Política
Sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Bancada evangélica cresce puxada por influenciadores como Nikolas e Pavanato

Com três dos cinco deputados mais votados do país, mais um filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a bancada evangélica na Câmara vai aumentar a partir de 2027.
A próxima legislatura tem 97 parlamentares que se declaram evangélicos, 16 a mais do que os eleitos em 2022. O grupo passou de 15,8% para pelo menos 18,9% das 513 cadeiras, segundo levantamento do Iser (Instituto de Estudos da Religião) que mapeou a identidade religiosa do novo Parlamento.
Católicos tiveram a maior expansão absoluta: de 237 deputados em 2022 (46,2%) para 270 em 2026 (52,6%). Houve também uma redução de parlamentares classificados como cristãos sem denominação, de 81 para 64, e daqueles cuja identidade religiosa não foi identificada, de 96 para 68. Os deputados sem religião caíram de 12 para 6.
A representação evangélica pode ter dilatado, mas permanece aquém da proporção desse segmento no país. No Censo de 2022, crentes eram 26,9% da população com 10 anos ou mais. A percepção entre membros da bancada é a de que há espaço para avançar ainda mais.
“Continuamos subrepresentados no Congresso”, diz Sóstenes Cavalcante, ex-presidente desse bloco e líder do PL na Câmara. “Espero que, com a renovação, a gente consiga uma bancada ainda mais aguerrida e eficaz, para que possamos trazer bons resultados das nossas lutas por valores morais no Parlamento.”
A repaginada foi marcada pelo desgaste da velha guarda tradicional das igrejas. Dos cinco deputados que se revezaram no comando do bloco evangélico desde 2018, apenas um se reelegeu: Sóstenes, respaldado no pleito por seu pastor, Silas Malafaia.
A nova composição vem impulsionada por uma juventude com altíssimo engajamento digital. Os dois deputados mais votados do Brasil são evangélicos: Nikolas Ferreira (PL-MG), 30, e Lucas Pavanato (PL-SP), 28. O quarto melhor colocado, André Fernandes (PL-CE), 28, também é.
Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), caçula dos filhos homens do ex-presidente e batizado em 2024 na igreja Sara Nossa Terra, estreia em Brasília. Novos nomes surgiram apoiados por pautas de costumes e redes virtuais, a exemplo de Guilherme Kilter (Novo-PR), 24. Líder de jovens na Primeira Igreja Batista de Curitiba, ele disse à Folha que a bancada evangélica “parou no tempo” e “não consegue mais se comunicar de forma clara”, com “um posicionamento meio simplista”. Quer ajudar a modernizar essa turma que é hoje liderada pelo decano Gilberto Nascimento (Pode-SP), 70 não reeleito.
Também ficaram de fora ou na suplência os ex-presidentes da bancada Cezinha de Madureira (PL-SP), Silas Câmara (Republicanos-AM) e Eli Borges (PL-TO), que tentou vaga no Senado. Pastor Eurico (PSDB-PE), capelão de muitos dos cultos semanais da bancada no Congresso, foi outro barrado nas urnas.
Herdeiros de grandes denominações saíram derrotados das urnas. Nenhum dos filhos do missionário R.R. Soares foi eleito.
A Universal do Reino de Deus reelegeu alguns quadros, entre eles Marcos Pereira, presidente do Republicanos, costela partidária da igreja. Já parentes do bispo Edir Macedo malograram na missão: nem o sobrinho Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), que concorria a senador, nem a irmã Edna Macedo (Republicanos-SP). Ela disputou um sexto mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo e pediu “a todos que caminharam” ao seu lado para que “não fiquem tristes”, pois confia “nos propósitos de Deus”.
Entre os 97 evangélicos mapeados, 55 foram reeleitos, o equivalente a 56,7% do grupo. O número está abaixo do percentual de reeleição geral, de 60,62%, conforme levantamento da Secretaria-Geral da Mesa da Câmara.
O PL de Flávio Bolsonaro, que disputa o segundo turno presidencial contra Lula (PT), concentra a maior parcela, com 42 deputados crentes. Em seguida aparecem Republicanos, com 14, e União Brasil, PSD e PP, 7 cada, e Podemos, com 6 eleitos.
São sete parlamentares de partidos à esquerda: três no PT, dois no PSB, o pastor Henrique Vieira pelo PSOL e André Janones, que comanda uma tropa digital com seu “Exército do Lula”, na Rede. Aos 31 anos, a petista Camila Jara, que militava nas pastorais da Igreja Católica até se converter ao evangelicalismo, foi a deputada mais bem votada em Mato Grosso do Sul.
O Sudeste reúne o maior contingente evangélico: 39 deputados evangélicos, o equivalente a 21,8% da bancada da região. O Centro-Oeste tem o maior peso proporcional entre o total de deputados eleitos (24,4%), e o Nordeste, a menor (12,6%).
A antropóloga Livia Reis, que coordenou a pesquisa, aponta uma mudança significativa na forma como a identidade cristã foi instrumentalizada pelos candidatos, “de uma forma mais difusa, sem necessidade de vinculação a igrejas específicas”. Entram aí influenciadores digitais cristãos, aceleradores da renovação política Nikolas ajudou a eleger vários, como Pavanato em São Paulo e Julia de Castro (PL) no Rio.
Reis também vê uma sobreposição da chamada bancada BBB: Boi (agro), Bala (segurança pública) e Bíblia (evangélica, que pode se associar com católicos conservadores). “A quase totalidade dos deputados militares ou vinculados às polícias é cristã, revelando o sucesso eleitoral da articulação entre pautas punitivistas e cristãs conservadoras.”
Os dados congregados pelo Iser não devem ser confundidos com a composição oficial da futura FPE (Frente Parlamentar Evangélica). A classificação considera a religião declarada dos deputados, enquanto a participação na bancada depende de inscrição voluntária e conta, inclusive, com colegas de outras crenças —que não necessariamente atuam no bloco, mas ajudam a viabilizá-lo, já que é preciso um mínimo de 171 signatários para que uma frente parlamentar seja formalizada.
A primeira FPE coincidiu com o primeiro ano de Lula na Presidência, 2003, embora informalmente a bancada evangélica exista desde a Assembleia Nacional Constituinte, que pariu a Constituição de 1988.
SENADO 95% CRISTÃO
A cartografia religiosa traçada pelo Iser revelou um Senado 95% cristão. A maioria é católica: 58 de 81 senadores (71,6%). Há 15 autodeclarados evangélicos (18,5%), além de quatro parlamentares que se apresentam com um genérico “cristão”.
O PL, a principal morada partidária do bolsonarismo, concentra mais da metade do grupo, com 8 evangélicos. Os demais dividem-se entre Republicanos (2), Novo (2), União Brasil (1), PP (1). A representante solo da esquerda é Samanda Alves de Freitas (PT-RN), a Samanda de Lula.
Entre os estreantes na Casa há nomes como Michelle Bolsonaro (PL-DF) e Deltan Dallagnol (Novo-PR). A minoria não cristã tem dois senadores com filiação religiosa não identificada, Romário (PL-RJ) e Styvenson Valentim (Pode-RN), além dos judeus Davi Alcolumbre (União-AP), atual presidente do Senado, e Jaques Wagner (PT-BA).

Fonte: FolhaPress