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Quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Escola pioneira no ensino bilíngue de São Paulo é vendida para investidores

O mercado das chamadas “escolas premium” de São Paulo, que são voltadas à classe AA e vêm atraindo investidores, acaba de ter uma nova movimentação: a Stance Dual, tradicional escola bilíngue com uma sede arborizada na rua Avanhandava, na Bela Vista (região central da capital), que tem mensalidades entre R$ 8.500 e R$ 12 mil, foi adquirida pela FCM Holding por R$ 60 milhões.
O grupo do empresário Carlos Melke já é dono do Colégio Palmares desde 2022 e pretende adquirir outras quatro escolas de alto padrão na Grande São Paulo nos próximos 18 meses, de acordo com Eduardo Abreu, diretor financeiro.
O valor de R$ 60 milhões, segundo ele, se refere a um investimento de longo prazo na Stance Dual. “Por contrato, não relevamos detalhes do negócio, mas se trata de uma aquisição, com um projeto de longo prazo”, afirma Abreu.
Em seu site, a FCM Holding se define como “focada em reestruturação de empresas, ativos judiciais e transações imobiliárias oportunísticas”. Abreu diz que a aquisição da Stance Dual não está nesse perfil “de investimento em empresas endividadas”. “É uma transação de outra natureza. A Stance não tem nenhum tipo de dívida. Enxergamos a oportunidade de aportar capital na escola para otimizar a sua gestão e ampliá-la, criando o ensino médio”, afirma.
A compra ocorre em meio a uma mudança de estratégia da FCM na área da educação. O grupo controla a Ulbra, tradicional rede de ensino com origem no Rio Grande do Sul, mas vem se desfazendo de parte desses negócios. Neste ano, vendeu cinco colégios da rede, voltados a um público de renda mais baixa, ao Grupo Salta, um dos maiores grupos de escolas privadas do país. Também colocou à venda operações de ensino superior da Ulbra, que mantém sete faculdades de medicina.
Em paralelo, passou a investir no segmento de escolas de alto padrão em São Paulo, considerado promissor pelo elevado valor das mensalidades (chegam a ultrapassar R$ 10 mil). Especialistas ressaltam que o público-alvo desse setor são as famílias mais ricas do país, que têm um número cada vez menor de filhos e podem gastar mais, além de serem menos sensíveis a crises econômicas.
Outro ponto: em geral, são escolas familiares, com décadas de existência, ainda administradas pelos fundadores. Referências para a comunidade escolar, esses educadores consolidaram uma marca forte das escolas, mas, em muitos casos, enfrentam dificuldades diante de questões sucessórias ou da necessidade de investimentos crescentes em gestão e tecnologia.
A Stance Dual tem hoje 350 alunos, do ensino infantil ao 9º ano do fundamental. É um número bem abaixo do que já registrou. Antes da pandemia, chegou a ter 650 matriculados. Com a FCM Holding, pretende dar início ao ensino médio a partir de 2027, ampliando sua capacidade para 1.000 alunos, com a construção de um novo prédio.
A escola foi fundada há 36 anos por Eliana Rahmilevitz, que seguia no comando até agora. A Stance surgiu como continuidade do jardim de infância Dona Érika, fundado na década de 1950 por sua mãe, Érika Ossowiecki, que morreu em 2018. A instituição tinha como propósito inicial preparar crianças para ingressar na Escola Britânica, onde Érika lecionava. Com isso, tornou-se pioneira no ensino bilíngue na educação infantil de São Paulo.
Com o anúncio da chegada da FCM à Stance Dual, pais de alunos se sentiram inseguros com a possibilidade de Eliana deixar a escola e de que o projeto pedagógico sofra muitas mudanças. À reportagem ela disse que seguirá como diretora pedagógica e que o DNA da escola será mantido.
“Não queremos uma outra escola, temos que avançar a partir do que construímos até agora, sem nos descolar de nossa essência”, disse.
O diretor da FCM confirma que ela permanecerá e que seguirá inclusive como sócia, embora minoritária. “Essas questões societárias não impactam nas pedagógicas”, ressaltou.
Para liderar as mudanças na escola, especialmente do ponto de vista da gestão, mas também centradas na implementação do ensino médio, a FCM Holding contratou Mayra Ivanoff, ex-diretora do Colégio Bandeirantes. Ela comandou o Band por quase oito anos, de 2017 a 2024, justamente na fase em que o colégio investia em ajustes de rumo tradicionalmente voltado à preparação para os vestibulares, passou a abrir mais espaço para questões socioemocionais.
Sobre a Stance, Mayra diz “que já tem muita coisa boa, mas é preciso entender os pontos críticos que levaram ao declínio no número de alunos pós-pandemia e trabalhar para reverter esse quadro”. “As escolas hoje não podem se fechar em uma ilha, mas também não dá para se pasteurizar. É esse equilíbrio que temos que buscar”, afirmou à reportagem.
No mercado de aquisições na educação privada de alto padrão, a promessa de se preservar a identidade das escolas é recorrente. Em 2024, quando o grupo internacional Nord Anglia comprou a Móbile, a permanência dos gestores, professores e do projeto pedagógico foi enfatizada no anúncio do negócio. Foi assim também nas aquisições da Avenues São Paulo e do British College of Brazil pelo mesmo grupo.
Há mais tempo, em 2017, durante a venda da Escola da Vila para o grupo brasileiro Bahema, pais e funcionários chegaram a divulgar cartas manifestando o temor de que o projeto pedagógico fosse descaracterizado.

Fonte: FolhaPress