PAULA SOPRANA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lojistas das principais ruas de comércio da cidade de São Paulo aguardam orientações oficiais sobre protocolos para a reabertura e não sabem como será o processo de retomada das atividades, mas já têm uma certeza: demissões estão em andamento, e muitos negócios não vão reabrir as portas.
“O varejo na capital paulista emprega 1 milhão de pessoas. Estamos no meio do incêndio. Só quando os bombeiros apagarem saberemos o tamanho do prejuízo”, afirma Altamiro Carvalho, economista da FecomercioSP.
Segundo ele, o pior momento do varejo nas últimas décadas foi na recessão. “Grosso modo, a cada ponto negativo do PIB [Produto Interno Bruto], temos 1 milhão de desempregados. Assim, podemos esperar no mínimo 5 milhões de demitidos até o fim do ano no país.”
De acordo com lideranças das entidades do comércio de rua, apesar de o cenário geral ser negativo, o tamanho do baque varia muito.
Na região central, 15 mil empresas formam os maiores e mais populares polos varejistas do Brasil. Lá estão a região do Brás (forte em produtos de cama, mesa e banho), da Santa Ifigênia (eletroeletrônicos), a rua 25 de Março (bijuterias e importados no geral), o bairro do Bom Retiro (vestuário, especialmente atacado, que abastece lojistas do Sul ao Nordeste) e o bairro da Liberdade, marcado pela cultura nipônica (restaurantes e importados).
Antes da crise de coronavírus, que levou à suspensão de atividades não essenciais desde o dia 24 de março, a região empregava 200 mil pessoas, de acordo com a Univinco (União dos Lojistas da 25 e adjacências, que monitora o centro de São Paulo), além de dar trabalho para milhares de informais (estima-se que fossem mais 200 mil).
A consolidação de dados feita pela Univinco com a entidades de cada uma dessas regiões sinaliza que pode ocorrer o fechamento de 100 mil postos, diretos e indiretos, com a pandemia.
Dados sobre microrregiões costumam ser precários, e obtê-los agora é mais complicado. Associações comerciais buscam informações no contato direto, algo que não existe durante o isolamento. Muitos lojistas também não querem dar detalhes sobre as dificuldades agora.
É o caso de empresas que atuam na rua 25 de Março e adjacências. Maior centro comercial do país a céu aberto, recebe, em dias normais, cerca de 400 mil clientes e dá trabalho a 40 mil pessoas.
“Quem já estava com a corda no pescoço fechou. Quem deu férias coletivas não sabe o que fazer porque elas já estão acabando. As medidas do governo para ajudar empresas menores travam”, diz Claudia Urias, diretora da Univinco. Segundo ela, na região da 25, ao menos 18 pontos já foram fechados.
Alguns comerciantes contam que conseguem resistir até o mês de junho, mas com dificuldade. A loja Rizzo Embalagens e Festa, que vende acessórios e fantasias para todo tipo de evento, é uma delas. Considerado um negócio grande na região, empregava 110 pessoas antes da crise. Adotou a MP (medida provisória) do governo, reduziu em 50% a jornada dos trabalhadores e, mesmo assim, teve de demitir 30.
“Conseguimos faturar 20% do total porque já tínhamos ecommerce, mas após junho vai ficar difícil”, diz Luis Brancher, gerente da Rizzo.
No Bom Retiro, polo de moda onde desembarcavam antes da pandemia cerca de 30 ônibus de outros estados por dia, 12 pontos de venda já não têm condições de reabrir, segundo levantamento do grupo de câmaras comerciais do centro. O impacto ali se espalha de muitas maneiras porque, dos 1.500 pontos comerciais, 1.200 pertencem aos próprios fabricantes.
“A clientela vinha do Nordeste, do Norte e do Sul, mas não há perspectiva de nada agora. A distribuição para outros estados simplesmente parou”, diz Nelson Tranquezi, da CDL do Bom Retiro.
Os estoques aos menos não estarão “gigantes” ao fim da pandemia, segundo ele, porque a produção vinha em baixa. Diferentemente da 25 de Março, que teve um Carnaval satisfatório, o último mês positivo para o Bom Retiro foi novembro, na Black Friday.
“Quando o tempo esfria, as vendas melhoram. Neste ano não vamos ter Dia das Mães e, pelo visto, nem frio”, diz.
O setor fechou algumas negociações pontuais de aluguel e de contratos para aliviar o peso dos custos.
Já na região da Liberdade, conhecida por restaurantes orientais e lojas de cosméticos e decoração, a estimativa é que seis pontos fecharam as portas em definitivo. “A situação está horrível, as pessoas estão dispensando um monte de empregados, pagam parcialmente aluguéis. Quem não faz delivery pode fechar”, diz Alexandre Ortiz, presidente da Associação Comercial de São Paulo no Centro.
Lojistas da área central da capital se organizam para pleitear, na prefeitura, a reabertura gradual. Vão propor um funcionamento parcial, como horários reduzidos, sem atividade ao sábado e com protocolos de segurança que incluem medição de temperatura dos clientes, uso de máscaras e de álcool em gel por funcionários e consumidores, bem como normas de distanciamento de mínimo de 1,5 metro.
“Ninguém é contra isolamento, mas, se não começarmos a trabalhar, vamos para o buraco. Porque a volta, de qualquer maneira, vai ser modesta, não vamos conseguir nem 50% do que faturávamos”, diz Joseph Riachi, da câmara de Santa Ifigênia, zona que vende eletrônicos.
Lojistas da alameda Gabriel Monteiro da Silva, no bairro Jardim Paulistano, têm utilizado a medida provisória que corta jornada e salários. Mas, mesmo nessa área, conhecida pela venda de produtos de arquitetura de interiores e de design de ponta, ocorrem demissões.
De 30 empresas consultadas pela associação local, a pedido da Folha, 15 contaram que demitiram, 21 disseram que recorreram à MP (algumas delas além de já terem feito a demissão). Caso o isolamento perdure por mais um mês, 15 disseram que deverão demitir. Apenas uma das consultadas afirmou que fecharia as portas nesse caso.
Nos bairros dos Jardins e do Itaim Bibi, de classe média alta, onde estão as ruas Oscar Freire e a João Cachoeira, não há dados sobre demissões ou fechamento empresas.
Nos Jardins, onde marcas globais de grife ocupam boa parte da Oscar Freire, há um movimento comercial para reunir dezenas de lojistas, incluindo alguns do Itaim Bibi, em um market place de alto padrão. “As marcas vão sofrer um pouco. Com dólar a quase R$ 6 e isolamento, quem vai comprar roupa para ir aonde? Não vamos ter grandes festas, almoços, eventos, happy hour. Aqui no Brasil, os produtos custam o dobro do que lá fora, mas quem vai viajar?”, diz Rosangela Lyra, presidente da Associação Comercial dos Jardins e ex-diretora da Dior no Brasil por 28 anos.
Segundo ela, a perspectiva pode até ser positiva para o comércio no bairro pós-isolamento, já que o público que consumia em shoppings pode preferir ir para a rua em um primeiro momento, com receio de locais fechados.
“Apelidamos esse momento de NNN, nosso novo normal”, diz a ex-Dior, que comanda as ações em grupos de WhatsApp da região.
Economia
Segunda-feira, 19 de outubro de 2026
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