Negócios
Sexta-feira, 22 de maio de 2026

Disputa entre Birman e Jatahy na Azzas 2154 caminha para cisão do grupo

É como um casamento ruim: se arrastar demais, vai estourar. É assim que uma fonte a par dos negócios qualificou a disputa societária entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy, os dois principais sócios da Azzas 2154, resultado da união entre Arezzo&Co e Soma e um dos maiores grupos de moda da América Latina.
O desfecho é incerto, mas parece caminhar para uma cisão. Porém, ainda que a separação do negócio fosse factível para já, haveria, no meio desse caminho, ao menos dois obstáculos importantes: o primeiro, relacionado ao timing. Os múltiplos da companhia (indicadores financeiros usados para avaliar se uma empresa está cara ou barata) estão subvalorizados, o que poderia levar a uma precificação subdimensionada dos ativos.
O outro, uma grande dúvida em torno de quem ficaria com cada uma das marcas do grupo de moda, sobretudo duas delas: a grife de moda masculina Reserva e a de moda feminina Farm, incensada por estrelas estrangeiras em busca de “tropicalismo” e de brasilidade, e presente em espaços desejados, como a loja de departamentos Le Bon Marché, uma das mais antigas de Paris.
Há um possível desenho, costurado por bancos, segundo o qual as operações da Arezzo &Co, incluindo Hering e a Farm, ficariam sob o comando de Birman, junto à Reserva, enquanto Jatahy ficaria com as demais operações de moda feminina (Cris Barros, Animale, NV, Maria Filó). Portanto, sem a Farm. Haveria ainda a possibilidade de a Farm ter as suas ações listadas fora. A informação foi publicada primeiro pelo Valor Econômico e confirmada pela Folha.
Sem acordo, os próximos passos dependeriam das deliberações de um tribunal de arbitragem, conforme prevê o estatuto. Alexandre Birman, presidente da Azzas 2154, entrou com pedido de instauração de procedimento arbitral na última sexta-feira (15) junto à CAM (Câmara de Arbitragem do Mercado), da B3.
Birman reagiu a uma ação cautelar ajuizada em 12 de maio por Jatahy para impedir que a marca de vestuário masculino Reserva fosse retirada da unidade de negócios sob seu comando (chamado de Projeto021), localizada no Rio de Janeiro.
O trabalho de reorganização do núcleo teria durado cerca de dez meses e, segundo pessoas próximas ao negócio, previa um impacto de R$ 80 milhões no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) deste ano, além de um efeito recorrente estimado em R$ 116 milhões a partir do próximo ano.
Em um revés para Birman, a Justiça se manifestou favoravelmente à Jatahy, determinando que o primeiro se abstenha de praticar ato que leve à desintegração da unidade de negócios do Rio.
Surpresa com o pedido judicial, a Azzas 2154 alegou em seguida que a gestão da unidade de moda masculina da companhia compete ao CEO Birman nos termos do estatuto social e do acordo de acionistas. E que ao se insurgir contra isso, Jatahy iria contra ambos.
Em um recurso (agravo de instrumento) que pedia a suspensão dos efeitos da decisão liminar tomada no âmbito da cautelar, Birman se comprometia a não colocar em risco nenhuma sinergia do projeto 021 e a não desmobilizar nenhum ativo do Rio de Janeiro.
Ainda segundo o documento, o ato de Jatahy configuraria um abusivo pedido de interferência do Judiciário na gestão de uma companhia aberta, para satisfazer os interesses de um acionista, no caso Jatahy, detentor de pouco mais de 4% das ações (Birman tem em torno de 22%). O efeito suspensivo, no entanto, foi negado.
Jatahy ganhou tempo e agora tem cerca de duas semanas para contestar o agravo. Já a formação do tribunal arbitral levaria cerca de dois meses. A dúvida de especialistas é se os sócios conseguiriam uma composição até lá.
Pessoas envolvidas na operação dizem que o objetivo de Jatahy não seria brigar, mas emitir sinais mais evidentes de que o negócio não deu certo e que a melhor geração de valor para a companharia seria uma cisão. No horizonte, estaria um acordo com o bloco de Birman, partindo-se de uma visão de que, como está, a empresa não teria mais condições de existir.
De outro lado, a percepção é que a cisão do negócio até já foi discutida no passado algumas vezes, mas nunca emplacou. Além disso, seria a vontade de um sócio, Jatahy, com cerca de 4% das ações, contra a de outro, Birman, com cerca de 22%. Além de outros 70% no mercado.
Em meio ao imbróglio, segundo a Reuters, a Azzas 2154 contratou o Itaú BBA como assessor financeiro para a avaliação de diversas oportunidades estratégicas.
A ação da companhia registrou alta de 1,79% nesta quinta-feira (21) e fechou o dia cotada a R$ 19,95. Os papéis acumulam queda de 20% em 2026.
Fontes próximas dizem que a percepção de governança dos dois executivos convergem, mas, em jogo, estariam duas visões diferentes sobre o varejo de moda: uma mais industrial e ligada à distribuição de produtos como em Arezzo e Hering outra mais ligada a posicionamento e construção de marcas.
Seriam essas ideias, muito díspares em relação ao que é o varejo de moda operado no Brasil, que nublariam a estratégia de crescimento da empresa e, em consequência, seu futuro.
Procurado, o grupo Azzas 2154 diz que não comenta especulações de mercado. Alexandre Birman e Roberto Jatahy não comentaram.

Fonte: FolhaPress