
O Irã está prestes a entrar no Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, visando pagamentos em moedas locais e buscando contornar sanções ocidentais.
Em reunião na Índia, presidente do Banco Central iraniano confirma adesão iminente ao NDB e defende rede de pagamentos em moedas locais entre economias emergentes
O que aconteceu
- Adesão Iminente: O Irã está na reta final para se tornar membro oficial do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), a instituição financeira multilateral do Brics.
- Anúncio Estratégico: A confirmação partiu de Abdolnaser Hemmati, presidente do Banco Central do Irã, durante reunião de ministros das Finanças do bloco na Índia.
- Desdolarização no Radar: O país busca estabelecer cooperação monetária bilateral e trilateral com parceiros do bloco, focando na liquidação de transações em moedas nacionais.
- Fuga das Sanções: A integração ao NDB abre a Teerã uma linha alternativa de financiamento para desenvolvimento, contornando o isolamento imposto pelos Estados Unidos.
O tabuleiro geoeconômico global acaba de registrar mais um movimento incisivo em direção à fragmentação das rotas financeiras ocidentais. Em um esforço claro para romper o forte estrangulamento das sanções internacionais e fortalecer os laços com economias emergentes, o Irã confirmou nesta semana que formalizará, em breve, a sua adesão ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) — o Banco do Brics.
A sinalização foi dada pelo presidente do Banco Central iraniano, Abdolnaser Hemmati, em meio a uma cúpula de ministros das Finanças e autoridades monetárias do Brics realizada na Índia, nação que ocupa a presidência rotativa do grupo em 2026. Hemmati classificou a criação do NDB como a conquista mais importante da cooperação entre os países-membros e ressaltou as intensas rodadas de negociação bancária e digital com a contraparte indiana.
Para o Irã, o movimento é o desdobramento lógico de uma aproximação consolidada. O país do Oriente Médio aderiu oficialmente à ala política do bloco em 2024, durante o primeiro ciclo de expansão internacional do Brics. Agora, ingressar na instituição com sede em Xangai e presidida pela brasileira Dilma Rousseff significa plugar-se a uma rede de liquidez blindada contra as pressões de Washington.
O interesse de Teerã na estrutura financeira do Brics vai muito além do acesso a linhas de crédito para infraestrutura. O eixo principal das discussões lideradas por Hemmati foca na chamada “desdolarização” comercial. Como o Irã possui reservas vastas de petróleo e gás, mas sofre com embargos rigorosos que o impedem de utilizar o sistema SWIFT e o dólar americano, a única via de escoamento econômico viável reside no comércio por moedas locais e plataformas digitais descentralizadas.
“Estamos buscando estabelecer uma cooperação monetária bilateral e trilateral com os Estados-membros”, declarou o chefe do Banco Central do Irã. Na prática, o país propõe desenhar acordos onde o fornecimento de energia a potências como China e Índia seja quitado em renminbis, rúpias ou mecanismos de compensação interbancária própria (como o sistema chinês CIPS), eliminando qualquer intersecção com os mercados financeiros supervisionados pelo Federal Reserve (Fed).
Os Reflexos Geopolíticos em Ano de Alta Tensão
A aproximação econômica ganha relevância adicional pelo grave momento geopolítico atravessado em 2026. O Irã continua sem um acordo pacífico e sujeito a tensões operacionais agudas no conflito indireto e direto envolvendo Israel e os Estados Unidos. O NDB, que tradicionalmente se posiciona como uma alternativa ao Banco Mundial, terá o desafio de absorver um novo sócio sob pesados embargos ocidentais sem comprometer a sua própria governança e o seu rating de crédito frente aos investidores de mercados abertos globais.
Guia do Investidor: Orientações Práticas
A adesão de um país fortemente sancionado ao NDB gera impactos secundários que devem ser monitorados de perto por gestores e investidores que operam no comércio internacional:
- Risco de Compliance para Empresas: Companhias brasileiras de agronegócio ou manufatura que possuam negócios no exterior devem monitorar as rotas financeiras do Brics. O uso de bancos e sistemas de pagamentos integrados a países sob sanções diretas (como Rússia e Irã) pode gerar alertas de compliance (Over-compliance) por parte de instituições financeiras americanas e europeias.
- Petróleo e Vias Alternativas: O aumento da facilidade financeira para o Irã escoar seu petróleo a mercados asiáticos fora do dólar tende a alterar a dinâmica de preços das commodities e do mercado paralelo de energia. Investidores em contratos futuros de Brent devem acompanhar como essa oferta “escondida” afetará as cotas oficiais da Opep+.
- O Avanço das CBDCs (Moedas Digitais de Bancos Centrais): A urgência do Irã, somada aos estudos já conduzidos pela Índia (presidência do Brics em 2026), pode acelerar o projeto de um sistema unificado de moedas digitais e blockchains do bloco.
Fonte: IstoéDinheiro
