Economia
Segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CDI ou IPCA+: qual indexador faz mais sentido para o seu investimento?

Com a Selic (taxa básica de juros da economia) em patamar elevado nos últimos anos, o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) voltou a oferecer remuneração atrativa aos investidores. Ao mesmo tempo, os títulos atrelados à inflação permitem contratar uma taxa real (acima do IPCA) para os próximos anos.
Diante desse cenário, muitos investidores se perguntam qual é a melhor opção. A resposta não depende apenas da rentabilidade oferecida hoje, mas principalmente do prazo e do objetivo do investimento, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
Para objetivos de curto prazo, o CDI, que acompanha a Selic, atualmente em 14%, tende a ser mais adequado por oferecer menor exposição às oscilações do mercado. Já para metas de longo prazo, como a aposentadoria, os títulos IPCA+ permitem proteger o poder de compra e garantir antecipadamente uma remuneração real, desde que sejam mantidos até o vencimento.
“A lógica é casar o investimento com a obrigação. Se o meu compromisso futuro cresce com a inflação, faz sentido que esse investimento também esteja vinculado à inflação”, afirma Martin Hauser, planejador financeiro CFP pela Planejar.
A principal diferença entre os dois indexadores está na previsibilidade do retorno. Enquanto a rentabilidade do CDI depende do comportamento futuro da taxa de juros, os títulos atrelados ao IPCA permitem ao investidor contratar antecipadamente uma taxa real para os próximos anos.
“Quando você vai traçar uma meta de longo prazo, é muito mais adequado pensar em IPCA+”, diz Michael Viriato, colunista da Folha e assessor da Casa do Investidor. Isso não significa, porém, que o IPCA+ seja a melhor opção em qualquer cenário.
“Você compra o título não para ganhar do CDI, mas para se proteger da inflação”, afirma.
Com a Selic em 14% ao ano, o CDI continua entre as aplicações mais atrativas da renda fixa. A questão, portanto, não é escolher um indexador em detrimento do outro, mas entender qual deles está mais alinhado ao objetivo de cada investimento.
Segundo Viriato, para um prazo de dois anos, o CDI seria a opção mais adequada. Em dez anos, porém, a decisão passa a depender também da disposição para enfrentar períodos em que os títulos atrelados à inflação podem apresentar um desempenho inferior ao do CDI.
Segundo o especialista, quem tem como prioridade obter a maior rentabilidade possível no curto prazo pode preferir os investimentos pós-fixados. Robson Gonçalves, professor de MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que o IPCA+ é adequado para quem faz um planejamento de longo prazo, como a aposentadoria ou a educação dos filhos, e não pretende resgatar o dinheiro antes do vencimento.
Já o CDI pode funcionar melhor para uma reserva que o investidor possa precisar acessar no caminho. No IPCA+, embora seja possível resgatar o título antes do vencimento, o investidor fica sujeito à marcação a mercado. Ou seja, se os juros subirem depois da compra, o título pode perder valor no momento do resgate.
Hauser, da Planejar, diz que o investidor que opta pelo CDI assume o chamado risco de reinvestimento. A taxa elevada de hoje vale apenas para o período atual, e não há garantia de que o dinheiro poderá ser reaplicado aos mesmos juros daqui a dois, três ou cinco anos.
“Transformar a taxa de hoje em uma premissa para os próximos dez, 15 anos é perigoso, porque a taxa de hoje está muito acima da média histórica”, afirma.
Para Hauser, o prazo do investimento deve ser compatível com o momento em que o dinheiro será utilizado. No caso do IPCA+, quanto mais próximo estiver o vencimento do momento em que o recurso será necessário, menor tende a ser a exposição à chamada ‘duration’, medida que indica a sensibilidade do preço de um título às mudanças nas taxas de juros.
A estratégia, diz o planejador, não precisa ser uma escolha entre um indexador e outro. O CDI pode concentrar os recursos destinados a compromissos mais próximos, enquanto o IPCA+ pode financiar objetivos de médio e longo prazo.
“CDI e IPCA+ deixam de ser concorrentes quando cada um tem uma função clara dentro do planejamento.”
A ideia de que um investimento deve ser escolhido segundo o objetivo que se pretende proteger também aparece em um estudo da XP e da Atlantiqis, que questiona a noção de que o CDI seja, necessariamente, o ativo “livre de risco” para o investidor brasileiro.
O estudo mostra que, entre janeiro de 2019 e janeiro de 2023, o retorno nominal acumulado do CDI, de cerca de 27%, foi praticamente consumido pela inflação do período. Em 2020 e 2021, período da pandemia de Covid-19, o investimento teve retorno real negativo, de 1,73% e 5,37%, respectivamente.
Na prática, isso significa que um investimento pode ter baixa oscilação e ainda assim não proteger o poder de compra do investidor.
Para uma pessoa que está juntando dinheiro para uma despesa futura que acompanha a inflação, por exemplo, o risco relevante não é apenas perder dinheiro nominalmente, mas chegar ao momento de usar os recursos e descobrir que eles não cresceram no mesmo ritmo da obrigação.
O Brasil, inclusive, já oferece títulos públicos desenhados para objetivos específicos de longo prazo. O Tesouro RendA+ é voltado à formação de uma renda complementar para a aposentadoria, enquanto o Tesouro Educa+ foi criado para ajudar no planejamento de despesas com educação.
VANTAGEM DOS INDEXADORES
Um tema que vem sendo acompanhado de perto pelo mercado financeiro é a situação fiscal do país, que pode influenciar as expectativas para inflação e juros.
Para Robson Gonçalves, da FGV, um eventual ajuste fiscal no próximo ano poderia reduzir as pressões sobre os preços e abrir espaço para uma queda maior da Selic. “Se você tiver um ajuste fiscal, você vai retirar a pressão da inflação. Cai o IPCA, mas cai a Selic também”, afirma.
Nesse cenário, a vantagem atual do CDI em relação ao IPCA+ tenderia a diminuir. Com juros menores, o pós-fixado perderia parte da atratividade, enquanto a possibilidade de garantir antecipadamente uma taxa real poderia tornar os títulos atrelados à inflação mais interessantes para objetivos de longo prazo.
O movimento contrário também precisa ser considerado. Uma piora das expectativas fiscais poderia manter os juros elevados por mais tempo, prolongando a vantagem do CDI no curto prazo.
Para quem já comprou um IPCA+, porém, uma alta dos juros pode reduzir o preço do título caso seja necessário resgatá-lo antes do vencimento.
Por isso, os especialistas recomendam cautela ao projetar os retornos atuais para os próximos anos.
“Não [se deve] confundir remuneração passada com remuneração futura. E o investidor não deve colocar num título longo um recurso que pode precisar no curto prazo”, diz Gonçalves. A escolha deve partir do perfil e das necessidades de cada investidor.

Fonte: FolhaPress