Negócios
Terça-feira, 13 de outubro de 2026

Dívidas de empresas em crise podem render até 8 vezes o capital investido

Compra de dívidas pode dar aos credores influência sobre renegociações, venda de ativos e mudanças na gestão de companhias em crise

    Uma dívida empresarial pode ser negociada com deságio de até 90% e ainda preservar valor recuperável para o investidor. É nessa diferença entre o preço atribuído à crise e o valor existente nos ativos, contratos e operações da companhia que atuam os investidores de special situations, especializados na compra de dívidas e outros ativos estressados. Segundo dados da MA7 Capital, essas operações podem envolver deságios entre 70% e 90% e retornos de 3 a 8 vezes o capital investido, conforme o risco, o prazo e a capacidade de recuperação. O principal desafio, porém, é distinguir uma companhia temporariamente pressionada de outra cujo modelo de negócio se tornou inviável. O aumento de 65,8% no número de empresas em recuperação judicial em 3 anos, de 3.823 para 6.341, ampliou o universo de ativos negociados com desconto, mas não transformou toda empresa endividada em oportunidade. Em alguns casos, o preço reduzido antecipa perdas maiores. Em outros, a dívida pode conceder ao investidor uma posição mais relevante nas negociações do que a própria participação acionária.

       Ao adquirir uma dívida, o investidor pode ganhar uma posição relevante nas decisões que definirão o futuro da companhia, mesmo sem controlar suas ações. O alcance dessa influência depende das garantias, da prioridade do crédito, dos contratos e das condições necessárias para liberar novos recursos. Na prática, o credor pode participar da renegociação de prazos, defender a venda de ativos, condicionar novos aportes a mudanças na governança ou cobrar medidas para preservar o caixa. O diagnóstico começa pela análise da geração de receita, da qualidade dos ativos, dos contratos vigentes, da carteira de clientes e da capacidade operacional. “O acionista pode ser o dono da empresa, mas, em uma recuperação judicial, são os credores que decidem se o plano financeiro permanece de pé. A dívida ganha força quando sua aprovação se torna necessária para alongar pagamentos, vender ativos ou liberar novos recursos. Antes de investir, porém, é preciso identificar se a companhia ainda possui uma operação que gera caixa. Sem isso, o desconto pode apenas esconder uma perda maior”, afirma Matheus Matos, sócio da MA7 Capital.

       Depois desse diagnóstico, o investidor precisa identificar qual medida pode destravar o valor preservado pela empresa. Se o problema estiver no vencimento concentrado das obrigações, a saída pode ser alongar prazos e renegociar custos. Quando existem ativos que não fazem parte da atividade principal, a venda pode gerar recursos para reduzir o passivo. Crises provocadas por falhas administrativas ou conflitos societários podem exigir mudanças na gestão e na governança. Essas decisões costumam ser combinadas, porque renegociar a dívida não corrige prejuízos operacionais, enquanto substituir executivos não resolve a falta de capital. Em sua atuação com ativos estressados, a MA7 informa ter participado de mais de 80 operações e recuperado mais de R$ 750 milhões. “A medida que destrava valor depende do ponto em que a empresa perdeu o equilíbrio. Uma companhia operacionalmente saudável pode precisar apenas de mais prazo; outra terá de vender ativos, receber capital novo ou substituir a gestão. O erro é aplicar uma solução exclusivamente financeira quando a origem da crise está na operação ou na governança”, acrescenta Matos.

       A Selic em 13,75% ao ano, após o corte de 0,25 ponto percentual promovido pelo Banco Central, ainda mantém elevado o custo de financiamento e a pressão sobre empresas dependentes de crédito. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico moderado e a seletividade dos bancos reduzem a margem para que companhias endividadas apenas substituam uma obrigação por outra. Esse ambiente pode aumentar a quantidade de ativos negociados com desconto, mas também eleva o risco de o investidor confundir preço baixo com oportunidade. Uma intervenção excessiva pode aprofundar conflitos, atrasar decisões e prejudicar áreas saudáveis da operação; uma atuação insuficiente pode preservar as causas que levaram à crise. O desafio está em reorganizar dívida, gestão e governança sem retirar da empresa a capacidade de produzir e gerar caixa. “O credor deve influenciar as decisões que protegem o caixa e aumentam a possibilidade de recuperação, mas não administrar cada detalhe do negócio. Quando a intervenção desacelera a operação, amplia conflitos ou retira autonomia de uma gestão competente, ela deixa de preservar valor e começa a destruí-lo”, conclui o especialista. 

Fonte: Gueratto Press