI e US$ 1,80 com uma versão do Claude.
Em avaliações profissionais mais longas, porém, o Kimi produziu respostas mais extensas e executou mais etapas, eliminando parte da economia. Por isso, especialistas afirmam que o custo por tarefa é mais relevante que o preço nominal de cada token.
A expansão dos modelos chineses indica que eles estão se transformando não apenas em produtos, mas em fundações sobre as quais desenvolvedores de outros países constroem sistemas especializados.
Um relatório publicado em março pelo Congresso americano cita a estimativa de um investidor da Andreessen Horowitz de que 80% dos desenvolvedores americanos que trabalham com ferramentas abertas já recorrem a tecnologias chinesas.
Washington tenta interromper esse processo principalmente pelo controle da infraestrutura. Desde 2022, os EUA restringem a venda à China de chips avançados e equipamentos necessários para fabricá-los. As regras foram ampliadas para atingir servidores, intermediários e data centers instalados em outros países que treinem modelos para companhias chinesas.
Os EUA também limitam certos investimentos americanos em empresas chinesas de IA e proíbem o uso do DeepSeek em dispositivos de alguns órgãos federais. E projetos em discussão no Congresso podem ampliar as restrições no serviço público.
O lançamento do Kimi K3 acirrou movimentações em defesa de mais sanções. E, segundo a imprensa local, autoridades da Casa Branca têm estudado a possibilidade de restringir ou proibir o uso de modelos chineses nos EUA.
Além disso, Washington tem ameaçado desenvolvedores chineses por supostas infrações à propriedade intelectual de empresas de IA americanas.
A acusação parte de companhias como OpenAI e Anthropic, que dizem que laboratórios chineses usaram contas falsas e redes de intermediários para coletar grandes quantidades de respostas de seus modelos e treinar concorrentes.
A técnica, conhecida como destilação, é legítima quando autorizada, mas pode violar contratos e direitos de propriedade intelectual quando realizada de forma clandestina. A Moonshot, criadora do Kimi, nega tê-lo feito.
“Há uma assimetria de informação. A China argumenta que consegue fazer modelos mais otimizados, com infraestrutura própria e seus próprios chips”, diz Diogo Cortiz, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pesquisador do Centro de Estudos sobre Tecnologias Web.
“Já os EUA acusam os chineses de roubo feito pelo processo de destilação e de usar a infraestrutura de outros países, mas ainda não mostraram evidências robustas para sustentar a acusação.”
De acordo com Cortiz, a comunidade técnica e científica, quando se apropria desses modelos chineses, atesta que eles têm desempenho otimizado e rodam com menos infraestrutura um sinal de que a China de fato consegue fazer mais com menos recursos.
No Legislativo americano, de todo modo, há iniciativas para emparedar empresas que usam modelos da China. Em abril, dois comitês da Câmara abriram uma investigação sobre Airbnb e Anysphere, fabricante do programa de código Cursor, por sua exposição a modelos do país asiático.
Os parlamentares questionam onde os sistemas são hospedados, quais informações recebem e se podem criar vulnerabilidades ou dependência tecnológica.
A eficácia do cerco, contudo, é contestada até dentro do setor tecnológico dos EUA. Restrições de acesso aos chips elevaram o custo do treinamento na China, mas também incentivaram os laboratórios do país a buscar arquiteturas mais eficientes e a investir nos modelos abertos o que acelera a adoção da IA na economia do país asiático, ao mesmo tempo em que as empresas chinesas precisam investir bem menos recursos do que as americanas.
Empresas de nuvem e fabricantes de semicondutores dos EUA também lucram com a expansão dos concorrentes chineses.
Em uma carta divulgada no fim de julho, companhias como Microsoft, Nvidia, Meta e IBM defenderam diante de legisladores a preservação do ecossistema de modelos abertos. Mark Zuckerberg, presidente-executivo da Meta, afirmou que bloquear sistemas chineses não resolveria as fragilidades da indústria americana.
Quem defende os modelos abertos diz que eles reduzem custos e evitam a dependência de poucos fornecedores, além de estimular a competição e inovação. Além disso, alguns críticos temem que uma proibição venha a reforçar o poder da OpenAI e da Anthropic.
A disputa entre EUA e China, assim, deixa de estar centrada apenas em qual país tem o modelo mais inteligente. Os EUA, afinal, ainda concentram os sistemas proprietários de melhor desempenho, os chips mais avançados e a maior parte do investimento mundial.
A China, porém, começa a conquistar a camada mais aberta e barata do mercado aquela que pode servir de matéria-prima para milhares de empresas.

Fonte: FolhaPress